Mesmo com vacinação, já morreram mais pessoas este ano do que em 2020. "É lamentável"

Até quarta-feira, Portugal contabilizava um total de 4 903 798 infeções e 23 479 óbitos por covid-19. As estimativas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa indicam que atingiremos os cinco milhões de infeções e os 24 mil óbitos já na próxima semana e os 25 mil em julho. Até ao final de junho, deverão morrer tantas ou mais pessoas que nos dez meses de pandemia em 2020. As festividades na capital podem levar a um aumento de casos, mas não a criar uma nova onda, afirma Carlos Antunes.

A sexta vaga de covid-19 que o país atravessa, provocada pela sublinhagem BA.5 da variante Ómicron, está a atenuar, embora o número de óbitos e de internamentos ainda se mantenha elevado. Mas a equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que desde o início da pandemia faz a modelação da evolução da doença, acredita que, mesmo que haja um aumento de casos com os festejos dos Santos na cidade de Lisboa, "não voltaremos a ter o máximo de casos registados nesta sexta vaga", explicou ao DN Carlos Antunes.

No entanto, o professor de Ciências lamenta que nestes seis meses de 2022 o país esteja a registar mais mortalidade por covid-19, do que no primeiro ano de pandemia, 2020, quando ainda não havia vacinação. "Isto é lamentável", sublinha ao DN. "Esperemos que a mensagem tenha sido finalmente interiorizada, sobretudo pela população mais idosa, para que comece a usar máscara, tal como é recomendado, em espaços fechados e em ajuntamentos".

Até ontem, refere o analista de dados, Portugal tinha atingido um total de 23 479 óbitos. Destes, mais de 90% ocorreram em pessoas da faixa etária acima dos 70 anos, sendo que a tendência de óbitos ainda se mantém a subir, alerta Carlos Antunes. Neste momento, a média diária de óbitos está nos 42.5 e a média a 14 dias por milhão de habitante em 51.2, o que "ainda é muito significativo", refere.

A meta definida pelo governo para se atingir os 20 óbitos por milhão de habitantes está há muito comprometida não se sabendo sequer quando poderá ser alcançada. "Podemos mesmo nunca chegar a este valor durante o verão", diz-nos.

De acordo com os dados oficiais, Portugal registou nos últimos sete dias um total de 293 óbitos, chegando a atingir máximos de 50 e de 51 mortes diárias, nos dias 1 e 5 de junho, o que já não acontecia desde 12 de fevereiro. E as projeções de Carlos Antunes indicam que chegaremos ao total de 24 mil óbitos já na próxima semana, entre os dias 18 e 20, e aos 25 mil no mês de julho. "Isto significa que a mortalidade em 2022 será muito superior devido à covid-19, o que é lamentável porque já temos vacinas e reforços que nos deixam mais protegidos do que o que estávamos no início da pandemia", sublinha.

A sublinhagem BA.5 da variante Ómicron é assim. Muito mais contagiosa do que qualquer outra das quatro anteriores. De tal forma que, sublinha o professor, "14% das pessoas com covid em Portugal nos últimos dois dias foram reinfetadas". O país tinha ontem um total de 4 903 798 infeções, mas todos os dias estes números são atualizados por causa das reinfecções. Pela análise de Carlos Antunes, chegaremos aos cinco milhões nos próximos dias.

Neste momento, "o número de casos está a diminuir. A região de Lisboa e Vale do Tejo, que era a única que ainda não tinha atingido o pico, já o deve ter atingido. O Algarve ainda se mantém no planalto e a Madeira também, mas as restantes estão já com uma descida consolidada".

Os internamentos atingiram até ontem um pico de 2050 doentes em enfermarias, o qual já está a descer, e de 118 em Unidades de Cuidados Intensivos, que ontem já era de 107. O professor alerta que as faixas etárias que mais contribuíram para os internamentos foram as que estão acima dos 60 anos. No entanto, em relação aos óbitos, foram as faixas acima dos 70 anos.

Mas com os internamentos a estabilizar e a incidência a diminuir, a equipa de Ciências considera que, mesmo que haja um impulso no número de casos devido aos festejos dos Santos, que este não irá provocar uma onda sobre outra onda.

Carlos Antunes explica que os festejos, "apesar de serem eventos que vão reunir muita gente com a premissa de que o uso de máscara não é obrigatório, são ao ar livre e o risco de contágio é menor". Portanto, "do meu ponto vista acho muito pouco provável que venhamos a registar um aumento de casos que seja muito elevado e que ultrapasse o pico que já atingimos nesta sexta vaga, de 26 mil casos em termos médios os 38 mil pontualmente".

No entanto, qualquer impulso de casos vai provocar a médio e longo prazo, "o retardar do objetivo de o país ter 10 mil casos". Até porque, os festivais de verão e outras festas irão provocar o mesmo, mas "vamos ter de nos habituar". A preocupação tem de ser "as pessoas mais idosas, onde a mortalidade é cada vez maior".

(Peça corrigida no que respeita à percentagem de óbitos por idade à data de 22-7-2022)

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