"Em termos científicos é incontornável que as relações humanas de qualidade são centrais para a saúde individual e a longevidade"

"Virtudes coletivas e fortalecimento da paz: o papel dos bens relacionais" é o título da conferência que encerra o ciclo "Tolerância, solidariedade e paz", organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. A palestra de Helena Águeda Marujo, professora no ISCSP, pode ser vista por Zoom esta terça-feira às 18 horas.

Sei que admira muito o pensamento ético de John Adams, que foi o segundo presidente dos Estados Unidos. Pode explicar porquê?
O pensamento de John Adams toca-me (não iria tão longe quando dizer que admiro "muito", mas sim que respeito e contemplo) por estarmos perante uma contribuição intelectual e diplomática de um estadista defensor dos direitos humanos, da significância moral de um país e do propósito ético de servir a humanidade. Reconheço também valor na sua defesa da liberdade de expressão e da educação universal e, especialmente, nos seus fortes argumentos contra a escravatura. Lutou - talvez de forma obstinada - contra o que negava os seus valores, enraizando-se com coerência no claro quadro de valores em que acreditava. Foi à sua maneira um pacifista - ainda que criticado pelo seu distanciamento e recusa de entrar diretamente em conflito político, o que lhe pode ter custado a sua reeleição em 1800 - e ajudou o seu país a evitar a guerra com a França durante o seu único mandato. Para alguém como eu interessada no impacto das ideias éticas nas políticas públicas, na edificação e manutenção da paz e na relevância incontornável de uma educação para todxs, estes argumentos e posicionamentos tocam fundo. A sua foi uma liderança moral (tanto precisamos de lideranças morais), compassiva, em defesa do Estado de direito, e a sua política externa visou garantir, tanto o interesse nacional, como alcançar uma paz honorável e dignificante. Não concordando com muito do seu pensamento, nomeadamente com o seu ​republicanismo de elite, contrastante com visões mais igualitárias, não deixo ainda assim de ver sólidos caminhos éticos na forma como liderou os EUA.

Existe uma ética individual e uma ética de cada sociedade?
Respondo com uma questão, talvez porque não há problema ético mais central do que a pergunta "Porque deverei eu ser moral"? Uma forma de colocar esta questão é pensá-la em termos de interesse próprio. Porque devo agir de uma forma que é, ou parece-me ser, contrária aos meus próprios interesses pessoais, mesmo quando isso pode produzir benefícios, ou evitar danos, para outra pessoa ou grupo? Na teoria dos jogos argumenta-se que, embora o comportamento de interesse próprio possa compensar a curto prazo, a longo prazo cada indivíduo beneficia cooperando (incluindo sacrifícios ocasionais dos seus próprios interesses em benefício de outros). Não é um apelo piedoso a um princípio do tipo "Faça aos outros como queria que lhe fizessem a si", mas uma estratégia comprovadamente bem sucedida e evolutivamente estável. Esta visão defende que não existe uma distinção radical entre moralidade coletiva e interesse próprio. A pessoa genuinamente interessada em si mesma será coletivamente moral, porque esta é a estratégia com o melhor retorno esperado a longo prazo para ele ou ela. No entanto, nas sociedades modernas é difícil, por exemplo, persuadir as pessoas a sacrificar o seu interesse a estranhos, e existem frequentemente fortes motivações para não o fazer. Mas se queremos que as pessoas individuais ajam moralmente, não deverá ser porque agir assim se baseia no interesse próprio esclarecido, mas porque às vezes precisamos que as pessoas façam verdadeiros sacrifícios dos seus interesses em benefício dos outros e do ganho coletivo.

Os valores que no final do século XVIII/inícios do século XIX eram defendidos por alguém como John Adams são válidos no século XXI?
Alguns, sem duvida. A esses, considero até serem vitais na nossa atual sociedade. Destaco a liberdade; a honestidade e a integridade; a consciência e coerência moral; a frugalidade como virtude; a humildade na relação com o conhecimento; a luta contra a ignorância e a mesquinhez; defendeu a contribuição para os negócios públicos e para o serviço do coletivo. Recusou-se a aceitar subornos de qualquer tipo e não jogou o jogo do sistema político de patrocínio e favores da época (e que infelizmente tão bem conhecemos ainda hoje), sendo assim um exemplo de liderança e intelectual anticorrupção.

As interações humanas podem ir muito além do material e passar também pelo puramente relacional?
Não só podem, como devem. Em termos científicos é incontornável que as relações humanas de qualidade são centrais para a saúde individual e a longevidade, e que os bens relacionais, ou seja, as relações humanas fraternas, compassivas, não instrumentais, são fundamentais para a paz e para a felicitas publica, a felicidade pública. Esta é a versão coletiva da felicidade, que transcende a limitada - e até socialmente perigosa - visão da pessoa enquanto agente essencialmente individualista e autocentrado no seu próprio bem estar e sucesso, e a eleva a um patamar de contribuição virtuosa para o bem comum.

A moderna ciência dá-nos pistas sobre como construir uma sociedade baseada na ética, próspera e que acredite no valor da paz?
Absolutamente. Os ganhos multisistémicos para a economia, para a saúde publica - seja mental, seja física - para a produtividade, para a coesão social... são indiscutíveis. Não há sustentabilidade económica, cultural, social, ambiental... sem paz. E para tal precisamos de boas lideranças morais, evidência que a ciência tem veiculado repetidamente a partir de fontes disciplinares diversas.

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