Metanfetaminas: Investigadores portugueses descobrem mecanismo para prevenir recaídas

Uma equipa de investigadores da Universidade do Porto conseguiu descodificar o mecanismo que está na origem das recaídas nos dependentes de metanfetaminas, uma anfetamina da categoria da heroína e da cocaína. Estima-se que perto de 25 milhões de pessoas são dependentes, em todo o mundo, a maioria com menos de 30 anos.

Uma equipa de investigadores do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), coordenada por Teresa Summavielle, acaba de descobrir que a metanfetamina, uma droga de abuso psicostimulante de elevado consumo em todo o mundo, é altamente inflamatória para o cérebro. Os investigadores desvendaram também o mecanismo que causa essa neuroinflamação e mostram que, conseguindo travá-lo, é possível agir preventivamente e evitar comportamentos que normalmente estão na origem de recaídas. Num artigo que acaba de ser publicado na revista Neuropsychopharmacology, fica claro que este é "um novo passo para se encontrarem novas terapias de desabituação", como afirma ao DN Teresa Summavielle.

"Este trabalho de investigação demorou bastante tempo por várias razões, mas sobretudo porque precisavamos de encontrar modelos de animais diferentes, como ratinhos mutantes que não produziam algumas das substâncias que nós tínhamos identificado como importantes para o efeito da metanfemanina, provando que conseguimos modificar alguns desses efeitos", revela a coordenadora da investigação.

Durante décadas, os investigadores centraram-se nos efeitos neurotóxicos das drogas de abuso psicostimulante nos neurónios, negligenciando outras células cerebrais igualmente relevantes, conhecidas como células da glia. E, dentro destas, as células da microglia, as principais células imunitárias do cérebro. "Uma vez que estas células da microglia são responsáveis por gerir os processos inflamatórios do tecido cerebral, esta equipa tentou perceber de que modo eram ativadas pela metanfetamina, com o objetivo de descobrir terapêuticas de desabituação mais eficientes", adianta a mesma fonte.

Teresa Canedo, Camila Cabral e Renato Scodato iniciaram esta investigação há quatro anos, a que Teresa Summavielle e João Relvas deram continuidade. Ainda contaram com a colaboração de uma equipa da Universidade do Minho, coordenada por João Oliveira.

"Para nossa surpresa, verificámos que a metanfetamina não é capaz de ativar a microglia diretamente, e que essa ativação ocorre através de outro tipo de células da glia, os astrócitos, que reagem intensamente à metanfetamina, libertando grandes quantidades de um fator altamente inflamatório conhecido por TNF (fator tumoral necrótico)", explicam Teresa Canedo e Camila Cabral Portugal, que iniciaram este estudo. Os astrócitos "são a população mais numerosa do cérebro e são essenciais para manter o seu equilíbrio e bom funcionamento", consideram.

Ao mesmo tempo que estes astrócitos reagem à metanfetamina desencadeando um processo inflamatório, libertam também de forma excessiva um neurotransmissor chamado glutamato que vai ativar a microglia, contribuindo de forma relevante para a neuroinflamação causada pela metanfetamina. "Com o glutamato nós temos um problema, é que ele tem muitas ações no cérebro e todas elas muito importantes, por isso não podemos inibi-lo de uma forma geral. Recorrendo a diferentes estratégias, mostrámos que quando não há libertação de TNF e de glutamato, a metanfetamina não induz inflamação e que alguns dos comportamentos causados pelo consumo desta droga, como perda de capacidade de avaliação de risco e alterações de ansiedade, são prevenidos", acrescenta Teresa Summavielle. Para mais, é sabido que estes comportamentos "são promotores de recaídas".

Todos os resultados que ao longo do tempo foram sendo apresentados, anteriores a este estudo, "eram sempre dirigidos aos neurónios. Mas na verdade revelaram-se muito pouco eficientes, porque as taxas de recaída destas substâncias variam entre 40 e 60%", sublinha Teresa Summavielle. Além disso, "são tratamentos difíceis, com pouco sucesso, o que nos leva a desconfiar que alguma coisa está a ser negligenciada. Foi esse mecanismo que nós conseguimos perceber".

E é por isso que a líder do grupo Addiction Biology considera que os resultados abrem boas perspetivas para novas abordagens terapêuticas. Teresa Summavielle sublinha que estas conclusões "reforçam os resultados que esta equipa publicou em 2020, também em colaboração com o grupo de investigação Glial Cell Biology, do i3S, em que mostrávamos que interferir com a libertação de TNF prevenia parte importante dos efeitos neurotóxicos da ingestão de quantidades excessivas de álcool".

"Neste momento temos quatro ou cinco linhas de investigação a decorrer no laboratório", revela a responsável. Só depois perceberão "qual delas será a estratégia de mais sucesso, e com menos efeitos secundários".

Uma anfetamina da família da heroína e cocaína

A metanfetamina faz parte das anfetaminas e pertence à mesma categoria da cocaína e da heroína. Trata-se de uma substância química (sintética) potente, perigosa, e que causa dependência extrema de forma muito rápida. Tem um efeito estimulante no sistema nervoso central e cria uma falsa sensação de energia, euforia, reduzindo a ansiedade, aumentando por sua vez a autoconfiança e a agressividade. O Gabinete das Nações Unidas sobre as Drogas e Crimes estima que existam atualmente mais de 24,7 milhões de consumidores, 80% dos quais com menos de 30 anos. Mas dados recentes apontam para um aumento do uso de psicotrópicos até mesmo entre pessoas com mais de 50 anos.

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