"Em Portugal, 100 anos de república mataram oito séculos de monarquia, mas devemos muito aos nossos reis" 

Brunch com José de Bouza Serrano, embaixador e autor de A viúva de Windsor.

O embaixador José de Bouza Serrano recebe-me em casa, numa das avenidas novas de Lisboa, e enquanto prepara ele próprio um ligeiro pequeno-almoço para os dois convida-me a estar à vontade na sala, dizendo "aqui vai ficar logo a saber muito da minha vida". Não é uma sala qualquer, pois destaca-se um enorme busto de D. Carlos, fotos de D. Duarte de Bragança, pretendente ao trono português, e um instantâneo do próprio Bouza Serrano a rir-se com Juan Carlos, hoje rei emérito de Espanha. Na verdade, e tendo ainda em conta os livros que vi nas estantes e a revista Point de Vue, dedicada à rainha de Inglaterra, sobre uma mesa, é a sala que imaginaria, tendo em conta saber que Bouza Serrano é um monárquico convicto. Tal ficou bem claro nos seus comentários televisivos ao funeral de Isabel II e a sua própria produção literária confirma-o. Este nosso brunch improvisado tem, aliás, como pretexto A viúva de Windsor (Oficina do Livro), livro dedicado à rainha de Inglaterra e com o título inspirado na sua condição depois da morte do príncipe Filipe em abril de 2021, quase centenário. Isabel II sobreviveu ao marido, pai do atual Carlos III, 17 meses, morrendo com 96 anos.

Como subtítulo, o livro, cuja capa mostra uma rainha já idosa mas sorridente, promete "histórias da história do longo reinado de Isabel II". Promete e cumpre, graças a muitas leituras do autor mas também a toda uma vivência sua como diplomata, basta pensar que numa parede há uma fotografia do meu anfitrião com o atual rei inglês, quando era ainda Carlos, príncipe de Gales. Foi numa visita de Carlos e Camila em 2011, quando Bouza Serrano era o chefe do Protocolo do Estado.

Sou chamado a passar à divisão ao lado, casa de jantar, para um café acompanhado por biscoitos tradicionais portugueses como os bolos de gema e as cavacas. E para começo de conversa, sabendo que estou a falar com um lisboeta nascido em 1950, pergunto as raízes familiares e sobretudo a origem do apelido Bouza. "A minha família é de lisboetas, embora tivessem origens diferentes: as do meu pai são do Alentejo e as da minha mãe da Galiza. O nome Bouza é galego e o meu irmão, que já faleceu, e eu sempre quisemos usar o nome Bouza Serrano e passá-lo aos nossos filhos e netos como forma de honrar os nossos pais", conta. E acrescenta que "no Alentejo não tínhamos nada porque a família já cá estava na capital há duas gerações, mas íamos à Galiza em miúdos, e ainda hoje. Temos lá duas casas que o meu avô deixou. Juntamente com a viúva do meu irmão, os nossos filhos e netos, todos os anos em agosto vamos à Galiza, ainda que seja por poucos dias. É uma aldeia que se chama Santiago de Covelo, ao pé das termas de Mondariz, e temos esta tradição".

Curiosamente, não é dos pais que vem a veia monárquica de Bouza Serrano, que, entre risos, e antes de explicar, me relembra que é "um monárquico com serviços à república". Pergunta se quero outro café, que agradeço mas dispenso, e avança então com a explicação possível: "deve-se um bocadinho a uma precetora que tive e que era parente nossa, vagamente prima, a prima Etelvina. Era uma mulher muito educada e muito interessante que vivia connosco e cuidava, sobretudo, de mim. Levava-me imenso a museus, a passear, e, em 1957, levou-me a ver a rainha Isabel II ao Rossio. Nessa noite, também o meu pai levou-me a uma loja que tinha televisões a preto e branco - pouca gente tinha televisão em casa - e ficámos do lado de fora a ver as cerimónias desse dia. Além do gosto pela monarquia que a prima Etelvina me incutiu, ela gostava muito de histórias sobre a monarquia. Já o meu pai, era completamente republicano. Portanto, concluo que foi mesmo a prima Etelvina que me incutiu esse gosto pela realeza. Aliás, quando vi a carruagem em que a rainha vinha, reconheci-a, pois já a tinha visto antes no Museu dos Coches porque já lá tinha ido com a minha prima".

Comento com o embaixador que o arquivo do DN tem uma vasta reportagem dessa primeira visita de Isabel II a Portugal e que é evidente o fausto oferecido à jovem monarca. Do ponto de vista de alguém que trabalhou no Protocolo do Estado, organizando visitas de líderes estrangeiros, esta da rainha terá sido um grande investimento do Estado português? "Sim, não só por Inglaterra ser a nossa grande aliada, mas também para retribuir a visita do presidente Craveiro Lopes a Inglaterra, dois anos antes. Salazar era muito contido nos gastos, mas neste caso não foi. A visita de 1985 já é muito mais sóbria e modesta, embora o presidente Eanes e o primeiro-ministro Mário Soares tenham tentado recebê-la da melhor forma, até porque é muito raro a rainha visitar o mesmo país duas vezes", explica.

Sobre a tal foto na parede com o agora Carlos III (na realidade, estão três momentos emoldurados) tirada numa visita a Portugal, Bouza Serrano diz que foi uma conversa curta, mas não a primeira, pois já se tinham conhecido em Londres, numa cerimónia. Carlos III, com 73 anos e que parecia condenado a ser um eterno príncipe de Gales, é uma das personagens que mais surge neste último livro, até por causa da "modernice" que foi o triângulo amoroso a envolvê-lo mais a princesa Diana, princesa de Gales, e Camila Parker Bowles, atual rainha-consorte, e esta com o então marido, Andrew Parker Bowles, também ele com amantes, como descreve Bouza Serrano num tom informado mas descontraído, de leitura muito agradável. Gosto especialmente da forma como escreve que, por fim, "a princesa Diana deu uma entrevista à BBC e pôs tudo a nu".

A carreira diplomática foi sempre o objetivo desde jovem, admite o meu anfitrião. Depois de estudar no Liceu Camões, licenciou-se pela Faculdade de Direito de Lisboa. Sabia que tinha de ter uma licenciatura para ser diplomata e até chegou a pensar em ir para História, mas o pai aconselhou-o noutro sentido. "Fiz Direito, mas nunca me inscrevi na Ordem dos Advogados. Queria mesmo ser diplomata e quando entrei na carreira o ministro era o coronel Melo Antunes, depois conheci o embaixador Freitas Cruz (que morreu num desastre sendo embaixador em Madrid e eu seu secretário) e Freitas do Amaral, meu antigo professor de Administrativo". Mas houve um período de cargos mais políticos, ainda que de segundo plano, para o jovem Bouza Serrano: "Foi no Palácio Foz que assisti à revolução. Fui para lá com o comandante Correia Jesuíno, depois veio Almeida Santos. Depois do Palácio Foz ainda fui com António Barreto quando este foi ministro do Comércio e Turismo, porque precisava de alguém para relações-públicas e fui eu destacado. Quando António Barreto saiu para ministro da Agricultura eu saí também e voltei para o Palácio Foz. Nessa altura, já estava casado e tinha um filho, comecei a preparar a entrada no concurso do ministério dos Negócios Estrangeiros".

Há na carreira de Bouza Serrano uma coincidência de que o próprio só deu conta tardiamente, mas que o deixa feliz: desde o seu primeiro posto em Espanha serviu sempre Portugal no estrangeiro em monarquias, pois foi colocado a seguir na Bélgica, no Vaticano (ou seja, junto da Santa Sé e por inerência também junto da Ordem Soberana de Malta), na Dinamarca e nos Países Baixos, nestes dois últimos como embaixador. "Tive sorte, embora não tenha tido logo consciência disso. Foi só no meu último posto, na Holanda, quando a rainha Beatriz abdicou. Aliás, é interessante que os holandeses têm isso tudo muito bem definido, abdicam sem prantos e sem enterros de Estado". Diz sempre Holanda ou também usa Países Baixos, pergunto. "Agora procuro dizer Países Baixos, mas sai-me muitas vezes Holanda. Gostei muito de viver lá, até tenho lá um sobrinho que foi uma grande companhia para mim e também uma sobrinha que é professora e já escreveu dois livros. A monarquia holandesa é diferente, é mais ligada ao povo, é fácil até vê-los andar de bicicleta. A rainha Beatriz não andava nos últimos tempos porque já tinha alguns problemas, mas o atual rei, Guilherme, até pilotava aviões e esteve, em segredo, vários anos a pilotar voos comerciais da KLM. Na realidade, eles andaram ao contrário porque os Países Baixos eram uma república e depois com o irmão de Napoleão é que voltou a ser uma monarquia. A dinastia de Orange é muito antiga historicamente, mas são muito práticos. Claro que também têm o seu protocolo e cerimónias, mas há muito voluntariado e não têm aqueles títulos de nobreza como temos, por exemplo, em Espanha",

Conhece bem o Reino Unido, conta que frequentou muito as corridas de cavalos em Ascot, em regra convidado por amigos embaixadores e portanto com acesso à zona onde estava a aristocracia mais alta, lidou com alguns membros da família real britânica, mas admite que gostaria de ter sido diplomata em Londres, afinal não mais uma capital de monarquia, mas a capital da monarquia das monarquias. "Isabel II foi uma grande rainha, e o reinado tão longo que fez história. Mas o fascínio por ela tem muito que ver como antigo Império Britânico que agora tem o seu pálido reflexo na Commonwealth, consolidada pelo pai de Isabel II. Daí também as más relações da rainha com Margaret Thatcher porque esta como primeira-ministra nunca se interessou nada pela Commonwealth. E o Império Britânico fascina-nos porque pensamos sempre na rainha Vitória como imperatriz das Índias e em todas as riquezas que foram acumulando. Digamos também que eram capazes de quase tudo os britânicos. Não se importavam nada de roubar o marajá e tirar o diamante para depois pôr nos cetros ou nas coroas. Têm ainda hoje uma capacidade de amassar fortunas e privilégios e acho que continuam a ser profundamente monárquicos. Sou profundamente europeísta e trabalhei em Bruxelas na nossa representação na União Europeia. Gosto muito do projeto europeu e tenho muita pena que os britânicos tenham saído. Mas foi pior para eles. Péssimo, só criou problemas, especialmente com a Escócia e a Irlanda, que são profundamente europeístas e que estavam muito bem dentro da União", diz, num tom divertido, enquanto insiste que eu coma mais um biscoito.

A forma como o rei Carlos III iniciou o reinado, comento eu, parece bem pensada, com a visita às nações do Reino Unido, nomeadamente à Irlanda do Norte e Escócia. "Sim, está muito consciente da necessidade de unir. E é engraçado porque ele e a primeira-ministra Liz Truss começaram os dois ao mesmo tempo nos novos cargos. A primeira-ministra era republicana, já foi trabalhista e agora é conservadora, era também contra o Brexit e agora defende-o. É a tal capacidade pragmática dos ingleses de apanharem as coisas pelo lado prático. Acho até que a rainha, sabendo que estava mais debilitada, foi para Balmoral, onde morreu, propositadamente como forma de dizer aos escoceses que não os deixassem. Parece uma coisa romântica ou um bocado tonta, mas não me parece que tenha sido coincidência de todo", reflete.

A conversa está a chegar ao fim. Terminámos o pequeno-almoço e chama-me ao escritório onde costuma escrever. Mostra-me um belíssimo mapa-mundi no teto e depois uma estante com vitrina que mandou fazer durante a pandemia de covid-19 e cuja organização, com as suas muitas condecorações, lhe preencheram o quotidiano nos longos dias do confinamento, afastado dos três filhos e dos quatro netos (dois rapazes e duas raparigas). Para despedida, nada como perguntar a um monárquico convicto, que teve funções em vários governos além de ser diplomata, homem do mundo, se as monarquias têm futuro, sobretudo as europeias. "Sim, têm futuro, na Europa e fora. São diferentes, é certo, embora tenham bases comuns. Em países como Marrocos ou Tailândia ainda são muito importantes em termos do poder do rei. As monarquias europeias são todas constitucionais e parlamentares e estão reguladas. Os reis e rainhas reinam mas não governam. E as pessoas continuam a gostar dos seus soberanos e vemos que se mantêm porque há uma identificação com a própria história do país. Na Bélgica, por vezes descrita como frágil, a unidade é a coroa. A única monarquia que vejo, atualmente, que poderia ter problemas seria a espanhola, mas também é um país com uma péssima experiência republicana. A esquerda "selvagem" de Espanha e o próprio primeiro-ministro é capaz de vender a mãe, a avó e toda a gente só para ficar no poder. É capaz de arranjar as alianças mais estranhas e contranatura". E acrescenta: há a teoria de que as monarquias às vezes não caem pela força dos republicanos, mas sim pela atitude negativa dos soberanos, quase uma autodestruição. E aí a caçada de Juan Carlos aos elefantes em plena crise económica e com milhões de desempregados deixou um péssimo legado a Filipe VI, o filho. " Em tempos de paz e de prosperidade teria sido tolerado a caçada mesmo que não tivesse pagado, pois foi convidado e pago por outra pessoa, e era uma maneira de se encontrar com a amante Corinna, com quem esteve dez anos. Mas eram tantos os desempregados em Espanha que ninguém perdoou, mesmo sendo o rei que herdou o poder de Franco e democratizou a Espanha".

Quanto a Portugal, admite que a monarquia não é popular, porque nem sequer se discute. "Passou a ser desconhecida dos portugueses. No fundo, em Portugal 100 anos de república mataram oito séculos de monarquia, mas devemos muito aos nossos reis e temos uma história muito bonita. A família real portuguesa é muito mal conhecida, não se dá muito a conhecer, mas tem valores muito interessantes. São pessoas muito válidas, bons estudantes e com noção de serem portugueses. Quando escrevi o meu livro do protocolo, deparei-me com duas falhas grandes: o lugar do cardeal-patriarca nas precedências e o lugar do representante histórico da família real que não existem. À luz da nossa história, não faz sentido, mesmo se no protocolo do Estado, com o consentimento dos presidentes da república, sempre se resolveu a situação com bom senso".

leonidio.ferreira@dn.pt

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