"Em gestão emocional, e de meios, a primeira vaga da pandemia foi a mais difícil"

José Barros, diretor clínico do Hospital de Santo António, no Porto, onde há um ano foi confirmado um dos dois primeiros casos de covid-19 em Portugal, recorda ao DN a angústia inicial, conta como conseguiram evitar a rotura e recusa a ideia de que os doentes não covid foram abandonados.

Há um ano, o Hospital de Santo António vivia o primeiro caso confirmado de covid-19. Com tanto que a pandemia evoluiu, essa parece já uma recordação distante?
É uma memória ainda bem presente. O período inicial da pandemia, de março/abril [2020], foi o mais marcante. Embora em termos de expressão numérica possa parecer insignificante quando comparada com a segunda vaga e com o último mês de janeiro, a verdade é que em gestão emocional, e de meios, a primeira vaga foi mais difícil.

Já estavam preparados para o que aí vinha ou a realidade superou as expectativas?
Não fomos propriamente apanhados de surpresa a 1 de março. Recordo que em janeiro começou a falar-se da doença na China e na possibilidade de vir a tornar-se uma pandemia. Logo a 16 de janeiro, tivemos uma reunião geral de todas as hierarquias do hospital, chamando a atenção para o facto de que teríamos de ir reativando o plano de contingência que tínhamos preparado para outras ocasiões, como a gripe A, a gripe das aves ou, mais recentemente, um surto de sarampo que tivemos internamente. Entretanto, começaram a aparecer casos na Europa e no dia 16 de fevereiro tivemos uma formação em que os infecciologistas vieram falar com todos e transmitir o que sabiam da doença. Estivemos no anfiteatro todos juntos, sem máscara ainda, mas já com a sensação premonitória de que nos iria atingir algo.

E isso chegou a 1 de março [caso confirmado pelas autoridades de saúde no dia seguinte, 2 de março]. Como foi esse impacto?
A 1 de março tínhamos já, na enfermaria de infecciologia, 34 camas devolutas e tínhamos montado um laboratório para os testes de diagnóstico. Desativámos um bar que ficava perto da urgência e transformámo-lo em bloco de observações, para que os doentes não se misturassem. Lembro que na altura algumas pessoas até pensavam que era um desperdício termos 34 camas desativadas. Mas no dia 1 de março, às 11.00, lá surgiu o primeiro caso. Tratava-se de um médico de Penafiel que tinha estado a esquiar em Itália e tinha sintomas ligeiros, mas sugestivos. Uma médica interna pareceu-lhe que eram sintomas sugestivos de covid-19, aconselhou-se com outros colegas e decidiu-se pelo teste de diagnóstico. Na altura, lembro-me de que teve de ir um carro nosso levar a amostra a Lisboa, para ser validada pelo Instituto Dr. Ricardo Jorge.

Um ano depois, continuam ainda a acompanhar esse médico?
Em termos clínicos, não. Haverá contactos sociais, até porque foi médico aqui no centro hospitalar. Mas pode dizer-se que ele foi um pouco vítima da nossa insegurança na altura, porque esteve internado dez a 12 dias num quarto de pressão negativa apenas com sintomas ligeiros. Hoje nem sequer seria internado, faria apenas vigilância dos sintomas em casa. Mas, lá esta, nessa primeira fase tudo era um pouco às escuras. Mesmo em termos de materiais, hoje temos muitos à disposição, e alguns nem são precisos, como muitos ventiladores. Nessa primeira fase nunca houve uma rotura, mas também nunca sabíamos se iríamos ter materiais no dia seguinte. Os stocks eram limitados, os preços estavam inflacionados, não sabíamos se no dia seguinte teríamos luvas, por exemplo. Isso era uma angústia.

Ele [primeiro caso de covid] foi um pouco vítima da nossa insegurança na altura, porque esteve internado dez a 12 dias num quarto de pressão negativa apenas com sintomas ligeiros. Hoje nem sequer seria internado

O que mudou na "vida" do hospital ao longo do último ano? Quais os períodos mais complicados, por exemplo?
Olhe, nessa primeira vaga, 26 de março foi um dia de desespero. Abrimos uma enfermaria nova com 40 camas e ela esgotou em 24 horas. No dia 5 de abril, Domingo de Ramos, tínhamos mais de 150 doentes covid internados. Estávamos a abrir a última enfermaria, lembro-me perfeitamente, em contrarrelógio a um domingo, e nessa noite recebi informação de que não havia nenhum doente para internar. No dia seguinte também não. A partir daí foi diminuindo. A 22 de junho já não tínhamos doentes internados. E até 29 de julho estivemos mais de um mês sem internados por covid. Depois, entraram 25 doentes de um lar próximo do hospital e a partir daí nunca mais parámos.

A evolução da pandemia obrigou a revoluções internas diárias?
Digamos que foi uma revolução tranquila, no geral. Mas tivemos de converter algumas enfermarias em enfermarias covid. Tínhamos de ter sempre uma enfermaria de reserva, com 30 a 40 camas, para não deixarmos nenhum doente à porta. Isso fez, por exemplo, que tivéssemos de começar a fazer alguma cirurgia em ambulatório. Também tivemos de ir chamando médicos de outras especialidades para o combate à covid. Não no primeiro momento, aí até mandámos algumas pessoas para casa, porque a ordem era mesmo tirar gente do hospital. Nesses primeiros dias, como se diz no teatro, quem não era de cena saiu de cena. Ficaram apenas as cirurgias urgentes.

Quantas vezes tiveram de alargar o espaço para os doentes covid?
Na primeira fase tivemos um máximo de quatro enfermarias dedicadas a covid, na segunda chegámos às seis enfermarias, no máximo 280 camas. Também convertemos unidades de cuidados intensivos - o máximo foram 56 camas UCI.

Tínhamos de ter sempre uma enfermaria de reserva, com 30 a 40 camas, para não deixarmos nenhum doente a porta

Qual foi a fase com mais internamentos?
Em outubro e novembro tivemos muita afluência, começaram a chegar muitos casos. E depois chegou janeiro, a pior fase. Seis dos dez piores dias em termos de internamento foram em janeiro. Aliás, o pior foi 1 de fevereiro, em que tivemos 30 doentes internados num só dia. Eu acho que não houve uma terceira vaga, houve uma segunda vaga que começou em agosto, foi crescendo em outubro e novembro, em dezembro esteve algo melhor, e em janeiro explodiu.

Nunca chegaram a ter filas de ambulâncias à porta, como aconteceu em alguns hospitais da Grande Lisboa?
Não, e também não transferimos doentes. Houve períodos de stress interno, mas nunca houve uma situação dessas. Pelo contrário, o hospital sempre teve uma espécie de estranho silêncio, o ambiente esteve sempre controlado. Nunca faltaram camas e nunca faltaram meios. Nunca houve uma sensação de rotura. Em novembro houve um fim de semana em que tivermos de transformar um bloco de cirurgia de otorrino para camas de cuidados intensivos covid, mais de dez camas. Esse foi o único período em que estivemos um pouco na corda bamba. No resto do tempo não. Recebemos e disponibilizámos mais camas até para receber doentes de Lisboa. Alguns não vieram porque, ao que nos disseram, os doentes não quiseram vir para o Porto.

Desde início da pandemia, quantos doentes covid já teve o hospital?
Desde esse primeiro caso, a 1 de março, até hoje [28 de fevereiro] tivemos 2200 doentes internados por covid. Destes, 400 e tal foram em unidades de cuidados intensivos.

E doentes não covid? Ficaram muitas cirurgias e consultas por realizar?
Essa ideia de que os hospitais abandonaram os doentes não covid não é, de todo, verdade. Houve de facto uma redução de outras atividades naquela primeira vaga, mas de agosto até agora mantivemos atividade mais ou menos normal, apenas com ligeiras quebras. Em 820 camas, tivemos no máximo 200 dedicadas a covid e mais de 600 para doentes não covid. Em internamentos, tivemos 14% de quebra desde o dia 1 de março, comparando com o período homólogo anterior. Em relação a consultas, tivemos 6% menos, embora algumas por videoconferência e outras por teleconsulta. E tivemos 20% de quebra na cirurgias, mas todas as cirurgias urgentes foram feitas. De 40 800 cirurgias programadas fizemos 32 380. Onde tivemos uma quebra significativa foi nas urgências: 25%. Mas isso deveu-se mais à própria população: algum receio da comunidade, por um lado, mas também pessoas que explicavam que não queriam estar a sobrecarregar os médicos.

E para os profissionais de saúde? Que marcas deixa este ano?
Desde logo, no total de 4800 profissionais deste hospital, houve 650 que tiveram covid. Na primeira fase, até alguns dos líderes de grupos estiveram infetados, e alguns mesmo ventilados. Felizmente não morreu ninguém. Mas além da infeção, houve os impactos psicológicos, as horas extraordinárias, muitos deles tiveram de mudar de atividade... Tivemos muitos internos de outras especialidades que tiveram de estar a tratar doentes covid, num esforço brutal de todos. Mas, apesar disso, imperou quase sempre um espírito de muita generosidade e de muito profissionalismo.

Janeiro colocou Portugal em destaque no mapa da pandemia pelas piores razões. "Brincámos com o fogo" no Natal, ao permitir alguma folga?
Não entro por aí. A biologia do vírus é o fator principal que determina a evolução da pandemia. Se olharmos para a curva de outros países, o crescimento de casos coincide com a mesma altura, e não foi o Natal português o culpado. As medidas políticas podem moldar em 10% ou 20% a pandemia, mas não o grosso da pandemia. Agora, a margem que temos para moldar a curva é tão curta que temos de ser muito duros nas medidas para conter a progressão. Mas não creio que as medidas do Natal tenham sido o essencial. Isso depende mais da biologia do vírus, das novas variantes...

De 4800 profissionais deste hospital, 650 tiveram covid. Na primeira fase, até alguns dos líderes de grupos estiveram infetados, e alguns mesmo ventilados. Felizmente não morreu ninguém.

As tais linhas vermelhas têm de ser demarcadas mais cedo?
Sim, têm de ser mais claras e reconhecidas mais cedo, mas isto é novo para toda a gente. Estamos todos a aprender em cima do acontecimento. Todos temos dito coisas certas e todos temos especulado. O que irrita é a pesporrência de algumas pessoas que não leram, que não estudaram, que não se prepararam... pessoas que comentam uma epidemia durante um ano sem saber o que é um epidemiologista.

Esta pandemia veio expor as fragilidades do SNS ou reforçar a sua importância?
Ambas. Veio reforçar a necessidade de haver um SNS que enfrentou a crise e, tirando um ou outro ponto de rotura, não teve de praticar realmente uma medicina de catástrofe. Acho que isso não aconteceu. Houve momentos de tensão, isso sim, o resto é narrativa popular. Há pessoas que trabalharam e continuam a trabalhar muito, profissionais que ainda precisam de apoio psicológico, mas o SNS esteve à altura e não vimos uma situação de rotura como aconteceu noutros países. Ficou evidente que é o sistema público que garante resposta. O sistema privado deu uma resposta complementar, mas já numa fase mais tardia. E o hospital público não pode fechar a porta a nenhum doente. Por outro lado, a pandemia também veio chamar a atenção para áreas em que temos de investir. Houve um desinvestimento grande na saúde nos últimos anos.

SNS enfrentou a crise e, tirando um ou outro ponto de rotura, não teve de praticar realmente uma medicina de catástrofe.

Onde é mais urgente esse reforço? Mais profissionais? Camas de UCI?
Olhe, é preciso mais enfermeiros, isso é evidente. E há especialidades que precisam de ser reforçadas e não podem estar a viver à custa de horas extraordinárias, como acontece há anos com a medicina intensiva. Também é notório que a área da saúde pública tem de ser desenvolvida, para podermos fazer controlos eficazes de transmissão epidemiológica. Nesta segunda vaga não conseguimos fazer porque não havia profissionais suficientes. Não faltam camas. A afluência às UCI é um fenómeno sazonal, podemos funcionar em rede, sem dramas, até porque a maioria dos doentes estão concentrados em duas grandes áreas metropolitanas.

Olhando agora para a frente, as vacinas vão ou não permitir deixar para trás os dramas do último ano?
Os grandes acontecimentos deste século foram a pandemia de covid-19 e a vacina de covid-19. A vacina é completamente essencial no controlo da pandemia. Algumas pandemias desapareceram, no passado, quase por milagre. Esta, até pelas variantes que tem gerado, tem uma capacidade de multiplicação que faz que as vacinas sejam decisivas. Com metade da população vacinada poderemos deixar o conceito de pandemia para ficarmos com uma epidemia ou surtos sazonais.

Mas continuaremos a ter de conviver com a covid?
Acredito que sim. O nosso hospital manterá pelo menos uma unidade para covid, porque achamos que vão continuar a aparecer casos e ainda há alguma incerteza quanto às novas variantes também. A qualquer momento podem aparecer doentes.

Os grandes acontecimentos deste século foram a pandemia de covid-19 e a vacina de covid-19. A vacina é completamente essencial no controlo da pandemia.

Como está a vacinação dos profissionais de saúde no hospital? Já mostra efeitos?
Dos 4800 profissionais que temos, 3600 já foram vacinados. Só não vacinámos os que não lidam diretamente com os doentes. E dos profissionais com as duas doses de vacina já tomadas ninguém adoeceu. Mas também estamos numa fase em que a pandemia está a diminuir. Não podemos dizer que é por uma razão ou pela outra. Provavelmente é pelas duas situações. Neste momento só temos quatro trabalhadores com covid, nenhum deles estava vacinado. Chegámos a ter cem ao mesmo tempo.

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