É doente crónico? E se os medicamentos lhe fossem entregues em casa?

O projeto estava delineado há tempos, mas a pandemia veio acelerar a sua aplicação. O objetivo era reduzir as idas de doentes ao hospital só para levantar medicação de continuidade. Em poucos dias, uma equipa do serviço de farmácia organizou tudo e as entregas começaram logo em março de 2020. O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes, o que equivale a muitos milhares de medicamentos. "É o futuro", diz o diretor do serviço.

Depois da consulta com o pai no Hospital de Santa Maria, Manuel Carlos aproveita para ir à farmácia da unidade e ver se é possível levantar a medicação de continuidade para, pelo menos, três meses. O pai sofre de uma doença de sangue e é acompanhado na consulta de hematologia. Há muito que a sua rotina é a mesma de 50 em 50 dias. Sair do distrito de Setúbal, onde vive com o pai, para vir a Lisboa buscar uma caixa de 50 comprimidos. "Ele tem de tomar um comprimido diário, mas só podemos levantar uma caixa de mês e meio em mês e meio. Muitas vezes não tem consulta e tenho de vir sozinho a Lisboa só para isso. Hoje queria ver se consigo levar duas caixas. Começa a ser muito complicado no trabalho", conta ao DN.

Manuel Carlos teve de mudar o turno no trabalho para conseguir acompanhar o pai naquela manhã de terça-feira às análises, depois à consulta e por fim à farmácia hospitalar. É quase hora de almoço e ainda aguarda a sua vez para ser atendido. Pelo meio, conta até dez para acalmar o stress, o mesmo de sempre, ri-se, que surge quando pensa nas voltas que ainda tem de dar até chegar ao trabalho sem prejudicar o turno. Mas tudo é melhor do que ter de voltar daí a dias para passar pelo mesmo. Mas quando chega ao guichet é surpreendido e solta um grande: "Uau, a sério? Isso é possível? E basta pedir os medicamentos só três a quatro dias antes?"

Manuel Carlos não queria acreditar no que a funcionária lhe dizia. "Sabe que há um programa de entrega de medicamentos em proximidade? O seu pai reúne os requisitos e pode passar a receber a medicação em casa ou na farmácia mais próxima. Vai à internet, entra na nossa plataforma e antes de acabar a medicação preenche o formulário com os dados dele. Depois será contactado por um administrativo do hospital para marcar o dia e a hora da entrega e ainda vai receber o telefonema de um farmacêutico que vai avaliar a condição do seu pai para ver se há necessidade de ajustes à medicação ou até de falar com o médico dele."

Mais uma vez, Manuel Carlos não queria acreditar que tal fosse possível. Aceitou de imediato, pelo pai e por ele. O "uau" que lhe saiu não o foi único que os profissionais do serviço de farmácia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que inclui o Hospital de Santa Maria, registaram durante este ano, de cada vez que falaram do programa a um doente, a familiares ou até a médicos, sobretudo àqueles que estão mais envolvidos com o tipo de doentes a que o programa se destina, doentes hematológicos, de reumatologia, nefrologia, neurologia, infecciologia, etc.

Aliás, têm sido muitos os "uaus" ouvidos. Talvez por isto mesmo, e ao fim de um ano, o Programa de Acesso ao Medicamento em Proximidade tenha recebido nota dez dos utentes no inquérito de satisfação realizado pelo serviço de farmácia. "O hospital tem cerca de 17 mil doentes que necessitam de dispensa de medicação. Todos estes doentes tinham de vir várias vezes à unidade só para levantar a medicação. Com este programa não precisam de o fazer", explica o diretor do serviço de farmácia, João Paulo Cruz.

Milhares de medicamentos entregues em casa

O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes em todo o país, incluindo Madeira e Açores. A grande maioria das entregas foi ao domicílio, uma pequena percentagem em farmácias comunitárias e em instituições, como lares. No caso das ilhas, as entregas foram feitas em farmácias hospitalares. "Isto significa que foram entregues muitos milhares de medicamentos, tendo em conta que cada entrega a um doente envolve um, dois, três ou mais medicamentos", acrescenta o médico, aproveitando para reforçar os resultados obtidos no inquérito de satisfação. "Tivemos quase todas as questões com a nota máxima, desde a qualidade do serviço à segurança e ao tempo de espera."

João Paulo Cruz sorri, satisfeito, quando o afirma. Tem os resultados do inquérito impressos em papel em cima da sua secretária, não os deixou apenas informatizados, e mostra-os com o orgulho, porque, no fundo, é o resultado do trabalho de toda uma equipa, de um serviço e de todo o hospital. "Têm sido muitos os profissionais que se têm empenhado neste projeto, começando logo pela nossa equipa, do conselho de administração até ao motorista que entrega o medicamento em casa ao doente. E a recompensa é esta: a satisfação dos doente." É mais do que isso, como diz, afinal, a recompensa pode mesmo ser "o futuro".

O projeto estava delineado há um tempo por ser o desejo de alguns doentes e da equipa do serviço de farmácia, mas sem data marcada para avançar, embora conjugasse à partida vários objetivos: facilitar a vida aos doentes e aos médicos, agilizar os serviços, aumentando a sua eficácia, evitar o desperdício de medicamentos e "tentar acabar com uma certa dependência do hospital, que deve ser um centro só para cuidados diferenciados" , defende João Paulo Cruz.

Tudo objetivos que enquanto o programa não foi aplicado se mantiveram na gaveta. Mas nem tudo o que a pandemia trouxe atrás foi mau, este programa de proximidade é exemplo disso, porque teve de avançar forçosamente para dar resposta aos doentes, evitando ao máximo as idas ao hospital. "No primeiro confinamento, chegámos a ter num só dia mais de 600 doentes na farmácia a querer levantar medicamentos, com o receio de poderem ficar com medicação em falta e isto não podia continuar", explica o diretor de serviço.

A proposta desenhada foi levada ao conselho de administração, que deu luz verde, e em poucos dias o programa estava a funcionar com eficácia e segurança. "É preciso não esquecer que é um programa de cedência de medicamentos que envolve muito dinheiro, são medicamentos muito caros, e o programa tinha de assegurar a sua rastreabilidade, desde que sai embalado da farmácia do hospital até à entrega ao doente. E isso é feito."

A par, e como forma de reforçar o acompanhamento ao doente, foi criada uma consulta farmacêutica, agora feita ou presencialmente ou por telefone, mas que esperam poder vir a ser por Zoom. Esta é feita por um farmacêutico que tem como objetivo aferir os efeitos da medicação, para saber se esta deve ser ou não ajustada ou até se há alguma sintomatologia que deva ser referida ao médico assistente.

"O que estamos a fazer agora é muito importante, permite controlar o que é prescrito ao doente e se esta prescrição é a adequada à sua condição, porque estamos a falar de doentes com VIH/sida, artrite reumatoide, psoríase, espondilite anquilosante, fibrose quística, hepatites, esclerose múltipla, doentes hematológicos e oncológicos, com hipertensão pulmonar e até de alguns doentes pediátricos." Um controlo que faz parte da prática de um farmacêutico hospitalar, já que toda a medicação prescrita e a sua posologia tem de ser validada por estes profissionais. Como diz João Paulo Cruz, "é um serviço de retaguarda fundamental".

Um desejo dos doentes e dos profissionais

A coordenadora do programa, Marisa Rodrigues, uma jovem farmacêutica, como a maior parte dos colegas que integram o serviço, confirma ao DN que a ideia de o criar e de o levar para a frente surgiu muito por influência dos doentes, embora "só tenha surgido agora em contexto de pandemia, mas era um desejo de muitos doentes, sobretudo dos que têm maior vulnerabilidade e dificuldade em se deslocarem de forma regular ou para os que geograficamente estão mais distantes e têm incapacidade económica. Muitos, cada vez que aqui vinham para levantar a sua terapêutica, acabavam por nos pedir algo que os aliviasse. E ao longo do tempo fomos delineando este projeto, que acabou por se catapultar há um ano", explica.

Hoje, a sua satisfação também é grande, e manifesta-a na visita que fazemos à farmácia hospitalar, onde em seis postigos, rigorosamente divididos, com funcionários de máscara e de luvas, se dirigem, um a um, doentes que têm de levantar a sua medicação presencialmente. Na sala de espera, aguardam cinco pessoas, o máximo que é permitido em tempo de pandemia, os restantes no espaço exterior, mesmo assim, diariamente, ainda há dias com 200 ou mais doentes.

"O programa de proximidade também abrange o funcionamento deste serviço, porque quanto menos pessoas vierem buscar a medicação presencialmente, mais será possível melhorar o atendimento", argumenta. Marisa Rodrigues explica que o programa começou com uma dimensão pequena de doentes, mas, agora, já vai em seis mil e, em breve, espera que sejam muitos mais. "Acreditamos que o programa vai continuar. Aliás, quando o lançámos foi logo com essa lógica e perspetiva e, ao longo deste ano, temos vindo a ajustar e a melhorar algumas situações, quer a nível de condições quer de acompanhamento do doente", reforça, exemplificando: "A consulta de seguimento farmacêutico que fazemos em simultâneo com a entrega da medicação, quer seja presencial quer seja por telefone, dá-nos maior proximidade ao doente e uma informação muito mais robusta sobre o seu estado e sobre a medicação que lhe é mais adequada. Uma das grandes mais-valias deste programa, que conjuga a entrega em proximidade e a presencial, também é esta."

Uma consulta que, em termos de informática, "já está interligada com o sistema de consultas médicas para que o colega possa ir acompanhando o efeito da medicação e o estado do doente. No limite, tanto nós como o médico assistente ficamos com informação just in time sobre o doente em alguns aspetos que podem ser muito importantes", pormenoriza João Paulo Cruz.

"O programa não veio só aliviar os doentes. Veio também agilizar a prática clínica e o funcionamento dos serviços hospitalares, nomeadamente no que toca a consultas que tinham de ser agendadas só para pedir medicação".

No início, "ainda houve doentes que resistiram à mudança, sobretudo doentes com VIH/sida, pensamos que talvez pela estigmatização que a doença ainda tem. Não queriam aceder ao programa por receio de os medicamentos lhes chegarem ao domicílio ou à farmácia comunitária, alguém que não eles poder ver o que era e ficarem a saber sobre a sua doença", justifica o médico. Agora, já não é assim, "os doentes com VIH estão em quarto lugar na adesão ao programa". Mas muitos aderiram de imediato e outros foram eles próprios a pedir para o integrarem e temos cada vez mais médicos a aconselharem os seus doentes para o fazerem. É que "o programa não veio só aliviar os doentes. Veio também agilizar a prática clínica e o funcionamento dos serviços hospitalares, nomeadamente no que toca a consultas que tinham de ser agendadas só para pedir medicação", argumenta ainda. Por isso, repete, "isto é o futuro".

As deslocações contínuas foram substituídas. Primeiro, bastava um e-mail, agora por um pedido na plataforma do hospital destinada à cedência de medicação, onde o doente apenas tem de preencher o formulário com os seus dados para a equipa de farmacêuticos a trabalhar no projeto ter acesso à medicação que está a tomar - e basta fazer isto três a quatro dias antes de a medicação acabar. O farmacêutico valida a medicação e faz seguir o processo para que o doente a receba onde pretende. "Quando se trata de um doente que não se entende com a internet, funciona-se com o sistema clássico, o pedido é feito via telefone à nossa equipa." Até agora, as entregas têm sido para períodos controlados, "para dois a três meses ou, se possível, entre consultas, para quatro a cinco meses, mas o objetivo é alargar esta cedência e obter um impacto mais significativo".

Do ponto de vista de logística e para satisfazer as necessidades dos doentes, "o programa foi pensado para fazer a cedência de um medicamento a temperatura ambiente e a temperatura refrigerada, incluindo medicamentos biológicos que são muito sensíveis, o que só é possível porque temos um circuito de avaliação de qualidade montado e nunca houve problemas. Os medicamentos têm chegado sempre em condições ao doente". Mais do que isso, têm chegado. Esta é a garantia para fechar cada pedido. "O processo só fica concluído quando o doente, a farmácia comunitária ou a instituição onde o doente está confirmam terem recebido a entrega. Foi por isso que tivemos de integrar um processo de rastreabilidade muito grande para garantir a segurança do processo. Em caso de extravio o impacto económico seria um peso muito grande para o hospital", justifica João Paulo Cruz.

Dez profissionais para colocar tudo a mexer

Para avançar com o programa foi necessário contratar mais profissionais. A logística pode ser simples para o utente, mas para os serviços acaba por ser mais complexa do que a cedência presencial. "Pudemos contratar alguns farmacêuticos no âmbito da pandemia e esperamos que estes possam continuar connosco", comenta João Paulo Cruz, desabafando: "Se não continuarem será muito difícil manter o que temos, esta é a nossa grande dúvida neste momento."

Ao todo, entraram mais cinco farmacêuticos, quatro ficaram no projeto e um teve de ir para a área de produção, onde precisávamos muito de pessoas. Há um que já teve o seu contrato revalidado, faltam os outros que estão a terminar." João Paulo Cruz manifesta-se: "Nem me diga nada. Já tivemos duas colegas que com o receio de os contratos não serem revalidados foram para outros hospitais e eles são precisos aqui." No global, explica, "estão neste projeto seis farmacêuticos, dois administrativos, um técnico e a coordenadora do projeto", confirma.

Quando batem à porta e é o motorista dos medicamentos

Mas a verdade é que o projeto envolve muitos outros profissionais. Uns foram alocados através da reorganização do hospital perante a pandemia e o confinamento, outros voluntariaram-se. "Um dos primeiros a dar o exemplo foi o presidente do conselho de administração, que disponibilizou o seu motorista para este projeto, que depois se empenhou e se voluntariou para o continuar a integrar", mas o mesmo aconteceu com outros profissionais.

"As pessoas empenharam-se todas muito no projeto. Acabaram por nos dizer que a gratidão que os doentes mostram quando eles chegam a suas casas com os medicamentos é uma grande recompensa", conta ao DN. Mas a entrega também está cargo de uma empresa de distribuição de medicamentos certificada pelo Infarmed. "Era uma das condições das farmácias comunitárias para integrarem o projeto e tivemos de contratar uma empresa para o efeito, que continua."

A pandemia surgiu. Foi um obstáculo ao serviço que prestavam, uma dificuldade maior para os utentes, mas a farmácia do Hospital de Santa Maria olhou para tudo como uma oportunidade. "Aproveitámos", confessam os médicos. "Tivemos de nos reorganizar e fazer que a tecnologia fosse posta ao dispor do hospital e dos doentes, o que nem sempre é fácil, mas acho que conseguimos", diz João Paulo Cruz.

Do lado dos doentes, não têm dúvidas de que este procedimento os tornou mais próximos e lhes trouxe mais questões e mais dúvidas por parte destes a que têm de responder. "Não sabemos se é por causa das vacinas, mas o que os doentes mais querem saber agora são os efeitos adversos que os medicamentos que estão a tomar podem gerar." Ou seja, mais um ganho: mais literacia em saúde através da ambulatorização dos cuidados

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