Hotelaria e comércio ainda vivem o efeito da visita do Papa

Uma semana depois da visita de Francisco, o comércio ainda vive dias de glória: os hotéis continuam cheios de turistas estrangeiros e há peregrinos nacionais que escaparam aos dias de confusão

Ivo Oliveira aproveita o sol que lhe entra pela porta estreita da loja para ir dobrando os lenços brancos com a imagem de Nossa Senhora e dos pastorinhos. Naquele espaço de nove metros quadrados, o lojista vai repondo o stock de artigos esgotados há uma semana, por ocasião do 12 e 13 de maio. É certo que a procura dos artigos abrandou, mas ninguém se queixa da falta de vendas, cujo volume é mais elevado do que em anos anteriores na mesma altura. É sexta-feira, dia 19, e dali avista-se o recinto do Santuário, que confirma a impressão deste comerciante: houve uma quebra por parte do turismo nacional, mas o turista estrangeiro está em força em Fátima. Há grupos de brasileiros, chineses e franceses a chegar, enquanto os hotéis continuam cheios.

Os dias loucos da peregrinação do centenário deixaram marcas em cada um dos comerciantes de Fátima, como é fácil constatar na conversa com qualquer um. Ivo Oliveira, 57 anos, é proprietário daquela loja de artigos religiosos há 15 anos, nascido e criado em Fátima. "Acompanhei todas as visitas dos quatro papas, mas esta teve muito impacto", diz ao DN, enquanto revela que "até o terço do centenário esgotou".

Do outro lado do Santuário, a norte, há relatos idênticos por parte dos lojistas. Elisabete Silva, a cabeleireira proprietária do salão Marisbete, que já vai na terceira geração, trabalha ali com o pai, Mário, desde que se lembra. A 12 de maio último teve um dos dias de maior azáfama de que tem memória, no atendimento a guias e outros agentes turísticos. "Como os peregrinos e os turistas estavam todos no Santuário, tinham tempo para arranjar o cabelo. Praticamente tivemos de mandar pessoas embora porque eram 17 horas de trabalho", conta Elisabete.

Perdeu a conta aos telefonemas que recebeu de peregrinos em viagem a quem teve de recusar serviço e acabou por recuperar tudo na semana que agora passou. "Fátima está cheia de turistas estrangeiros, que ficaram depois do dia 13. Sobretudo irlandeses, que são muito católicos, e que nos dias seguintes foram passear por Alcobaça, Nazaré, Batalha, e só agora é que estão a conhecer Fátima", acrescenta. Era o caso de uma mulher na casa dos 60 que no dia anterior lhe entrou pelo salão adentro a pedir um trabalho original: "Queria madeixas rosa e azul, em homenagem aos santos Jacinta e Francisco Marto."

Peregrinar sem confusões

Entre os turistas estrangeiros naquela manhã, destaca-se um grupo de peregrinos portugueses. São 13, todos homens, envergam ainda o colete refletor e esperam junto à Capelinha das Aparições pelo amigo que tinha "uma promessa a cumprir". Chegaram ao Santuário pouco antes das 11 horas, vindos de Seia e de Celorico da Beira, auxiliados por dois carros de apoio. "Pelo menos viemos seguros", brinca um deles, numa alusão aos quatro guardas da PSP que integram o grupo. José Pires, que chefia a esquadra de Gouveia, explica as razões desta peregrinação tardia: "Queríamos fugir à confusão de 12 e 13. O alojamento ou estava esgotado ou era muito caro. E assim, uma semana depois, fizemos isto nas calmas."

Os hotéis e pensões estão cheios (mas já não lotados) de turistas - muitos portugueses, como é o caso destes peregrinos da serra da Estrela, mas sobretudo estrangeiros. Tal como no comércio, também na hotelaria, neste ano, a semana após o 13 de maio vive um período de maior euforia, confidenciaram ao DN responsáveis de três hotéis da zona.

O chefe Pires é a prova de que tudo serve para prometer e cumprir. Conta que havia uma promessa para cumprir: "Tinha um processo em tribunal com um familiar e prometi a Nossa Senhora que aqui vinha a pé se ganhasse. E assim foi."

O padre Cristiano Saraiva, administrador do Santuário de Fátima há nove anos, contabiliza muito do que foram essas longas horas da semana passada. Foi ele quem coordenou os 310 trabalhadores, aos quais se juntaram os mil voluntários que, entre várias funções, tiveram a seu cargo os trabalhos de limpeza do recinto. Ao aterro sanitário da Valorlis chegaram várias toneladas. Desses dias intensos, o administrador conclui que "há muitas pessoas que não são ponderadas e não têm em atenção o lixo que deixam nem as questões ambientais (...) Houve uma imensidão de exagero no que deixaram dentro do recinto e nas zonas envolventes", confirma o padre Cristiano Saraiva, que, na hora de fazer o balanço, diz que "correu tudo bem a 95%. Os 5% que não correram bem dizem respeito a questões que não são relevantes".

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