Nível do mar pode subir 1,5 metros este século

Um novo estudo indica que o degelo da Antártida vai ser muito pior do que o previsto

"As crianças que estão a agora a nascer e que terão 84 anos no fim do século vão ter uma orla costeira muito diferente da de agora". A conclusão é de Filipe Duarte Santos, especialista em questões ambientais, quando confrontado com os resultados de um estudo divulgado ontem pela revista Nature, segundo o qual o nível do mar pode subir 1,5 metros até 2100. Quer isto dizer que a subida pode ser de centímetros por ano, e não de milímetros.

"Isto é literalmente refazer o mapa do Planeta como é visto do espaço", diz Robert DeConto, autor principal do estudo.

A investigação, das universidades norte-americanas de Amherst, no estado do Massachusetts, e a estatal de Pensilvânia, conclui que o degelo da Antártida pode contribuir com até 1,5 metros para o aumento do nível do mar este século e com até 13 metros até 2500. Estimativas que parecem mais pessimistas que as reveladas por estudos anteriores, nomeadamente as do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas (IPCC na sigla em inglês) sobre a subida do nível do mar nos próximos cem anos.

"O relatório do IPCC foi bastante cauteloso no seu resumo executivo que é aquilo que a maior parte das pessoas e os políticos leem", repara o físico, salientado que o estudo é composto por três volumes e que o primeiro faz referência a artigos que apontam para uma subida da água do mar de 1,5 metros neste século.

O estudo agora divulgado indica que os anteriores teriam subestimado a velocidade do degelo da Antártida, uma vez que só levavam em linha de conta processos passivos, nomeadamente o provocado pelo aquecimento global e pelo aumento da temperatura média da água. Agora, são levados em conta processos ativos de degelo, como a quebra de blocos de gelo.

"Toda aquela massa gigante de gelo é instável", repara Filipe Duarte Santos. "É extremamente difícil prever se se vai separar um grande icebergue, do tamanho de Portugal por exemplo, que irá para o oceano e derreter", constata o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

"É muito difícil modelizar [estudar a partir de modelos] aquilo que está a acontecer na Antártida. É um sítio inóspito, é muito caro fazer investigação na Antártida. O que este estudo tem de novo é que, com base em observações, conclui que é possível que haja aceleração da subida do nível da água do mar", salienta.

Filipe Duarte Santos considera as previsões para o futuro do planeta "muito preocupantes" e repara que a subida do nível da água já se deteta em Portugal, nomeadamente em Cascais, onde existe um marégrafo que regista todas as oscilações. "O nível médio da água do mar em Portugal subiu cerca de 17 centímetros no século XX. Está a subir desde finais do século XX cerca de três milímetros por ano, mas na última década está a subir a uma taxa de 4,1 milímetros por ano. A este ritmo, em 100 anos seriam 41 centímetros", afirma.

O autor principal do estudo, Robert DeConto, da Universidade de Massachusetts, chama a atenção para isso mesmo. "Isto pode significar um desastre para muitas cidades que ficam mais próximas do nível do mar", afirma. No entanto, o investigador aponta uma boa notícia: se as emissões de gases de efeito de estufa forem reduzidas rapidamente de forma a limitar o aumento da temperatura média global a cerca de 2 graus o nível da água aumentará pouco ou nada com o degelo na Antártida.

Filipe Duarte Santos sustenta, contudo, que o mar, ao contrário da atmosfera, tem uma resposta muito lenta. "Se hoje, por artes mágicas, parássemos as emissões de gases com efeitos de estufa, o nível da água do mar continuaria a subir durante séculos. Mas se hoje, por artes mágicas, parássemos as emissões de gases com efeitos de estufa, a temperatura da atmosfera continuaria a subir um bocadinho mas depois começaria a descer".

Significa isto que é garantido que "durante séculos", o nível da água do mar irá subir. Façamos o que fizermos.

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