"O aquecimento global existe, mas há quem não queira ver os factos"

Investigador francês em glaciologia, Jean-Robert Petit, esteve em Lisboa para participar na conferência "Alterações Climáticas: por onde passa o futuro". Ao DN contou como foi ao polo Sul, para arrancar do gelo as mensagens que ele guarda sobre o clima da Terra dos últimos 400 mil anos

Foi um dos pioneiros dos estudos climáticos com os cilindros de gelo da Antártida. Como aconteceu isso?

Sou da segunda geração que fez estes estudos. A primeira começou em 1957 e percebeu que havia ali um enorme potencial para o clima. Claude Lorius [glaciologista francês] fez parte da primeira geração e estabeleceu uma colaboração com os soviéticos na estação Vostok, na Antártida, para recolher as colunas de gelo em profundidade e estudá-las. Por isso, fomos os primeiros a analisar ali os níveis de CO2 e as temperaturas do passado, e a mostrar a ligação entre ambos. Eu fui trabalhar com Claude Lorius.

Foi um acaso?

Foi uma história de encontros. Tinha feito a licenciatura e na década de 1970 estavam à procura de estudantes para trabalhar em glaciologia. Pensei: é isto. Era montanhista, ia muitas vezes aos glaciares, fazia esqui e via-me a trabalhar naquilo. Conheci o Claude Lorius, e percebi que queria trabalhar com ele.

Em 1999 foi o principal autor do artigo na Nature com a primeira reconstrução climática dos últimos 400 mil anos.

Sim. Doze anos antes já tinha sido publicado, a partir de amostras de gelo de Vostok, o registo climático de 150 mil anos. Foi uma espécie de Big Bang, porque pela primeira vez tínhamos acesso à composição atmosférica do passado até cem mil anos antes, com a reconstrução climática desse período, e podíamos ver a relação entre a temperatura e o CO2. Foi com os cilindros de gelo de Vostok que a glaciologia ganhou o seu lugar na paleoclimatologia, em 1987. As amostras mostravam essa relação entre o aumento da temperatura global e o aumento do CO2 na atmosfera.

Isso foi uma surpresa?

Eu era jovem na altura, tinha 30 anos, estava a começar, e não me dei conta da sua importância. Mas Claude Lorius e os outros que em 1990 escreveram um artigo sobre isso, tiveram logo essa visão.

Quando foi a Vostok pela primeira vez?

Em 1994. Os russos, que tinham desenvolvido a tecnologia para fazer as perfurações, recolhiam amostras e nós fazíamos as análises de geoquímica, e publicávamos em conjunto.

Qual era a sua área de estudo?

Estudei as poeiras dos vulcões, do deserto e as poeiras extraterrestres nas amostras de gelo.

E o que contavam essas poeiras?

Durante as eras glaciais, há mais poeiras no gelo. Com a temperatura global mais baixa, o ar mais seco e menos vegetação, as poeiras conseguiam viajar mais, até à Antártida. Vemos essa relação clara no gelo durante esses períodos. Em relação às poeiras dos vulcões, conseguimos datar as suas erupções de forma muito precisa. Neste momento já temos registos que vão até aos 800 mil anos no passado.

É emocionante ver o passado da Terra desvendado no gelo?

Sim, sentimo-nos muito pequenos. Se se pensar nas pinturas rupestres de Lascais [em França], de há 17 mil anos, ou no homem de Neandertal, há 40 mil anos, é tão recente, afinal. É muito interessante ver como a história da humanidade é tão pequena naquela coluna de gelo imensa.

Que espaço ocupa aí a história humana?

Num cilindro de gelo de Vostok, um ano corresponde a um centímetro. Portanto, um metro são cem anos. Os que estudámos com os registos geoquímicos e climáticos de 400 mil anos tinham 3300 metros de comprimento.

Vostok é o sítio mais frio da Terra. Como foi viver e trabalhar lá?

Só íamos no verão, quando a temperatura anda entre os 28 e os 30 graus negativos. Se não houver vento, pode-se trabalhar no exterior. No inverno, as temperaturas chegam aos 80 graus negativos. As missões duravam três meses, entre novembro e fevereiro e havia muita cooperação e um entendimento maravilhoso. E ver o gelo sair de três mil metros de profundidade, em cilindros com três mil metros de comprimento e dez centímetros de espessura, transparente como o cristal, um objeto belo, e saber que se vai fazer falar o passado com algumas medições, é fantástico. De cada vez, é um maravilhamento. Foi com esse espírito que estive em Vostok e adorei todas essas missões. Não foi perfeito, houve alguns problemas técnicos para resolver, mas foi formidável depois chegar àqueles resultados. De volta ao laboratório, a análise do gelo é outra maravilha: ser o primeiro a estudá-lo. E depois é fácil publicar, porque somos os primeiros a contar aquela história.

Com todas essas provas, como vê o facto de haver ainda quem diga que o aquecimento global não existe?

São pessoas que não querem ver os factos. Não se trata de acreditar ou não, isto não é uma religião, são factos. Mas há grandes interesses financeiros. As companhias petrolíferas não ficam satisfeitas se o seu petróleo não for consumido.

Às vezes tem saudades de Vostok e da Antártida?

Não. Foi uma aventura fantástica, guardo-a no coração e sei que fizemos tudo o que podíamos fazer ali, em termos de ciência. Ainda tenho amigos dessas missões. É bom que outros continuem e é bom deixar aventuras também para eles.

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