Educação. O ano zero da recuperação de aprendizagens

Este seria o primeiro ano dos dois traçados pelo governo para recuperar aprendizagens no âmbito do Plano Escola + 21-23. Mas os diversos agentes educativos consideram que essa viagem ainda mal começou. Porque, apesar não haver confinamentos, o ano letivo que agora termina fica marcado pelo pára-arranca dos isolamentos profiláticos, que impediram o normal funcionamento das escolas.

Pais, professores e alunos são unânimes: este não foi o primeiro ano para recuperar aprendizagens, quando muito foi o ano zero. Não houve confinamentos, mas o vaivém constante de isolamentos impediu a normalidade. Filinto Lima, da Associação dos Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), diz que é hora de o ministério parar para refletir sobre o Plano de Recuperação, que, pelo menos no primeiro semestre deste ano letivo, não existiu.

O presidente da ANDAEP considera que este foi um ano muito mais exigente do que era suposto à partida, contra todas as expectativas. "Foi um ano letivo dos mais sui generis que eu conheço, porque, apesar de não sermos obrigados a recolher como aconteceu nos dois anos anteriores, tivemos pelo menos um primeiro semestre, até inícios de fevereiro, onde observámos um vaivém constante de alunos, professores e funcionários, que iam para casa e depois regressavam, o que perturbou o normal funcionamento", afirma ao DN.

Já Mariana Carvalho, que acaba de ser eleita presidente da direção da CONFAP (Confederação Nacional das Associações de Pais), considera que este ano letivo não se desviou muito do que eram as expectativas dos pais. "Apesar de não haver encerramento das escolas, houve muitos relatos de professores, alunos e assistentes operacionais em isolamento profilático. E em muitos casos foram repetidos os isolamentos. Não nos podemos esquecer de que, até ao início do ano civil, também as famílias estavam obrigadas a fazê-lo. E em muitos desses casos não havia aulas síncronas", recorda, o que impelia os alunos para ficarem em autonomia em casa.

Mário Nogueira tem falado sobre este assunto várias vezes, em nome da Fenprof. O responsável da Federação Nacional dos Professores considera que o facto de não terem existido confinamentos não retirou qualquer carga atípica ao ano letivo que agora terminou. "O primeiro período foi aquele em que tivemos permanentemente turmas inteiras a ficar em casa, depois iam uns e regressavam outros. Mas mesmo depois da alteração das regras por parte da DGS, em que só ficavam em casa os que estavam infetados (regras que ainda vigoram), as aulas decorreram quase sempre com alunos em casa."

Por isso, na hora de fazer um balanço deste ano que agora termina, Mário Nogueira não tem dúvidas: "Se se esperava que este fosse o primeiro ano letivo de normalidade, no qual já se ia ter o primeiro de dois anos para a recuperação das aprendizagens perdidas na pandemia e no confinamento, isso não aconteceu."

Já tiveram vários nomes ao longo dos tempos. Atualmente chamam-se auxiliares de educação e fazem parte do quadro de "pessoal não-docente". O presidente do STAE (Sindicato dos Técnicos Superiores, Assistentes e Auxiliares de Educação da Zona Centro), João Ramalho, afirma ao DN que este foi um ano letivo "complicado". "Porque os alunos por vezes são complicados e os pais por vezes ainda são mais. Porque encaram o papel do não-docente como o funcionário que faz a limpeza", lamenta.

Do lado dos alunos, este foi "o primeiro ano completo desde 2020", e por isso considerado "o primeiro sem ser atípico", diz ao DN Tomás Casquilha, ainda presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Eng.º Acácio Calazans Duarte, na Marinha Grande, que acabou de completar o 12.º ano de escolaridade. "Foi um ano que correu muito bem. Mesmo quando nos sentíamos um pouco desmotivados ou em baixo, tínhamos sempre o suporte da nossa escola. Acho que, no geral, fomos um bom suporte uns dos outros enquanto comunidade", sublinha o estudante de Línguas e Humanidades, que agora decide entre Direito e Ciência política.

Recuperar aprendizagens? Muito pouco

Quando se fala em recuperar aprendizagens, Filinto Lima é taxativo: "O Ministério da Educação deve refletir neste momento. Porque estamos no meio da aplicação do Plano da Recuperação das Aprendizagens (que é de dois anos) e pelo menos no primeiro semestre as escolas não tiveram grandes hipóteses de recuperar aprendizagens. O trabalho foi dificultado em termos da recuperação das aprendizagens motivado por esse vaivém constante, pela quantidade de pessoas a quem foi diagnosticada covid", afirma ao DN, lembrando que estamos exatamente "a meio do campeonato". "É nesta altura que devemos refletir." O representante dos diretores considera que é preciso tomar uma decisão importante: "Talvez tenhamos que estender mais no tempo o Plano de Recuperação."

Também Mariana Carvalho, da CONFAP, considera que é difícil aferir essa recuperação. "Certamente existiu alguma recuperação, mas as famílias ainda não têm essa perceção. Por outro lado, ainda não temos conhecimento dos resultados dos estudos que foram feitos. Vamos continuar a estar atentos, para que os resultados desses estudos e também das provas de aferição e dos exames que ainda se estão a realizar nos digam um pouco mais da realidade, para que se consiga melhorar o Plano."

Já para a Fenprof, o que esteve em causa neste ano letivo, por parte dos professores, foi "não deixar que a situação se agravasse. E isso penso que conseguiram, com êxito", considera Mário Nogueira. "Mas se queremos ter dois anos de recuperação de aprendizagens perdidas, este não foi certamente o primeiro dos dois. Quanto muito, é um ano zero. Podemos não ter perdido mais, mas também não recuperámos. E foi um ano muito exigente para os professores, sem dúvida nenhuma."

Tomás Casquilha alinha na mesma ideia: "Houve um grande esforço para se conseguir isso. Mas julgo que foi um esforço coletivo, por parte dos professores mas também da nossa parte, pelo menos na nossa escola senti isso."

Organizações em dificuldades

"A gestão da covid foi, sem dúvida, a maior dificuldade por nós sentida. Nós, a partir de certa altura, não fomos líderes ou gestores de escolas, mas gestores da covid", afirma Filinto Lima, embora lidar com algumas "sensibilidades exacerbadas" também se tenha revelado um desafio constante. "No fundo, acho que fomos sobretudo gestores de emoções. Apesar de tudo, penso que os professores e as escolas públicas portuguesas merecem nota máxima e passaram com distinção neste exame deste ano, um dos mais exigentes da minha vida enquanto professor", conclui.

No caso da CONFAP, as dificuldades sentidas aumentaram com a pandemia, e ao longo deste ano letivo ainda não se esbateram. "A participação de pais, neste momento, é voluntária e muito volátil, porque há sempre muitos pais a chegar e a sair, e já é uma dificuldade que nós vamos sentindo ao longo dos anos. Mas desde a pandemia houve um acentuar do afastamento dos pais relativamente à escola", sublinha Mariana Carvalho, lembrando que "as próprias associações de pais também acabaram por se afastar um pouco". A confederação tentou minimizar o impacto do distanciamento como pôde, através das plataformas digitais. "Entretanto já retomámos alguma coisa em modo presencial. Por exemplo, a nossa assembleia-geral já foi assim." Foi lá, de resto, em final de maio, que acabou por ser eleita presidente, sucedendo a Jorge Ascenso.

A Fenprof continua a apontar a falta de professores como a maior dificuldade, acentuada neste ano letivo. "O governo nada fez para resolver esse problema, que já vinha de trás e por isso isto tende a agravar-se." Além disso, refere ainda o envelhecimento do corpo docente: são cada vez mais os professores com 60 ou mais anos nas escolas do país. " E depois é o esforço que hoje se pede aos professores para fazerem muito para lá não só das suas horas de trabalho, mas até da sua capacidade de resposta", conclui Mário Nogueira.

Tomás Casquilha esteve envolvido na Associação de Estudantes ao longo de todo o ensino secundário, o que quer dizer durante toda a pandemia. "A maior dificuldade que sentimos foi a falta de contacto. Por isso este ano letivo foi tão importante, para que o órgão voltasse a estar ativo a 100%. Acho que foi por isso que correu tão bem."

Auxiliares sem formação

O presidente do STAE lembra que "há 15 anos que não há aumentos salariais para esta classe, sendo que as carreiras intermédias e os assistentes técnicos administrativos estão a 40 euros do salário mínimo". Mas recorda que os problemas aqui são muito mais profundos: "Um funcionário que entrou hoje vai ganhar tanto como um que está há 30 anos na estrutura. E isso é uma desmotivação enorme. Depois é o nível etário, que está também avançado, como o dos professores. Mas há uma questão muito mais preocupante: um funcionário numa escola tem que saber lidar com os alunos. Ora, lidar com um aluno hoje não é o mesmo que há 10 ou 15 anos. E há 20 anos que o Estado Português não dá formação a estas pessoas, que é tão importante. Antes ainda existia o programa PRODEP, e ensinava ao nível das relações interpessoais, resolução de conflitos e isso tudo. Agora não há. E nunca como hoje foi tão precisa a formação. Porque os alunos de antes eram os que jogavam à bola e à macaca. E hoje são os do telemóvel. É preciso saber falar com esses miúdos. Era necessário formação contínua, que deixou de haver há largos anos", aponta.

dnot@dn.pt

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