Dos livros ao spa. É possível melhorar o sono dos bebés

Psicóloga clínica fundou as primeiras "termas" para bebés no país e escreveu um livro que ajuda a adormecer os mais pequenos

Com apenas 1 mês, Francisco já ia ao spa, não um spa qualquer, mas um espaço desenhado só para bebés, no Porto, onde se fazem sessões de hidroterapia e massagens, "com benefícios como o alívio das cólicas e a melhoria da qualidade do sono". Agora com 8 meses, Francisco reage com tranquilidade quando a psicóloga Mariana Martins lhe coloca uma boia no pescoço e o faz entrar dentro de uma espécie de minijacuzzi. A tia Amélia e o padrinho, Pedro, assistem, pela primeira vez, à sessão: "Isto é espetacular. É uma experiência muito boa."

Francisco começa por receber o estímulo das cores e depois dos jatos que fazem a água borbulhar. A intensidade vai aumentando, ao mesmo tempo que lhe são mostrados diferentes brinquedos. Desloca-se para aos objetos. "Ainda não anda, mas na água tem maior liberdade de movimentos", explica Mariana. Segue-se uma massagem sensorial. Ao contrário da grande maioria dos bebés que visita o spa, e que adormecem ainda antes de sair, Francisco sai acordado da sessão. "Nota-se uma diferença no humor. Vai mais bem-disposto", assegura o padrinho.

"Noventa por cento dos bebés que vêm cá relatam melhorias no sono, na alimentação e no desenvolvimento em geral", diz ao DN Clementina Almeida, psicóloga clínica que abriu o espaço no final de 2015 e que mais recentemente lançou o livro Olívia, a Ovelha Que não Queria Dormir. A sessão de hidroterapia tem benefícios em "termos neuromusculares, de relaxamento, respiração". Tal como a massagem sensorial que, segundo a especialista em bebés, alivia as dores - cólicas e de crescimento - ajuda a estabilizar os padrões de sono e a capacidade de autorregulação.

A mãe do Francisco, Rita Poças, 38 anos, confirma: "Passa noites maravilhosas a seguir ao spa. Nota-se que vem relaxado." E o ambiente tranquilo e a música relaxante não ajudam só os miúdos: "É um spa também para nós." Além disso, o bebé passou a interagir de outra forma com a água. "Reage muito melhor e mexe-se mais. E fica a respirar muito melhor quando vem."

Um livro que induz o sono

O irmão Duarte tem 3 anos e já deixou de frequentar o ForBabies - é só para bebés até aos 36 meses. Para acalmar o filho mais velho - uma criança com "muita energia" - Rita recorre agora a Olívia, a Ovelha Que não Queria Dormir, um livro para os pais lerem às crianças, repleto de dicas que ajudam os mais pequenos a adormecer. "E funciona com adultos também", assegura a autora. No final, Clementina Almeida dá aos pais uma série de dicas para melhorar o sono dos mais novos, como ter rotinas consistentes, arranjar um objeto de segurança ou tirar do quarto os dispositivos eletrónicos.

A investigadora na área do de-senvolvimento cerebral conta que o livro foi "construído ao contrário". Ou seja, primeiro definiu "através de que tipo de estimulação sensorial poderíamos atingir um estado de organização, de relaxamento, de sonolência", e a partir dessas indicações construiu uma história.

Não é por acaso que a personagem principal é a Olívia. "É porque contamos carneirinhos para adormecer." Esta tem "amiguinhos" que, ao longo da história, "vão fazendo tudo o que é suposto em termos de protocolo acontecer para que organismo se acalme e adormeça no final." É um livro "recheado de indutores de sono". No que diz respeito às cores das páginas, é usado o laranja, "que induz a produção de melatonina e não de cortisol, que é o que nos ativa". Para induzir a sonolência, as páginas vão escurecendo à medida que se aproxima do final.

Ao longo da história, há momentos em que os pais têm de bocejar, pegar na criança ao colo, balançá--la, voltar a deitá-la. "Tem passagens em que se usam técnicas de relaxamento, outras em que usamos a pressão em termos de tato para organizar o sistema nervoso." Até cheira a alfazema, um "indutor muito natural de sonolência". Muitos bebés não passam da terceira página.

Sono preocupa pais

Fundadora e investigadora do BabyLab, na Universidade de Coimbra, Clementina Almeida diz que o sono "é uma das grandes preocupações dos pais". "Se calhar não porque acontece algo de anormal, mas porque as nossas expectativas enquanto sociedade moderna não são muito compatíveis com o desenvolvimento emocional e do sono dos bebés." Há situações, diz, como os bebés acordarem de hora a hora ou despertarem a meio da noite, que "são explicáveis pelo desenvolvimento natural do cérebro".

As fases e a estrutura do sono das crianças são diferentes das dos adultos. "E muitas vezes o desconhecimento dos pais acerca disso faz que não se adequem as condições externas para que sono seja mais repousante." Segundo a psicóloga, "os ciclos são muito curtos, têm períodos de sono REN muito mais vezes do que temos em adulto e, por isso, são mais vulneráveis a despertar". Muito do trabalho que faz é com os pais "para perceber o que é que têm de alterar nas rotinas para terem melhores noites". Em muitas situações, refere, "as primeiras horas do sono do bebé em início de noite são aquelas em que ele desperta menos" e são também aquelas em que os pais aproveitam para fazer outras coisas. "Quando se vão deitar, o bebé está quase a entrar numa segunda fase da sua noite em que vai despertar mais vezes." Por isso, é "importante perceber cada bebé para conseguir adaptar o que é razoável para a família".

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