Vinte anos de reciclagem, mas ainda se separa pouco lixo em casa

Portugal tem de reduzir a produção de resíduos a estimular a sua separação. Reciclagem do vidro ainda é insuficiente

Portugal já não tem lixeiras. Conseguiu reciclar 7,5 milhões de toneladas de resíduos de embalagens nos últimos 20 anos. Tem espalhados pelo país 43 mil ecopontos. Sete em cada dez casas portuguesas já reciclam. Vinte anos após a criação da Sociedade Ponto Verde, o balanço é positivo, mas ainda há muito a fazer. Embora as últimas metas da reciclagem tenham sido cumpridas, os portugueses ficam longe dos objetivos quando se trata de separar o lixo corretamente em casa.

"A recolha seletiva, ou seja, o que chega aos ecocentros separado, devia andar na ordem dos 30%. É essa a meta europeia. No entanto, em Portugal, apenas cerca de 13% dos resíduos chegam aos ecocentros separados", adianta ao DN Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus. Tendo em conta os resultados do estudo "Hábitos e atitudes", realizado pela Sociedade Ponto Verde, que revelou que 71% dos lares portugueses fazem reciclagem, Carmen Lima considera que "a separação pode estar a ser feita de forma incorreta ou insuficiente".

Uma das formas de atingir a meta, sugere, é adotando o sistema PAYT - Pay as You Throw, que já é usado em alguns municípios. Trata-se de um modelo que beneficia financeiramente quem faz a separação dos resíduos, já que os serviços de gestão urbana só são pagos relativamente ao que não for reciclado. Outra medida com impacto positivo é a recolha de resíduos porta-a-porta, que também já é aplicada nalgumas zonas.

No que diz respeito as problemas mais graves na gestão de resíduos, Carmen Lima frisa que "não estamos a reduzir a produção de resíduos". Em 2016, as metas apontavam para uma diminuição da produção em 7,6%, mas, em 2015, Portugal não ia além dos 0,36%, o que, segundo as contas da Quercus, representa um custo de dez milhões de euros (na recolha, separação, etc.). "Não se vê uma grande aposta dos municípios e das indústrias em reduzir os resíduos que se colocam no mercado", sublinha, propondo medidas como o aumento das compras a granel e a redução do desperdício alimentar.

Vidro ainda é preocupante

Luís Veiga Martins, diretor-geral da Sociedade Ponto Verde (SPV), refere que Portugal "cumpriu os objetivos que foram definidos [fixados em diretiva europeia], que eram em 2005 reciclar 25% dos resíduos de embalagem e em 2011 reciclar 55% das embalagens colocadas no mercado". As percentagens variam consoante os materiais e, embora todos tenham atingido as metas, é no vidro que Portugal está mais atrasado.

A meta para 2011 - reciclar 60% do vidro - foi alcançada, mas, desde então, a percentagem de vidro reciclada tem vindo a diminuir. Enquanto nesse ano se reciclaram mais de 217 mil toneladas de vidro, em 2015 foram recicladas apenas 185 mil (58%). Beatriz Freitas, da Associação de Reciclagem dos Resíduos de Embalagens de Vidro, diz que uma das razões para "a redução das quantidades/não separação do consumidor" é "a crise económica, que teve grande influência na motivação dos portugueses, deslocalizando os seus focos de interesse".

Além disso, denuncia, "a necessidade de redução dos custos quer pelas autarquias quer pela SPV influenciou negativamente as quantidades recolhidas, porque ao racionalizar circuitos, equipamentos e pessoal, perderam-se quantidades que ficavam de fora dos novos rácios estabelecidos."
Relativamente a esta retrocesso, Carmen Lima lembra que quando se introduziu a recolha porta-a-porta em algumas zonas, "não se colocou o vidro dentro das portas", pelo que haverá pessoas que não se deslocam ao vidrão. "O comodismo é o motor que muda os comportamentos das pessoas."

57 milhões em educação

Com vista à mudança de hábitos dos portugueses, a SPV investiu 57 milhões de euros em educação nos últimos 20 anos e mais de dois milhões de euros em investigação e desenvolvimento. Uma das prioridades para o futuro, diz Carmen Lima, deve ser a melhoria da tecnologia dos tratamentos mecânicos e biológicos dos resíduos. "Alguns têm baixas taxas de eficiência e elevadas taxas de refugo."

As novas metas da reciclagem para 2020 ainda não estão definidas, mas serão certamente mais ambiciosas do que as últimas.

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