E depois da máscara, o que se segue? Mais infeções respiratórias e alergias

A máscara foi uma arma protetora durante a pandemia, mas o que se segue "é o que era normal". Vamos ter mais infeções e mais alergias. Só é preciso que a população tome cuidados.

A pandemia da covid-19 trouxe a Portugal o uso obrigatório de máscara como forma de proteção contra o SARS CoV-2, quer se estivesse no espaço exterior ou interior, no trabalho, nas escolas, em áreas comerciais ou em instituições pública. A medida foi mesmo imposta pelo Decreto-lei n.º 10-A/2020, de 13 de março. Um ano e sete meses depois, mais precisamente desde o dia 1 de outubro, em Portugal, o uso de máscara deixou de ser obrigatório ao ar livre, e sempre que seja possível manter a distância, mas ainda se mantém em espaço fechados e com áreas superior a 400 metros quadrados, nas escolas, salas de espetáculos, cinemas, recintos de eventos, transportes, estabelecimentos e serviços de saúde.

Ao longo da pandemia, a máscara revelou ser uma das medidas mais protetoras contra o novo coronavírus, mas à medida que a vacinação avança, e Portugal atingiu este fim de semana 85% de população vacinada, o primeiro país do mundo a fazê-lo, é normal que a população, aos poucos, comece a retirá-la. E a partir daqui o que pode acontecer? A médica Elisa Pedro, presidente cessante da Sociedade Portuguesa de Imunoalergologia, diz que é muito simples: "Vamos voltar ao normal, com mais infeções respiratórias para a população em população em geral e mais sintomatologia para os doentes alérgicos".

Este era o quadro que existia antes da pandemia e é o que virá a seguir. Antes já se estimava que um terço da população sofria de doenças alérgicas e este número também não vai mudar. O que se verificou é que "a máscara funcionou como uma barreira protetora em relação ao vírus pandémico, mas também em relação à transmissão de infeções respiratórias, como a gripe e outras, para a população em geral. No inverno passado, tivemos muito menos gripe. Na primavera, os próprios doentes alérgicos tiveram menos sintomatologia do que costumavam ter habitualmente. Tivemos muito menos queixas de rinite, por exemplo",argumenta a médica e diretora do Serviço de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte. Embora, sublinha, "tenham mantido as queixas de conjuntivite, uma forma de alergia, e porque a máscara não lhes protegia os olhos, o que foi uma constatação interessante".

A máscara protegeu os portugueses em relação aos vírus e aos agentes alergénios. Agora, com a retirada da máscara, é normal que estas situações voltem a reaparecer. Vai ser normal que as pessoas desenvolvam situações de infeções respiratórias em que os sintomas sejam de comichão na garganta, tosse, congestionamento das vias superiores, etc.

No entanto, "o retirar-se a máscara não significa que vamos ter mais doentes alérgicos. Não é assim, porque a doença alérgica tem uma componente genética. O que vai acontecer é que a população em geral possa desenvolver mais situações de infeção respiratória, do que se tivesse a usar a máscara, e que os doentes alérgicos podem vir a registar mais sintomatologia em relação às suas alergias".

O único conselho é que voltem a ter mais cuidados com a exposição a certos ambientes, como às diferenças de temperatura, quente e frio, à poluição, aos ácaros, etc. "Se for num transporte público e alguém com uma infeção respiratória, gripe, laringite ou faringite, por exemplo, começar a espirrar é normal, se não estiver a usar máscara, que a transmissão aconteça", explica: "Por isso, é que a Direção-Geral da Saúde tem insistido tanto na vacinação contra a gripe", sublinha a médica.

Mas não só. "É importante que as pessoas percebam que têm de ter, sobretudo nesta época, mais cuidado com a exposição às situações de quente e frio, a situações de ácaros, poluição, etc. Há também, mas isso só é possível por indicação médica, a vacinação contra bactérias, que também reforçam o sistema imunitário. É uma vacina que os nossos doentes asmáticos fazem muito nesta altura. Depois, é ter hábitos de alimentação saudáveis, fazer um reforço de vitamina C, comer vegetais e fruta, evitar situações de resfriados, mudança de temperatura, molhas, manter cuidados de proteção individuais".

De uma forma ou de outra, o voltar ao normal passará pela retirada do uso de máscara como forma de nos proteger contra o SARS COV-2, mas não quer dizer que esta deixe deva ser posta de lado totalmente, porque em muitas situações, e sobretudo para quem já tem um sistema imunitário vulnerável, esta continua a ser uma barreira de proteção. Basta olhar para muitos países da Ásia em que a máscara faz parte dos hábitos diários como forma de proteção em relação a doenças e a ambientes poluidores.

Retrato das alergias em Portugal

Um terço da população portuguesa sofre de alergias, mas muitos destes ainda não têm diagnóstico médico e outros não são tratados adequadamente. A alergia é uma doença que tem uma componente genética e as doenças mais frequentes são a rinite e a asma.

Rinite Alérgica

Corresponde a uma inflamação crónica da mucosa nasal desencadeada pelo contacto com poeiras comuns no meio ambiente (aeroalergénios - ácaros do pó, pólenes, fungos, faneras de animais), em indivíduos a elas sensibilizados. Os sintomas mais característicos são a obstrução nasal, o "pingo", os espirros e a "comichão" no nariz. A Rinite Alérgica pode associar-se a várias outras doenças (comorbilidades) existindo, por exemplo, uma forte associação com a asma (dada a via aérea única) em todas as idades. Entre 10 a 40% dos doentes com rinite sofrem também de asma e mais de 80% dos asmáticos têm rinite. Estudos epidemiológicos sobre a doença alérgica em Portugal, dinamizados pela Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, revelaram uma prevalência estimada de rinite em indivíduos acima dos 16 anos de idade de 26.1%.

Asma

A asma afeta cerca de 700 mil portugueses (6,8% da população) - (300 milhões em todo o mundo), dos quais cerca de 175 mil crianças e adolescentes (8,4% das crianças). Cerca de metade dos doentes asmáticos portugueses não têm a sua asma controlada (51% crianças e 43% população geral). Isto deve-se à fraca adesão ao tratamento preventivo, regular e contínuo e à incorreta utilização dos dispositivos inalatórios. Contudo 9 em cada 10 doentes com asma não controlada, tem uma perceção errada do estado de controlo da sua doença, o que dificulta a procura de melhor tratamento. Isto deve-se ao facto de os doentes se habituarem a viver com as suas limitações, e isto não deve acontecer. Os doentes asmáticos podem ter uma vida normal como qualquer outra pessoa. A asma não deve limitar a sua qualidade de vida. As consequências do mau controlo da asma são as agudizações da asma, com necessidade de internamento, consultas de urgência e absentismo escolar e laboral. (1/3 das crianças asmáticas portuguesas é internada por asma pelo menos uma vez na vida - em média cada criança com asma vai 1 a 2 vezes ao ano aos serviços de urgência e falta 6 dias ao ano à escola).

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