Em Leiria há uma mala com livros e jogos que ajuda a integrar crianças na escola

Durante dois anos, um grupo de investigadores criou um projeto de recursos acessíveis a todas as crianças do 1.º ciclo que permita a verdadeira inclusão. A ideia foi distinguida no final do ano passado pelo programa IDDNET.

Chama-se ProLearn4ALL o projeto de três investigadores do Instituto Politécnico de Leiria (IPL) e que tem como objetivo potenciar a inclusão, permitindo sucesso escolar a todos, independentemente das diferenças. A iniciativa, premiada no final do ano passado, consiste em construir recursos lúdico-pedagógicos acessíveis a todas as crianças do 1.º ciclo do ensino básico, que fomentem a aprendizagem dos conteúdos programáticos, independentemente das diferenças de cada criança.

O projeto foi premiado no Demo Day, evento final do primeiro Programa de Aceleração IDDNET Inovação Social, que decorreu em dezembro. A coordenadora, Catarina Mangas, contou ao DN os detalhes de um caminho que percorreu com uma vasta equipa (numa fase inicial) e mais tarde com dois colegas investigadores.

"Este projeto decorreu ao longo de dois anos e terminou em 2019. Depois, três dos investigadores acharam que não fazia sentido o projeto ficar na gaveta", conta. O grupo pegou nele e deu-lhe uma nova roupagem. "Muitas pessoas perguntavam-nos se podiam comprar aquele recurso. Foi assim que passámos a esta nova fase", explica, orgulhosa de ver o seu projeto entre os 15 que foram selecionados, entre os 59 que concorrem ao IDDNET Inovação Social, o programa de aceleração de iniciativas na área da inovação social.

O projeto foi um dos 15 que beneficiaram, ao longo de três meses, de acompanhamento e mentoria especializada de uma equipa de coaches e mentores experientes. A formação teve como objetivo aumentar o número de profissionais capacitados no mercado, com vista a replicar conhecimentos adquiridos e aplicá-los no desenvolvimento de novas ideias e projetos de inovação social sustentáveis, dando uma resposta crescente às assimetrias sociais e aos impactos ambientais negativos da região Centro.

A investigação promovida pelo IPL e cofinanciada pelo Feder - Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, no âmbito do programa Portugal 2020, através do Centro 2020 - Programa Operacional Regional do Centro, teve resultados surpreendentes.

No projeto inicial, os investigadores fizeram uma maleta com um conjunto de recursos que pretendia sensibilizar as crianças para a diferença. Jogos, livros, materiais diversos que o grupo do IPL ofereceu a cada um dos agrupamentos de escolas de Leiria. Ao todo, foram entregues 14 maletas. Lá dentro, personagens diversas de uma mesma história, cada uma representando uma criança com deficiência. "Tínhamos uma criança surda, uma cega, uma com deficiência motora e outra com deficiência intelectual. A intenção era que as crianças percebessem porque é que o colega do lado lê com uns pontinhos ou precisa que alguém lhe traduza em língua gestual. A intenção era sensibilizar, mesmo", sublinha Catarina Mangas.

Agora, após esta distinção, entra numa nova fase. A professora dá o exemplo do ciclo da água, para ilustrar o que se pretende: "Vamos criar um recurso que permita a todos [na sala de aula] aprender, independentemente das suas características."

Comercializar o projeto

Nesta fase, para que possa ser comercializado e mais direcionado, a aposta é nas crianças do 1.º ciclo. A ideia, que partiu da própria Catarina, foi materializada num grupo do IPL que integra vários elementos ligados a um observatório de investigação, acessibilidade e ação (IACT). "Na altura, o presidente do IPL desafiou os vários grupos de investigação a apresentar as ideias que tinham e que pudessem ser submetidas a concurso, para financiamento." Surgiram muitas ideias, mas esta haveria de se destacar.

Catarina Mangas reporta-se às práticas pedagógicas que vão sendo acompanhadas pelos investigadores, e que sublinha que "muitas vezes as crianças com deficiência vão sendo retiradas das suas salas de aula, para irem para outra sala e estarem apenas com um professor de educação especial". E assim cai por terra a inclusão. "Percebemos que isso acontece muitas vezes porque os recursos não estão disponíveis e as metodologias não estão preparadas, não por falta de capacidade da criança."

A equipa de Catarina sabe que, felizmente, muito caminho já foi percorrido no domínio da inclusão, "mas muita coisa é feita por carolice, por dedicação dos professores que fazem o material adaptar-se àquela criança que têm naquele ano, na sua turma ou na sua escola. E o que nós gostaríamos é que esses recursos fossem adquiridos para a escola, porque achamos que o facto de existirem vários formatos e linguagens, isso também acaba por sensibilizar as crianças para a inclusão".

Licenciada em Ciências das Educação, Catarina Mangas especializou-se em Educação Especial, área a que tem dedicado grande parte da sua investigação. Fala sempre no plural, em nome de uma equipa que sente grata por ter pela frente seis meses de incubação para desenvolver mais o projeto, ao lado de Carla Freire (comunicação acessível e multimédia) e Nuno Fragata (Design de Comunicação e Artes Plásticas).

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