Entre depressões, temos um país no limite e as próximas tempestades pressionam um território saturado por chuva sobre chuva. Portugal volta a entrar num ciclo de instabilidade poucas horas depois de começar a contabilizar - e a reparar - os estragos deixados pela depressão Kristin. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera confirma que uma nova depressão, Leonardo, vai afetar o estado do tempo entre terça-feira e sábado, trazendo chuva persistente (por vezes forte), vento, neve e agitação marítima. A natureza não dá tréguas. Segundo o IPMA, a depressão Leonardo está inserida “numa vasta região depressionária onde irão formar-se vários núcleos nos próximos dias”. Ou seja, além da Leonardo, uma outra depressão perfila-se no Atlântico e prolonga o risco de precipitação e vento em sequência. “Sabemos que a Proteção Civil está de prevenção. Em casos extremos evacuar populações é uma possibilidade”, diz ao DN João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na NOVA FCT. A meteorologia é apenas metade da história. A outra metade está no chão: solos saturados, encostas fragilizadas e redes urbanas de drenagem já sob pressão em resultado da tempestade Kristin. “Como os terrenos estão saturados, não absorverão com facilidade novas chuvadas”, diz o especialista. O que antes infiltrava, agora escorre - e o escoamento superficial tende a concentrar-se onde sempre se concentrou: nos vales, causando danos especialmente nas áreas urbanas, antigas ribeiras canalizadas, túneis, caves e zonas baixas das cidades. Ao mesmo tempo, o país ainda está a medir o impacto recente da Kristin, que deixou destruição relevante na zona centro e levou o Governo a prolongar a situação de calamidade até 8 de fevereiro, precisamente por antecipar “adversidade climatérica” nos dias seguintes. E, perante uma sequência que apanha território e serviços ainda em recuperação, o próprio especialista reconhece o limite do planeamento: “Para o que aconteceu com a Kristin, ninguém está preparado. Agora é altura de socorrer as vítimas.” Solos diferentes, impactos diferentes e por etapas “Portugal é um país com muitos solos degradados e falar em recuperação de solos é falar de um horizonte de séculos”, diz Joanaz de Melo. Perante grandes inundações, os impactos não se manifestam todos ao mesmo tempo. Primeiro, perde-se infiltração; depois, agrava-se a erosão, que resulta no assoreamento dos rios; e, quando a água baixa, ficam os sedimentos onde a cheia passou. O solo é um sistema vivo: quando está em bom estado, funciona como esponja; quando está degradado ou selado por betão, transforma chuva em lâmina de água à superfície. É por isso que, em pleno “comboio” de depressões, o problema raramente é apenas “quanto choveu”. “É também onde choveu, sobre o quê choveu e como ocupámos esse território — o que se torna decisivo em três frentes: urbano, agrícola e costeiro”, diz Joanaz de Melo. Cidades: a cheia mais rápida é a que não encontra solo Nas cidades, a água cai sobre superfícies impermeáveis. Quando chove com persistência e o solo periférico já está saturado, a drenagem urbana aproxima-se do limite e qualquer obstrução (grelhas cheias de detritos, valas assoreadas, linhas de água canalizadas…) acelera a inundação. A isto soma-se um risco que não é só hidráulico: cheias urbanas arrastam óleos, combustíveis, resíduos e, por vezes, esgoto. A água baixa, mas deixa uma assinatura no terreno — lamas finas e contaminantes concentrados em parques, canteiros, caves e hortas urbanas. É também nas cidades que se torna mais visível o custo da impermeabilização: ruas que eram linhas naturais de escoamento voltam a comportar-se como tal, porque, em muitos casos, a cidade cresceu sobre ribeiras e vales. “Um terreno impermeabilizado é um solo destruído. E por isso mesmo as piores cheias são as urbanas”, diz ao DN João Joanaz de Melo. Por isso, o problema número um, diz o especialista, “são as ocupações elevadas em áreas sensíveis”.Segundo dados da Direção-Geral do Território, existem 27 mil edifícios em áreas de risco de cheias. E sabemos que 4% das áreas de risco de cheias estão impermeabilizadas e ocupadas por edifícios pesados - habitações, serviços e indústrias. São, lembra Joanaz de Melo, “centenas de milhares de pessoas em áreas de alto risco de cheias, derrocadas e de afetação direta pelo mar, nomeadamente com galgamento de dunas”. “Por que razão Alcântara inunda? Porque está sobre uma ribeira. O Vale de Alcântara — a Avenida de Ceuta — era um rio. Por que razão se chama Sete Rios a Sete Rios? Porque ali confluíam sete ribeiras.” Quando se constrói sobre rios, e quando a cheia coincide com maré alta, “as cheias tornam-se inevitáveis. Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam periodicamente”, diz o especialista. Temos sobretudo excesso de construção urbana em zonas de risco, áreas que, diz Joanaz de Melo, “estão identificadas nos planos diretores municipais”. Uma das funções principais da Reserva Ecológica Nacional não é “proteger passarinhos ou flores”: é prevenir riscos e defender pessoas e bens. “Temos de levar a sério esses planos e parar de construir onde não devemos. Quanto ao que já existe, não defendo que se deitem cidades abaixo, mas nalguns casos haverá que realojar pessoas que vivem em zonas de alto risco. Não é admissível termos pessoas a morar em caves em zonas de risco de cheias. E quem quer morar “à beira-mar” tem de perceber que, quando há um desastre, não compete ao Estado suportar todos os prejuízos”, defende. Agricultura: quando o solo está protegido, aguenta; quando está nu, perde-se No campo, o impacto da chuva intensa depende muito da cobertura vegetal e do declive. Encostas lavradas e solos nus perdem rapidamente a sua camada superficial: a água desfaz agregados, leva matéria orgânica e nutrientes e transporta sedimentos para ribeiras e rios, contribuindo para o assoreamento e para o galgamento mais rápido das margens em episódios seguintes. É aqui que a ocupação do território faz diferença, e o especialista aponta um contraste claro: “O tipo de ocupação mais resistente à intempérie é a floresta autóctone. A floresta de espécies nativas protege o solo do impacto direto da chuva e promove a infiltração da água, que por sua vez alimenta os lençóis de água subterrâneos e as nascentes. Qualquer floresta tem esse efeito, mas um eucaliptal não é tão eficiente. É eficiente a transformar água em madeira. É uma árvore oportunista. Mas, quando chove, uma floresta biodiversa, com mais estratos, com árvores e arbustos diferentes, ajuda melhor a proteger os solos. Aí, sim, funciona como esponja.” A gestão do próprio terreno também pesa. Em especial nas encostas, a forma de mobilização do solo pode acelerar ou travar a erosão: “Lavrar a terra em terrenos com declive, especialmente contra as curvas de nível, provoca a erosão pela chuva. Em contrapartida, se tiver plantas permanentes, as raízes ajudam à entrada da água no solo.” Numa fase de depressões sucessivas, isso traduz-se numa diferença prática: onde o uso do solo favorece a infiltração, há amortecimento da cheia; onde o solo está impermeabilizado ou degradado, a água escorre, há perda de fertilidade, mais sedimento nos cursos de água e maior probabilidade de cheias a jusante. Costa: dunas são como para-choques No litoral, a chuva soma-se a outro fator decisivo: agitação marítima e galgamento. A água do mar não traz apenas inundação; traz sal. E o sal, depois de a água baixar, pode ficar no perfil do solo e criar stress prolongado na vegetação e nas culturas. Por isso, a primeira linha de defesa não é uma parede: é o sistema natural, sobretudo as dunas. E aqui a mensagem do especialista é direta: “O grande impacto é o galgamento de zonas costeiras baixas. Se o cordão dunar estiver em bom estado, as plantas das dunas são muito resilientes ao vento e ao mar, é uma barreira natural, resiliente, que protege o interior.” A vulnerabilidade cresce quando o cordão dunar está fragilizado e quando a costa perde “areia disponível” para se recompor, um tema que também aparece na leitura do professor: “Temos uma orla costeira muito dinâmica. Uma das razões do problema na linha de costa é a falta de areias nas praias, retidas pelas albufeiras.” Num episódio de tempestade, essa dinâmica traduz-se em energia a mais para um sistema com areia a menos. E é por isso que, no meio de avisos meteorológicos e previsões de ondulação, as dunas surgem como infraestrutura de proteção - natural, mas essencial: “As dunas são um sistema de amortecimento, uma espécie de para-choques que dissipa a energia das ondas.” Os melhores sistemas de proteção são os naturais: floresta autóctone, zonas húmidas, ribeiros e proteção dunar. “A primeira vez que em Portugal se tomaram medidas de reflorestação para o controlo de cheias foi em meados do século XIX. Foi por altura de umas cheias enormes resultantes da destruição de floresta. Tínhamos a maior parte do país desflorestado. Resultado: recomeçaram a plantar árvores”, diz, sublinhando a medida mais básica para prevenção de cheias futuras: “atender e respeitar a Reserva Ecológica Nacional”..“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”