Nepaleses: a comunidade discreta que ganha relevo e multiplica negócios

Não chegavam a mil há seis anos, agora serão 20 vezes mais. E o número aumentou substancialmente em 2015. Funcionam em cascata. Quem chega é ajudado desde logo a obter emprego. Quando consegue montar um negócio, retribui ajudando os outros

Três anos de gente em cima do palco, Surakshya veste e dança o folclore do Nepal. Encanta a assistência, que fita com um olhar sério e gestos precisos, onde está pai, mãe, tias e primos. Recebe muitas palmas e uma ou outra nota de 20 euros, agradece com as mãos erguidas junto ao peito e vai brincar com outras crianças. É um dos mais novos membros da comunidade nepalesa em Portugal que festeja o novo ano, 2063, no dia 13 de abril, no Ateneu Comercial de Lisboa .

Surakshya Ale Magar é do Nepal, mas a irmã de 2 meses já nasceu em Portugal. Está no colo da mãe que assiste ao espetáculo, tal como o pai que trabalha na restauração. A família imigrou há ano e meio ao encontro de familiares e amigos . Entre estes a tia Kamana Singh, 22 anos, a grande responsável pelo apurar do jeito para a dança que a miúda tem. "No Nepal, é normal as crianças dançarem assim, todos sabem dançar." Assegura a mentora, imigrante há um ano e que esteve numa herdade de Beja na apanha da fruta. É o que Kamana mais gosta de fazer, ou não fosse a agricultura a principal atividade do seu país, a que juntam algum turismo. "Gosto muito da agricultura, mas tenho família em Lisboa e aqui consigo um melhor emprego: num restaurante ou numa mercearia."

A história da família Ale Magar reflete a evolução dos nepaleses em Portugal. Não chegavam ao milhar em 2010 e têm vindo a multiplicar--se diariamente. "Ao contrário o que acontece com a imigração em geral, a comunidade nepalesa continua a crescer, vai em contraciclo. E é interessante a forma como se organizam. Criam negócios e conseguem florescer economicamente", explica Inês Branco, investigadora que os estuda. E "são coesos e trabalham em rede. Chegam e são apoiados por outros imigrantes, há um espírito de entreajuda. Quando têm o seu negócio vão retribuir o que conseguiram à própria comunidade".

O chef Tanka Sapkota é um exemplo do funcionamento em rede da comunidade. Tem 42 anos e trabalhou num restaurante italiano na Alemanha. Chegou a Portugal em 1996, o quinto nepalês nessa altura. Foi empregado até se tornar patrão, três anos depois, em 1999, quando abriu o Come Prima, italiano. Cinco anos depois inaugurou o Himchuli (picos de neve), comida nepalesa, seis anos mais tarde a Casa Nepalesa, com o irmão Yogesh, 32 anos. Há dois anos montou o Forno de Oro, preparando-se para abrir um novo "completamente diferente". Falta o espaço, mas já tem o gerente, Laxmi Sapkota. Apesar de ter o mesmo apelido não é da família, mas é da mesma cidade natal: Damek, do distrito de Baglung. "É como se fosse um irmão".

Dá trabalho a 45 conterrâneos e oito portugueses. "Se perguntar a quem emprega nepaleses o que pensa destes funcionários, 90% dir--lhe-ão que são grandes trabalhadores. O nepalês que chega à Europa é da classe média, tem uma boa educação, é honesto e pontual." Segundo o cônsul Makar Bahadur Hamal, mais de metade está na agricultura. "Em Lisboa, trabalham em restaurantes, hotéis e lojas."

Laxmi, 46 anos, acabado de chegar no Nepal, onde deixou um hotel e restaurante e foi professor de Matemática em novo, já residiu em Lisboa, entre 2000 e 2014. Aqui teve negócios e dirigiu associações nepalesas. "É o membro da comunidade mais querido", sublinha Tanka. Justifica Laxmi: "Saí do Nepal com 22 anos. Estive muito tempo fora, os amigos e família emigraram, não conheço praticamente ninguém. Tenho aqui muita consideração e respeito e lá tinha de começar praticamente do zero. Penso em regressar, mas mais tarde. Fico mais três ou quatro anos e depois logo se vê."

Tanka Sapkota tem três irmãos, o mais velho na Austrália. Um trabalha com ele em Portugal, a que se juntam a mulher, as cunhadas e cunhados, os sobrinhos, cerca de 30 familiares. São umas das famílias nepalesas mais importantes no país, segundo o dirigente associativo Bhim Kamal, ao lado dos Hamal (cônsul) e dos Gurung.

"As pessoas escolhem os países onde pensam que têm mais possibilidades, como Austrália, Estados Unidos e Inglaterra. Quando não conseguem, procuram outros e acabam por vir para Portugal, aqui não há nada que os impeça de trabalhar", explica o chef Tanka. Bhim acrescenta: "Quando obtêm a nacionalidade portuguesa [ao fim de seis anos da autorização de residência] vão para outro país, mas os que cá têm negócios acabam por ficar."

Tanka diz que Portugal só foi país de transição na primeira semana. "Ia tratar dos papéis e voltar à Alemanha mas depois a minha cabeça mudou e pensei: "Vou ficar neste país que me acolhe tão bem. O clima é parecido com o da minha terra, nem muito frio nem muito calor, e também tem montanha"."
Está nomeado pela associação da restauração e hotelaria (AHRESP) para Empreendedor do Ano ( concorre com o chef Avillez). A diáspora está dinamizada para votar nele bem como quem está no Nepal.

Bhim Kamal contabiliza 100 restaurantes, 300 supermercados e mercearias, dez cabeleireiros, dez salões de beleza, tantos como lojas de roupa, de cidadãos do Nepal. O dirigente chegou a Portugal há oito anos, tem 43, e é proprietário de duas lojas de câmbio e do restaurante Everest Curry House, num edifício em que terá também hotel.

Os mais antigos e os mais novos

O chef Tanka é o segundo nepalês com mais anos de Portugal. O primeiro chegou dois anos antes, em 1994, Kumar Shrestha, dono do Annapurna (a montanha dos Himalaias que dá nome aos seus restaurantes, dois em Lisboa e um em Almada). Em 1999 veio Makar Hamal, agora cônsul, que além de restaurantes tem uma agência de viagens.

Kumar foi estudar para a Alemanha. "Encontrei lá muitos portugueses, simpáticos, e quis conhecer Portugal, Gostei do clima, da cultura e fiquei." Lembra-se de festejar o ano novo europeu de 1997 em que eram 17 compatriotas. "Agora é muito diferente, a principal é que há muitos nepaleses, o que é bom." Acaba de deixar a direção da associação Nepal-Portugal Art, Literature and Communication, agora dirigida por G.K. Sharma, 39 anos. É uma das 30 associações/grupos de nepaleses no país.
Foi a associação que promoveu o espetáculo do Novo Ano nepalês, festa que decorreu no Ateneu Comercial de Lisboa, no dia 10, com música, canções e dança. E que foi antecipada três dias, por o domingo ser aquele em que estariam mais disponíveis, embora os seus estabelecimentos tenham as características comuns aos que são de proprietários asiáticos. Abrem todos os dias.

Mickael Gurunch, 27 anos, veio diretamente de Catmandu, a capital que é a sua cidade, há dois anos. E já montou um negócio com outros três sócios, o minimercado Late Night, aberto todos os dias entre as 08:00 e as 24:00. Escolheu Portugal porque aqui tinha amigos e mais oportunidades. Acrescenta o clima, as pessoas e a segurança para que este se tornar um país ideal para quem imigra. A desvantagem é "não se ganhar tanto como em outros países europeus", até porque a concorrência é cada vez maior.

Entram e saem da loja, na maioria portugueses, e que o cumprimentam como clientes antigos. Fica na zona de Arroios, onde é notória a presença de nepaleses. Ao lado, um café/restaurante que vende chamuças e outras petiscos nepaleses, a Rosa Stupa. Stupa é o monumento budista, a segunda religião no Nepal, sendo que 90 % professam o hinduísmos. Venha uma chamuça e um meio copinho de vinho. Quanto é? "Um euro, não paga o vinho."

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