Impacto da Ómicron pode ditar medidas adicionais no fim de ano

Até final do ano, nova variante já deverá corresponder a 90% dos novos casos no país. Governo já contratou 400 novas camas hospitalares e diz-se "preparado para tudo"

Ómicron. A 15.ª letra do alfabeto grego está a deixar o mundo em suspenso face à evolução da pandemia de covid-19 e, em Portugal, a sua ameaça faz acender sinais de alerta com mais um período festivo à porta. Para já, o Governo resiste a impor mais limitações que condicionem o Natal, mas tanto o primeiro-ministro como a ministra da Saúde assumiram ontem estar "preparados para tudo", dependendo do impacto da Ómicron nos próximos dias. Se as piores previsões se confirmarem, é possível que o fim de ano já seja vivido com restrições adicionais, como defendem alguns especialistas.

Num dia em que a incidência de casos em Portugal voltou a subir para valores recorde, acima dos 525 casos por 100 mil habitantes, Marta Temido e os especialistas do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA) fizeram um ponto de situação sobre a evolução da pandemia no país e a ameaça da variante Ómicron. A ministra da Saúde revelou que as estimativas indicam já uma prevalência de 20% da nova variante em Portugal, "que poderá subir para 50% na semana do Natal e cerca de 90% no final do ano".

As estimativas do INSA apontam para uma duplicação de casos da Ómicron a cada dois dias, o que, mesmo que a gravidade dos casos com esta variante possa ser menor (o que ainda não é uma certeza, avisam os especialistas), acabará por trazer inevitavelmente "maior pressão" sobre os hospitais. Por isso, revelou Marta Temido, foram já contratadas na semana passada "mais de 400 camas, sendo que as administrações regionais de saúde celebraram mais 38 acordos para o encaminhamento de utentes Covid e não Covid" para instituições da esfera privada, social e militar.

Para o epidemiologista Baltazar Nunes, "um indicador que vai ser muito importante" é o das pessoas com mais de 70 anos que já têm a dose de reforço da vacina. "Se a incidência aumentar neste grupo, será sinal de que a vacina não está a ter o impacto desejado nesta variante", disse. Daí, adiantou, a necessidade de ter cenários preparados para as duas eventualidades: se a efetividade da vacina for mais baixa, serão necessárias novas restrições, se o aumento de casos não provocar subida acentuada de hospitalizações, o plano em curso poderá ser mantido.

De resto, mesmo ainda sem um grande peso da Ómicron em Portugal, os internamentos por covid-19 em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) quase duplicaram no último mês e, segundo o último relatório das linhas vermelhas, publicado pelo INSA, já atingiu 62% do limiar crítico de 255 camas. Ontem, esse valor estava nos 147.

Ora, com a aproximação do Natal, período de reuniões familiares e convívios em espaços fechados, aumenta o receio de de maior pressão sobre os serviços de saúde, e em especial os cuidados intensivos. "Este era o pior momento para acontecer [esta variante]. No Natal, com muitos convívios, vamos ter uma transmissão brutal e o recorde de novos casos deverá ser batido", avisa o matemático Óscar Felgueiras, perito do grupo encarregado de aconselhar o Governo.

Já o diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgências e Medicina Intensiva do Hospital São João, Nelson Pereira, antecipa que se avizinham "dois meses muito difíceis" para a pressão sobre os serviços de urgência e, em declarações ontem à Rádio Renascença, disse que "devemos pensar seriamente" na possibilidade de aumentar o nível de restrições no Ano Novo.

Para já, Marta Temido diz que cabe a "cada um fazer mais". "Mais uso de máscara, mais testes, mais vacinação e mais controlo de fronteiras". Nesse sentido, revelou que vai aumentar o número de testes covid-19 gratuitos por pessoa, atualmente fixado em quatro por mês. Mas também disse que o Governo "está preparado para tudo" face à evolução da pandemia. O mesmo afirmou o primeiro-ministro António Costa, que assegurou que, para um futuro imediato, não estão previstas medidas adicionais", mas também alertou que, "se a evolução continuar a ser esta", mais medidas serão adotadas.

Recorde-se que está estabelecida uma semana de contenção entre 2 e 9 de janeiro.

Recomendações para o Natal

A realização de testes estes rápidos (TRAg) ou autotestes é uma das principais recomendações da DGS para un Natal responsável e em segurança. Além disso, retomando conselhos já expressos no ano passado, lembra que "as festas podem ser realizadas com grupos mais pequenos, idealmente pertencentes à mesma bolha familiar/social", distribuindo pequenos grupos por mesas separadas sempre que possível. E recomenda ainda que se opte por espaços ventilados. A máscara deve "ser mantida quando não se estiver a consumir alimentos ou bebidas", sobretudo quando se está na presença de pessoas mais vulneráveis ou que estejam em grupos de risco.

rui.frias@dn.pt

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