Maioria dos alunos não entende conceitos básicos de matemática

OCDE identifica falhas transversais a todos os países. E recomenda currículos mais focados, com ênfase nos exercícios, menos seleção dos alunos e apoio individualizado

Numa altura em que milhares de alunos portugueses enfrentam os exames nacionais - e a prova de Matemática do ensino secundário é já amanhã -, um relatório da OCDE, baseado nos resultados dos testes PISA de 2012, confirma que esta disciplina não é motivo de problemas e inquietações apenas para os estudantes nacionais. Em média, diz o relatório Equations and Inequalities: Making Mathematics Accessible for All, perto de 50% dos alunos de 15 anos não consegue explicar o conceito de polígono e menos de 30% percebe o que é uma média aritmética.

A receita da OCDE para ultrapassar estas falhas em conhecimentos básicos, tornando a matemática "acessível para todos", passa por uma abordagem mais eficaz do ensino da disciplina, com "um currículo mais focado e coerente". Os 20% de estudantes que são mais expostos a "tarefas matemáticas puras (equações)", diz a organização, têm um desempenho nos testes PISA "equivalente a quase dois anos escolares de avanço em relação aos 20% que são menos expostos" a este trabalho prático.

Outro aspeto destacado no relatório prende-se com a tendência dos sistemas educativos para segregarem os alunos, quer em função dos resultados quer, indiretamente, pela falta de respostas adequadas aos estudantes oriundos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos.

Em relação à primeira forma de seleção - pelo desempenho -, o estudo, que incluiu entrevistas a elementos das escolas, refere que mais de 70% dos diretores admitem agrupar os alunos em função da habilidade para a disciplina. Uma estratégia que, avisa a OCDE, pode "reduzir oportunidades de aprendizagem para os alunos mais desfavorecidos". Outro exemplo de seleção, também focando este grupo, é a idade a partir da qual os estudantes são encaminhados para currículos vocacionais.

De acordo com a OCDE, não é apenas a perceção das escolas sobre os estudantes que afeta o seu desempenho. Os próprios alunos acabam por se convencer da sua falta de capacidades para a disciplina, com a consequência de se desinteressarem da mesma. E, neste aspeto particular, Portugal está num indesejável lote restrito de países onde a falta de autoconfiança é mais marcada entre os alunos de origens mais desfavorecidas, com uma diferença de 25% em relação aos restantes estudantes.

"Divergiu-se completamente"

O estudo teve como ponto de partida testes PISA realizados ainda em 2011, numa altura em que o então ministro da Educação, Nuno Crato, ainda não tinha implementado algumas das medidas de reforço da "exigência" que caracterizaram a sua passagem pela Avenida 5 de Outubro.

E para Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática, esse facto é um alerta adicional, já que, considera, o anterior ministro "divergiu profundamente" das recomendações da OCDE. Nomeadamente, defende ao DN, ao adotar "currículos extensíssimos, muito atomizados, com uma lista enorme de objetivos" e ao "retirar apoios onde eles são precisos, favorecendo [nos créditos horários] as escolas com melhores resultados".

Uma das propostas da OCDE é dar apoio individualizado para os alunos com dificuldades, algo que o atual ministério prometeu fazer a partir do próximo ano letivo.

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