Infeções baixaram, mas novas medidas só para março

Portugal, à semelhança de outros países europeus, começa a discutir o fim de algumas restrições. Os peritos defendem que é preciso que a tendência de decréscimo se acentue.

A partir de hoje, os passageiros que entrem em Portugal com o certificado de vacinação covid-19 não precisam de apresentar um teste negativo. Ao mesmo tempo, os testes rápidos de antigénio passam a ter uma validade de 24 horas, em vez de 48. É a entrada para uma semana em que se prevê uma continuação da redução de novos casos. A diminuição dos números e a menor gravidade da variante Ómicron apontam para um levantamento das restrições, já admitido por Graça Freitas, diretora-geral da Saúde. Resta saber como e quando.

O pneumologista Filipe Froes, coordenador da Ordem dos Médicos para a covid-19, defende que se pode começar a pensar no desanuviamento das medidas ainda este mês e de forma faseada. "Já atingimos o pico de novos casos e, com base na monitorização dos internamentos e os que estão nas unidades de cuidados intensivos (UCI), é desejável que se comecem a levantar as restrições a partir da segunda quinzena de fevereiro."

31 431 novos casos

Os investigadores Nuno Marques (Algarve Biomedical Center) e Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular, defendem que se deve esperar pela primavera para tomar uma decisão.

"Pensar, podemos pensar", diz Miguel Castanho, só que as novas medidas não serão para aplicar já. "Ainda temos um número alto de casos, quer por dia quer por semana, o número de óbitos é ainda elevado, assim como os internamentos. Podemos pensar com antecedência sobre o levantamento das restrições, mas acho que é precipitado fazê-lo já ou às pinguinhas, o que pode gerar confusão entre a população."

Na mesma linha, Nuno Marques justifica o adiamento desse momento pelos números elevados da pandemia em Portugal. "O número de óbitos é alto e o número de casos em termos de transmissão na comunidade também. As restrições de máscara, distanciamento, testes e isolamento deverão ser mantidas nos próximos dias."

Filipe Froes tem as mesmas preocupações relativamente às novas infeções e consequências da covid-19, mas considera que passou a pior fase. Sublinha que o levantamento das restrições devem ter por base os internamentos, nomeadamente em UCI, e a taxa de cobertura vacinal com o reforço. E, estes, dão boas perspetivas futuras.

Menos mil casos diários

Nas últimas 24 horas registaram-se mais 31 431 casos, quase menos 15 mil que há uma semana. Segunda-feira (27 916) teve uma quebra ainda maior que noutras semanas, o que poderá ter a ver com o domingo eleitoral. Quarta-feira atingiu-se o pico (62 095), dia a partir do qual as novas infeções têm baixado continuamente.

Portugal registou uma média diária de 44 498 novas casos diários de covid-19 na última semana. São menos mil por dia que nas duas semanas anteriores, indiciando ter sido ultrapassado o pico desta vaga de infeção. Graça Freitas já admitiu que poderá haver uma alteração das medidas, na linha que vêm seguindo outros países europeus.
Em entrevista à RTP, a dirigente da DGS previu uma "nova fase" no combate à pandemia, o que depende de se manter ou não a tendência de diminuição. Os números têm de ser mais baixos e estáveis, tudo apontando para que a doença se torne endémica. Entre as medidas, discute-se a redução do período de isolamento e o uso "sazonal" da máscara.

2511 internados

"Há uma tendência de decréscimo da incidência e, a confirmar-se, haverá um decréscimo de internamentos e de vítimas mortais, mas não nos devemos precipitar", repete Miguel Castanho. Salienta que alguns países que estão a diminuir as restrições no âmbito do combate à pandemia, o fazem indo de encontro às medidas já aplicadas em Portugal. É o caso do fim da obrigatoriedade do teletrabalho.

O investigador entende que são precisas duas a três semanas para se perceber o rumo da pandemia. "Daqui a duas/três semanas, estaremos próximo da primavera e mais confiantes para planear uma nova fase". As primeiras restrições a cair seriam as relativas à lotação de espaços e eventos públicos.

"A evoluir da forma como temos estado e olhando um pouco para os outros países, é expectável que abril seja a altura ideal para o levantamento de algumas restrições. Aparece o tempo quente e este tipo de vírus habitualmente surge mais no inverno. Com o aumento da temperatura será expectável uma menor transmissão", explica Nuno Marques.

Aliviar as medidas ainda em fevereiro, mas também depende de quatro fatores para Filipe Froes: a evolução da pandemia; a taxa de cobertura vacinal; o contexto geográfico; monitorização e ajustamento das medidas. Indicadores onde considera o país estar bem posicionado. Os últimos da população a manter restrições, nomeadamente o uso da máscara, serão "as pessoas mais vulneráveis [idosos, imunodeprimidos, etc] e que correm maior risco de infeção grave e os doentes sintomáticos".

Aliviar das medidas na Europa

Dinamarca
A Dinamarca foi o primeiro país da UE a eliminar a maioria das restrições no âmbito do combate à pandemia, apenas permanecendo as destinadas aos viajantes não vacinados. Desapareceram as máscaras e os certificados. A primeira-ministra, Mette Frederiksen, considerou que a covid-19 já não é "doença socialmente crítica". Mas não garantiu que as limitações não pudessem regressar no outono.

Suécia
O governo sueco vai levantar quase todas as restrições na quarta-feira. Os bares e restaurantes deixam de ser obrigados a fechar às 23:00 e o limite de aglomerações de pessoas será suspenso. Deixa de ser exigido o certificado de vacinação em eventos públicos e de ser recomendado o uso de máscaras nos transportes.

Suíça
A partir de quarta-feira, os suíços deixaram de ser obrigados ao teletrabalho e à quarentena se estiverem em contacto com doentes da covid-19. O presidente suíço, Ignazio Cassis, anunciou o levantamento das restantes restrições até 17 de fevereiro. Justificou que já se vê "a luz ao fundo do túnel" e acredita que estamos no início da "fase endémica".

Noruega
O governo norueguês levantou na última quarta-feira a maioria das medidas anti-covid, como o teletrabalho obrigatório e as restrições à venda de álcool. O primeiro-ministro, Jonas Gahr Store, defende que a sociedade poderia e deveria "viver com o vírus".

República Checa
Os checos vão deixar de apresentar a partir de quarta-feira o certificado de vacinação ou de cura da covid-19 para entrar em bares, restaurantes e eventos desportivos e culturais, anunciou o primeiro-ministro, Petr Fiala. O Tribunal Superior Administrativo da República Checa suspendeu esta semana o limite de acesso a esses espaços a pessoas vacinadas ou curadas, o que acelerou a decisão do governo.

Itália
O governo italiano aprovou esta semana um decreto que retira o prazo de validade do passaporte sanitário covid-19 para aqueles que receberam a terceira dose da vacina, que era de seis meses.

ceuneves@dn.pt

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