Ensino Superior

Nota 20. Os métodos, as motivações e os critérios de escolha dos melhores alunos do país

Entraram com média de 20 valores e garantem que não tiveram de abdicar de nada. O mais difícil, dizem, foi terem feito mais de metade do Ensino Secundário em plena pandemia.

Tiago Araújo, Alice Lopes, Gonçalo Castro e David Ramos entraram na Universidade do Porto (UP) com média de 20 valores certos. Em comum têm um percurso escolar igual ao de qualquer outro adolescente (com atividades extracurriculares e convívio com amigos) muitos sonhos e a vontade de estudar no estrangeiro ao abrigo do programa Erasmus. São "apenas" quatro dos 155 estudantes que, este ano, ingressaram na UP com mais de 19 valores.

"É possível encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal e os estudos"

Para chegar ao final do Ensino Secundário, na Escola Secundária do Castêlo da Maia, e conseguir uma média de 20 valores, Tiago Araújo garante não ter abdicado de ter uma adolescência igual à de "qualquer jovem". O segredo, diz, esteve na "concentração nas aulas, na organização, na gestão do tempo e em ter bons professores". "Tive sempre muito apoio dos meus pais e dos meus professores, que eram excelentes. Os meus pais sempre foram um exemplo de trabalho e rigor, assim como o meu irmão, a minha inspiração", explica. E para quem pensa que "para conseguir ter médias elevadas é preciso fazer muitos sacrifícios", Tiago garante ser "possível encontrar um equilíbrio entre a vida pessoal e os estudos". "Consegui aproveitar bem a adolescência, sair com os amigos e ter tempo para descanso e diversão", sublinha.

O jovem, agora caloiro do curso de Engenharia e Gestão Industrial, na Faculdade de Engenharia (FEUP), manteve ainda uma atividade desportiva desde o 7.º ano: voleibol. A escolha do curso teve como base "a opção que poderia abrir mais portas", embora tenha querido seguir Medicina numa fase inicial. "Gostava de Matemática e Física Química e percebi que engenharia faria mais sentido", explica. Quanto ao futuro, tudo está ainda em aberto. Ainda não está claro para o jovem qual o caminho profissional a seguir, estando "aberto a oportunidades em Portugal e no estrangeiro".

Alice Lopes também só escolheu o curso que queria (Medicina, na UP) quando entrou no secundário. "Nunca tive uma profissão de sonho como algumas pessoas têm. Acabei por decidir, no secundário, que queria tirar Medicina, apesar da minha disciplina favorita ser Matemática. É uma área muito interessante e, como sou muito curiosa, achei que encaixava bem coma a minha personalidade. Queria algo que me interessasse e que fosse ao encontro de ajudar outras pessoas", explica.

A vontade de estudar no estrangeiro, ao abrigo do programa Erasmus, ou mesmo de vir a trabalhar fora de Portugal é comum a vários dos alunos que entraram na Universidade com as melhores médias

A jovem, natural de Penafiel, já pensa em Dermatologia como um caminho possível, mas ainda vai "ponderar ao longo dos seis anos de curso". Para trás ficou já um percurso de excelência, mas "sem sacrifícios". "Só na altura dos exames nacionais é que abdiquei de algumas coisas para ter mais tempo para estudar, mas sempre pratiquei natação e nunca deixei de estar com os meus amigos", recorda. Algo que quer manter na nova fase da sua vida. Nos seus planos está também a vontade de estudar no estrangeiro, ao abrigo do programa Erasmus.
Metade do secundário passado em pandemia

Para David Ramos, a única dificuldade sentida para manter a média de 20 valores ao longo do Ensino Secundário foi o ensino à distância, aquando do encerramento das escolas devido à covid-19. Entrou em Engenharia e Gestão Industrial, na FEUP, num percurso que só não foi mais tranquilo porque tinha "mais dificuldade" para se concentrar nas aulas on-line. "Não posso dizer que tive uma adolescência tranquila porque metade do secundário foi passado em casa por causa da pandemia. Mas tirando isso, tive sempre atividades extracurriculares, como hip-hop, que mantive até num regime à distância", refere.

Não estando certo do curso que pretendia tirar, garantiu uma média que lhe permitia escolher qualquer um. "Comecei a estudar os cursos e as cadeiras e vi opções que tinham cadeiras de Física, Matemática, Gestão e Marketing. Gostei da variedade e acabei por optar por Engenharia e Gestão Industrial", refere. Na base da escolha não esteve a renumeração ou a taxa de empregabilidade, embora admita ser importante. Já no que se refere à Faculdade, a FEUP sempre foi a "favorita". "Os meus pais são ambos engenheiros e a minha família está ligada à UP. Desde o início, com o que vi em casa, sempre me pareceu uma instituição onde queria tirar um curso superior", conclui. David Ramos quer fazer carreira em Portugal, mas pretende estudar no estrangeiro, no programa Erasmus.

Para Gonçalo Castro, estudante que entrou com 20 valores no curso de Bioengenharia da FEUP, a pandemia também foi a maior dificuldade do percurso no ensino secundário. "O ensino à distância baixa o nível motivacional. Não estar com os professores e com os amigos custa e foi mais difícil concentrar-me nas aulas", relembra. No decorrer do ciclo de estudos, Gonçalo praticou futsal, ia para o ginásio com os amigos, estudou piano no Conservatório e fez ainda um curso de línguas num instituto de Gondomar. Atividades que, diz, o ajudavam a manter os níveis de concentração. O segredo para chegar aos 20 valores de nota de entrada na faculdade é, segundo conta, "a organização e a concentração". "Estava muito atento nas aulas e não deixava acumular os trabalhos de casa. Para os testes estudava uns dias antes. Nos exames foi diferente. Estive mais focado.", explica.

No que se refere à escolha do curso, prendeu-se com a sua predileção pelas disciplinas de Matemática, Física e Biologia. "Bioengenharia, na minha opinião, é o curso que concilia melhor as três. Queria ir para engenharia, o meu pai e o meu irmão são engenheiros... O meu pai também dá algumas cadeiras do curso e ajudou mais ainda na escolha, mas não me influenciou. Os meus pais sempre me disseram para escolher o que quisesse, mas desde pequeno que era engenharia o que queria", afirma.

Sonho de infância

Maria Gamboa Oliveira quis ser médica desde a infância. Entrou em Medicina na Universidade de Coimbra com a nota mais alta do curso: 19,75 valores. A jovem natural de Miranda do Corvo soube, no 5.º ano, que queria ser médica pela "vertente humanitária da profissão". "O que me incentivou foi quando conheci uma pessoa com uma doença crónica e senti que gostava muito de ajudar as pessoas que passam por situações complicadas a nível de saúde", conta. Com o apoio dos pais para que desse sempre o seu melhor, Maria Oliveira perseguiu o objetivo com "dedicação e muita vontade". "Quando queremos muito algo, trabalhamos com objetivos e metas e é muito mais fácil estabelecer prioridades e gerir o tempo. Não abiquei de nada, mas às vezes era difícil de gerir. Não fiz tantas coisas como queria, mas não sinto que tenha perdido nada da adolescência", lembra.

"Quando queremos muito algo, trabalhamos com objetivos e metas e é mais fácil estabelecer prioridades . Não fiz tantas coisas como queria, mas não sinto ter perdido nada da adolescência", diz Maria

Foi apenas no 12º. ano que deixou a natação, também condicionada pela pandemia. "Aquele tempo a praticar desporto ajudava-me a conseguir aguentar melhor e a relaxar. E estar com os amigos também era importante", conta. Para além de querer fazer carreira na Medicina, Maria Oliveira também quer conhecer "os quatro cantos do mundo". Algo que pretende começar a fazer em breve, no programa Erasmus. E já conta com o incentivo da família para estudar no estrangeiro.

"Nunca contentar com o mínimo se soubermos que conseguimos melhor"

Beatriz Oliveira, natural de Braga, foi a aluna que entrou com a nota de acesso mais alta na Universidade do Minho (UM): 19,87. À semelhança de Maria Oliveira, soube que queria ser médica "desde pequena". "Brincava com as bonecas já "aos doutores". "Escolhi Medicina porque o trabalho dos médicos sempre me fascinou muito e porque queria ajudar a salvar vidas. É uma profissão muito nobre", explica. A jovem também já tem alguns planos no que diz respeito à área de especialidade. "Tenho em mente neurologia, cardiologia ou especialidades cirúrgicas" afirma.

Para Maria, lutar pelos sonhos e superar obstáculos é a base do sucesso. "Nunca nos devemos contentar com o mínimo se soubermos que conseguimos melhor", sublinha. "O que posso dizer é que sempre funcionou comigo lutar pelos objetivos que ia traçando. E claro, contar com o apoio da família também é fundamental", salienta. O desporto ocupou sempre uma parte do tempo de lazer da jovem, que também nunca abdicou de "estar com os amigos, ver séries e ler". "Desde o 7º ano sempre estive no desporto escolar e também andei no instituto de inglês. Isso nunca interferiu nos meus resultados. Pelo contrário. Ajudou muito", conclui.

dnot@dn.pt

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