Foi ódio racial que matou Bruno Candé, acusa Ministério Público

O homicídio do ator negro Bruno Candé, a 25 de julho, por um antigo combatente na Guerra Colonial, foi determinado "por razões vãs" e "pela sua cor e origem étnica", acusa Ministério Público. Arma usada no crime é ilegal. O arguido vai aguardar julgamento em prisão preventiva.

"Fui à cona da tua mãe e daquelas pretas todas! Aquelas merdas! Eu violei lá a tua mãe! E o teu pai também! Anda cá que levas com a bengala! Preto de merda! Eu mato-te!"

Estas são as palavras descritas na acusação como tendo sido proferidas por Evaristo Carreira Marinho, então com 76 anos, contra Bruno Candé, de 39 anos, a 22 de julho, no mesmo local - a Avenida de Moscavide - e aproximadamente à mesma hora em que viria, três dias depois, a disparar quatro tiros sobre ele, matando-o.

O motivo para os insultos, de acordo com este documento do Ministério Público, assinado pela procuradora Alexandra Nunes, e ao qual o DN teve acesso, foi o facto de a cadela de Candé ter ladrado a Evaristo Marinho quando este passou. A primeira reação do homem terá sido contra o animal, na direção do qual terá gritado repetidamente "vai para o caralho", mas de seguida fixou a fúria no dono: "Vai para a tua terra preto! Tens a família toda na senzala e devias também lá estar!"

As expressões citadas no início deste texto terão sido verbalizadas de seguida, enquanto avançava para Candé com a bengala em riste, vociferando: "Anda cá que levas com a bengala! Preto de merda! Eu mato-te!"

Em reação, a vítima tê-lo-á empurrado, dizendo "Só não lhe bato porque é velho".

Os dois homens foram separados por um terceiro, mas quando Bruno Candé entrava num carro que parou para o apanhar, ainda terá ouvido "Tenho lá armas em casa do Ultramar e vou-te matar!" - uma frase que a acusação frisa ter sido proferida "de modo sério".

Terá repetido a ameaça ao homem que os separou: "Eu vou matá-lo."

A convicção do MP, alicerçada nos relatos de 13 testemunhas, é de que foi na sequência deste episódio que Evaristo Marinho se determinou a "tirar a vida a Bruno Candé Marques".

Arma ilegal é modelo criado para polícia

Para concretizar o propósito, terá passado a trazer consigo uma pistola Walther PP, calibre 7,65, carregada. "Já na posse da dita arma de fogo devidamente municiada", prossegue a acusação, Evaristo Marinho passou "por diversas vezes na Avenida de Moscavide, por bem saber que Bruno Candé Marques ali se encontrava diariamente (...), com a sua cadela, a ouvir música, a fim de o encontrar e concretizar o propósito de matá-lo."

O que veio a acontecer a 25 de julho, pelas 13.20 horas, quando encontrou a vítima sentada num canteiro perto do número 11 da referida avenida. Ao avistá-lo, "retirou a referida arma do coldre onde estava acondicionada e empunhou-a. Ato contínuo, (...) efetuou um disparo na direção do corpo de Bruno Candé Marques, que, de imediato, caiu ao chão." Aproximando-se da vítima caída, ainda lhe desferiu mais quatro tiros.

Sem dúvidas sobre a intenção de matar, o MP acusa também o antigo combatente na Guerra Colonial - Evaristo Marinho fez serviço militar em Angola entre 1966 e 1968 - e auxiliar de ação médica reformado da posse de arma ilegal, já que não tinha licença de porte para a pistola. A acusação não refere o facto de se tratar de um modelo especificamente criado para as forças policiais (o PP significa polizeipistole, ou seja "pistola da polícia", em alemão) que foi durante muitos anos usado pela PSP.

A única referência à origem da arma no texto da acusação é através das munições para a mesma encontradas na residência do arguido no próprio dia do homicídio, "no interior do roupeiro do quarto da sua residência (...) dentro de uma mala com código (...), que adquiriu há mais de 20 anos de modo não concretamente apurado."

Como é sabido, Evaristo Marinho foi detido logo após o crime - tentou abandonar o local mas circunstantes dominaram-no até à chegada das autoridades.

Motivação racial foi negada por PSP

A qualificação do homicídio decorre, no texto da acusação, quer do motivo fútil - a discussão por causa do ladrar da cadela - quer da motivação por ódio racial, para além da premeditação e frieza da concretização.

Recorde-se que logo nos dias seguintes o comissário do Comando Metropolitano da PSP, Luís Santos, se apressou a certificar que ouvidas testemunhas no local "nenhuma falara de racismo".

Para a família da vítima, que no dia do assassinato emitiu um comunicado, pedindo que "a justiça seja feita de forma célere e rigorosa", não havia desde o início dúvidas sobre as motivações raciais. "O assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas", o que, para a mesma, torna "evidente o caráter premeditado e racista deste crime".

Em igual sentido, manifestou-se a organização SOS Racismo, numa nota de imprensa divulgada no Facebook no dia do crime. "Hoje, pelas 14h, Bruno Candé Marques, cidadão português negro, foi assassinado com quatro tiros à queima-roupa. O seu assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes e reiteradamente proferiu insultos racistas contra a vítima. O caráter premeditado do assassinato não deixa margem para dúvidas de que se trata de um crime com motivações de ódio racial", lê-se no comunicado que termina com uma exortação: "O racismo já matou e continua a matar. Para que o assassinato do Bruno Candé Marques não seja mais um sem consequências, exigimos que justiça seja feita".

Quem também se apressou a negar a possibilidade de motivação racista do homicídio foi a direção do partido Chega, que em nota enviada aos órgãos de comunicação social afirmou: "O assassinato do ator Bruno Candé é uma tragédia mas nada tem, segundo os dados conhecidos até ao momento, a ver com racismo." "a sociedade portuguesa não é racista. (...) Portugal é o país menos racista da Europa, talvez do mundo, pelo que só nos resta transmitir à família e amigos de Bruno Candé sentimentos de solidariedade e conforto", acrescentando: "o aproveitamento político que a esquerda faz destes episódios é deplorável".

Quem era Bruno Candé?

"Um lutador". Era assim que no DN, num texto assinado por Maria João Caetano, a 26 de julho, se descrevia Bruno Candé Marques, nascido em Portugal a 18 de setembro de 1980, numa família oriunda da Guiné-Bissau.

Vivia no Casal dos Machados, na freguesia do Parque das Nações, perto do local do crime, mas cresceu na Zona J, de Chelas. Ainda segundo o mesmo texto, desde muito novo que Bruno queria fazer teatro, tendo inclusivamente frequentado um curso de representação no Chapitô, durante um ano.

Conheceu a atriz, encenadora e dramaturga Mónica Calle, com quem trabalhou até à altura da morte, em 2010, quando a Casa Conveniente ainda era no Cais do Sodré, numa altura em que Calle tinha um projeto com os reclusos da prisão de Vale de Judeus.

Em 2015, Candé contou ao Observador o encontro que mudaria a sua vida: "Foi o Boss [de seu nome Mário Fernandes, um dos ex-reclusos que trabalhou com Mónica Calle em Vale de Judeus] quem me trouxe para cá. Mas não foi fácil, não foi fácil. O Boss sempre foi um gajo que anda sempre na brincadeira, na "reinação" com toda a gente, e quando ele me disse que fazia teatro, e que queria que eu fosse lá com ele, eu achei que ele estava no gozo, tás a ver? Nem liguei. Mas ele insistiu, e um dia disse-me, se não quiseres vir, não vens. Fica para aí na tua vida! Ele tanto marrou comigo, vamos, vamos, vamos!, que eu abri a pestana e lá fui, ao Cais do Sodré. Mas calma... quando lá cheguei, disse: é aqui? É aqui que vão fazer teatro? Estava à espera de um palco, de uma cortina, de uma plateia. Não havia nada disso. Mas logo que comecei a trabalhar com ela [Mónica Calle], percebi que tudo aquilo fazia sentido exatamente como era."

O primeiro espetáculo em que participou foi A Missão - Memórias de Uma Revolução, de Heiner Müller (espetáculo que acabou por ganhar um prémio da Sociedade Portuguesa de Autores) e, desde então, continuou a trabalhar regularmente com a Casa Conveniente. Em 2011 entrou em Macbeth, de Shakespeare, ao lado de José Raposo e Mónica Garnel. Pudemos vê-lo ainda em Rifar o Meu Coração (2016, de Mónica Calle), Drive In de Mónica Garnel, Atlas de João Borralho e Ana Galante, entre outros espetáculos. Quando não estava no palco, trabalhava como assistente ou dando apoio técnico na Casa Conveniente, como se lê nas fichas técnicas dos espetáculos A Boa Alma ou Os Sete Pecados Mortais.

Na televisão participou em novelas como A Única Mulher, na TVI, e fazia regularmente castings à procura de oportunidades de trabalho. Já em 2020, Bruno Candé tinha participado em dois workhops da Casa Conveniente com vista à produção de novos espetáculos de Mónica Calle.

"Uma alegria contagiante"

Bruno Candé sofrera dois anos antes da morte "um acidente de bicicleta, por atropelamento, e desde então ficou com sequelas em todo o seu lado esquerdo. Foi-lhe atribuído um atestado de incapacidade, sendo as limitações de mobilidade evidentes. Apesar disso, Bruno continuou a lutar pelos seus sonhos, mantendo-se ativo no teatro e avançando nos manuscritos para o livro que queria dar o mundo", explicava a família no comunicado exarado após o crime.

Na mesma altura, Inês Vaz, atriz e produtora da Casa Conveniente, recordou esse momento numa publicação no Facebook em que homenageou o amigo: "Tinha sido atropelado, quando estava a voltar para casa à noite de bicicleta e deixado ao abandono no meio da estrada. O INEM foi alertado por uma chamada anónima e quando chegou encontrou-o sozinho, inconsciente no chão. Foi um milagre ter sobrevivido na altura. Foi um milagre a recuperação que estava a conseguir. Disse-nos que tinha sido o teatro que o tinha salvo : foi recordando textos de Heiner Müller, do espetáculo A Missão, que fez com a Mónica, que foi voltando a si".

Evaristo Martinho foi colocado em prisão preventiva após ser presente a juiz, medida que foi posteriormente, como a lei prevê, revista, sendo mantida. Deverá permanecer preso preventivamente até ao julgamento, considera a procuradora responsável pela acusação: "Por se manterem inalterados os pressupostos de facto e de Direito que determinaram a sujeição do arguido à medida de coação de prisão preventiva (...) deverá o arguido Evaristo Carreira Martinho aguardar os ulteriores termos processuais na situação de prisão preventiva em que se encontra."

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