"A pandemia fez ver que é fundamental estar próximo das pessoas"

Cardiologista, acumula a prática clínica com a investigação e a direção Algarve Biomedical Center. É o coordenador da Rede de Laboratórios Científicos para Situações de Emergência e Riscos de Saúde Pública que pretendem praticar ciência sem capelinhas.

Acaba de criar a rede de laboratórios científicos para situações de emergência, como é que funciona?
Estamos a falar de 24 instituições do ensino superior público, universidades e politécnicos, e os seus laboratórios, com o Instituto Nacional Ricardo Jorge [INSA], que se disponibilizam para, em caso de necessidade como aconteceu nesta pandemia, rapidamente atuarem e encontrarem soluções.

Quando começou a colaboração ?
Logo no início. Existia uma grande necessidade de realização de testes covid, não havia kits no mercado e os laboratórios juntaram-se para encontrarem a solução, o que foi essencial e potenciou esta rede. Os ministros do Trabalho, Solidariedade e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, e da Tecnologia, Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, lançaram o desafio e os colocaram em contacto, um passo essencial para criar a rede. Conseguiu-se testar todos os lares do país, utentes e funcionários, estes últimos em contínuo. É um modelo inovador, também na Europa, e evitámos 940 surtos.

Qual foi o papel do Algarve Biomedical Center (ABC)?
O ABC entrou logo no início. Éramos um centro pequeno e colocámos todos os esforços no combate à pandemia. Atuamos perante as necessidades no terreno, o que é algo que nos diferencia desde sempre. O ABC foi criado [2016] com o Centro Hospitalar Universitário do Algarve e a Universidade do Algarve. Cada vez mais, a investigação científica vai ter que ser assim: encontrar soluções para os problemas das pessoas e aplicá-las no terreno.

Esse é um debate antigo. A pandemia levou a uma alteração do funcionamento das instituições?
A pandemia tem sido uma fase onde se reuniram todos os esforços e se percebeu que é fundamental estar fora das instituições e próximo da população. Houve uma mudança e o ABC tem um papel importante. A Ciência não pode ser estar num laboratório a fazer experiências com um mundo lá fora a ter problemas e dificuldades. Esta pandemia trouxe isso, que espero que fique, em termos nacionais e europeus. Fomos dos países mais organizados e posso dizê-lo porque representei o país na rede europeia criada por causa dos testes. Éramos nitidamente quem tinha esta rede melhor organizada, em que o desenvolvimento de um é passado rapidamente a outro de forma a que todos o possam aplicar na população. Atualmente, já fazemos isto não pondo em causa as outras linhas de investigação.

É esse o caminho?
Tem de ser. Os centros devem continuar com as suas linhas de investigação in house, mas com a preocupação de estarem disponíveis para a população. Daí que a assinatura do acordo da criação da rede [12 de abril] seja um marco histórico.

Teve esse feedback por parte dos outros países europeus?
Sim. Houve muito interesse nas reuniões internacionais sobre como nos organizávamos. Nos outros países , apareciam projetos a ser postos em prática por centros individuais. Em Portugal, apareceu desde o início esta rede, nessa altura, com 21 centros, surgiram depois mais três. Perguntavam como tínhamos conseguido e a resposta foi simples: havia uma pandemia e percebeu-se que só juntos conseguiríamos encontrar soluções em tempo útil.

Há a crítica, inclusive na Ciência, que em Portugal funciona-se por capelinhas. Reconhece a crítica?
Diria que sempre existiram muitas capelinhas. Esta pandemia veio demonstrar que é possível não haver essas capelinhas. Somos um país pequeno, temos de estar juntos e vamos continuar juntos além desta pandemia, o que vai tornar o país mais competitivo a nível científico. Ninguém pode achar que tem todo o conhecimento e capacidade.

Quais foram as primeiras dificuldades da covid-19 superadas?
Primeiro, não havia kits para fazer os testes porque só se usava uma marca. Nas investigações, estes laboratórios já usavam uns kits menos automatizados, o que implica fazer os reagentes e pô-los a funcionar. Depois, não havia zaragatoas, juntou-se o ABC, o Instituto Superior Técnico e uma indústria e produziram-se zaragatoas. Mais tarde, era necessário métodos para testar mais rápido, estes centros encontraram as soluções, também para levar os testes para o terreno. Estas dificuldades foram ultrapassadas com desenvolvimentos constantes, quer em tecnologias para encontrar alternativas; quer em estudos para tomar decisões durante a pandemia.

Qual é o próximo desafio?
A preocupação é a vigilância das variantes. Este vírus tem várias variantes, o que era expectável, e temos de estar atentos para perceber qual será o impacto em termos clínicos e na proteção da vacinação. O INSA coordena essa parte, quer na sequenciação para a deteção de novas variantes quer com as conhecidas. E vamos continuar a desenvolver testes, como fez a Universidade de Aveiro com os testes de saliva, que podem ser muito úteis nas crianças.

Quando é que se devem fazer os testes PCR e os testes antigénios?
São testes diferentes, com características diferentes e para situações diferentes. A sensibilidade de um teste antigénio não é de longe a de um teste PCR. Estes são mais fidedignos, detetam o material genético do vírus e dizem com muita certeza se o temos ou não naquela amostra. Os testes antigénio são muito menos sensíveis. Necessitam de uma carga viril muito alta para serem positivos e, no início das infeções, vão ser negativos. Estão validados para pessoas sintomáticas porque são as que têm carga viral mais alta, de 80 % ou mais.

Significa que não adiantam em quem não tem sintomas.
Nos estudos em populações assintomáticas, que compararam a realização de um teste PCR e de um teste antigénio, a percentagem de coincidência é muito mais baixa. São cargas virais mais baixas e os antigénios não detetam. Os resultados devem ser interpretados de acordo com estas informações e os testes utilizados de forma adequada. Não teria sentido usar os testes antigénio no rastreio das cadeias de transmissão porque iram falhar.

Não há falsos positivos mas há falsos negativos?
Também há falsos positivos, embora em percentagens inferiores, depende muito da marca do teste, uns têm mais falsos positivos que outros. No PCR estamos a detetar o material genético do vírus; nos antigénios, estamos a detetar proteínas do vírus, daí que as recomendações sejam claras: qualquer teste antigénio positivo deve fazer um teste PCR confirmatório.

As pessoas sem sintomas fazem um teste antigénio quando vão viajar ou estar com amigos, há autarquias que oferecem os testes, se é grande a probabilidade de dar negativo, não é dinheiro para o lixo?
Esse tipo de avaliação tem que ser feito de forma global. Qualquer identificação de testes positivos em pessoas assintomáticas implica quebrar cadeias. Se há um teste antigénio positivo que se confirma com o PCR e, depois, se testam todos os contactos, implica quebrar cadeias de contágio.

Mas se tiver um teste antigénio negativo pode facilitar nas regras?
Não, nem pensar, deve manter os cuidados, porque é grande a probabilidade de uma pessoa que testou negativo estar infetada. Não pode usar o teste antigénio para esse efeito. Mesmo um teste teste PCR negativo garante 100 % de segurança.

E uma pessoa vacinada?
A vacinação continua a não evitar infeções, diminui em muito as situações graves e o número de casos, mas não evita a 100%. Temos de continuar a ter cuidados enquanto não tivermos uma taxa de cobertura muito grande da vacinação.

Quando podemos começar a aliviar as medidas?
Nos próximos tempos não o poderemos fazer, mesmo com a grande cobertura de vacinação. Tem-se falado na imunidade de grupo e não há sequer uma concordância sobre a percentagem de pessoas que é preciso vacinar para atingir a imunidade de grupo. Como a vacina continua a ter falências (não há vacinas eficazes a 100 % para este tipo de vírus), isso vai interferir nessa percentagem. Se aparecerem variantes cuja vacina não seja eficaz, também vai afetar a imunidade.

Esse processo será mais rápido do que para descobrir uma vacina?
O grande avanço nos últimos tempos é o tipo de vacinas produzidas. O facto de algumas delas serem RNA [material genético do vírus], levam a que se possa montar o RNA nas fábricas de produção e adaptar à variante dominante. O mais provável, é que possa haver várias vacinações nos próximos anos e com RNA de vírus diferentes. A vacina da gripe já é isso, não faz é com RNA.

Essa adaptação está a ser pensada?
Está a ser pensada pela própria BioNtech (Pfizer) para o RNA da variante britânica que, neste momento, é a dominante. Mas implica que, ao mudarem o RNA, fazer testes e estudos para demonstrar a sua eficácia. É um trabalho em contínuo.

O vosso trabalho no terreno começou com o centro drive-thru no estádio do Algarve, os primeiros, em março de 2020.
Começámos com o drive-thru [recolha da amostra através da janela do carro] porque havia necessidade de tirar as pessoas das instituições hospitalares, nomeadamente os que estavam assintomáticos ou com poucos sintomas. O drive tem sido essencial, já acolheu mais de 150 mil amostras [até 9 de maio].

Ainda corremos o perigo de voltar aos números de janeiro?
Ainda. Não temos cobertura vacinal da população suficiente para não corremos esse risco. A capacidade de testar, identificar e isolar rapidamente pode evitar isso, mas não podemos relaxar. Vimos o que aconteceu a partir de setembro com um aumento constante do número de casos e sem conseguir parar. Os países à nossa volta estão com números bastante altos.

Mas, agora, os grupos mais vulneráveis estão vacinados.
Podemos ter uma menor letalidade mas mesmo aí, estamos a falar por exemplo dos lares, o trabalho que foi desenvolvido não é apenas resultante da vacinação. E, se aliviássemos completamente as medidas, voltaríamos a ter surtos e estamos a falar de uma população muito frágil. Gostaria de salientar e, muitas pessoas não têm a noção disso, que devemos ser dos países mais eficazes a intervir, apesar de termos uma população muito envelhecida e muitos lares. Quando comparamos com outros países europeus, alguns até com uma capacidade económica muito maior, temos a taxa de letalidade nos lares mais baixa, por exemplo, menos de metade da Bélgica, menos do que a Alemanha, a Itália, a Espanha.

Como é que a rede está envolvida no plano nacional de envelhecimento ativo 2020 a 2030?
Há quatro centros portugueses de referência na Rede Europeia de Envelhecimento Ativo: Porto, Coimbra, Lisboa e o Algarve, que estão a trabalhar num plano nacional para o envelhecimento ativo. Portugal tem muitos passos a dar, temos em média menos de dez anos de vida saudável a partir dos 65 anos que os países nórdicos [programa foi apresentado dia 17 de maio].

Venceram duas candidaturas da Ciência no valor de 8,8 milhões de euros (CCDR Algarve com fundos europeus), a que se destinam?
O ABC juntou projetos de vários institutos nacionais nas áreas da medicina e biomedicina e que tem sentido acontecer no Algarve. Exemplos: é expectável, que o nosso país comece a sofrer de doenças mais habituais no trópicos e que são transmitidas por mosquitos. O ABC juntou-se ao INSA para criar um centro de investigação de entomologia médica (doenças transmissíveis pelos insetos). Com o Instituto Português do Sangue e da Transplante), haverá aqui uma Seroteca (amostras de soro). Vamos ter o Banco Público de Células do Cordão Umbilical, o BioBanco - o Algarve tem a maior diversidade genética da população), um centro de treino de cirurgia, coisas que se potenciam-se umas às outras. O segundo grande projeto é no envelhecimento ativo e saudável, com incidência nas áreas osteoarticular, cardiovascular e respiratória. A intenção é avaliar as pessoas e fazer um plano adequado a cada uma, usando uma tecnologia utilizada em atletas de alta competição, e fazer um treino personalizado, com avaliações contínuas.

Esses projetos vai permitir dar mais estabilidade aos investigadores ou, até, contratar mais?
Sim, por exemplo, a criação do Laboratório de Genética Molecular e as áreas do envelhecimento ativo, permitem que tenhamos mais de 20 investigadores a tempo inteiro. Não iriam ficar e muitos iriam sair do país. A aposta do ABC é criar um emprego estável de forma a que não estejam dependentes da aprovação de um projeto para receber o seu vencimento. E estamos a contratar.

ceuneves@dn.pt

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