Discotecas e pandemia. Mais de um ano de dança proibida. Algum dia voltará a noite?

Os templos da noite estão fechados há mais de um ano e até agora nada lhes dá esperança no discurso do governo e dos especialistas - enquanto no Reino Unido vão reabrir, aparentemente sem restrições, a 21 de junho. Que será deste setor quando - e se - a pandemia passar? E de quem precisa dele para ser feliz?

"It's the end of the world as we know it (And I feel fine)/ É o fim do mundo como o conhecemos (e sinto-me bem)". Ninguém diria, mas a canção dos REM não foi feita a pensar na pandemia - tinha já 33 anos em março de 2020, quando pudemos "sair à noite" pela última vez e trauteá-la em coro, olhos fechados em euforia irresponsável.

No meu caso, foi numa festa de aniversário que me levou ao Incógnito, na Rua dos Poiais de São Bento. Logo o Incógnito, um dos bares/discos mais adorados mas também mais claustrofóbicos de Lisboa, onde a pista é uma espécie de poço para o qual se desce por uma escada estreita e no qual só se pode dançar corpo a corpo, bebidas a entornar em quem está ao lado - tormento ou delícia, conforme o gosto. Foi aí que em bando de irmãos, sem máscaras nem álcool gel (coisa que ninguém usava ainda) nos despedimos da noite tal como a conhecemos e amamos: tudo ao molho e fé em deus - intuindo que poderia ser ali, assim, o fim daquela forma específica de felicidade.

Poucos dias depois, todos os bares e discotecas em Portugal fecharam, para não mais abrirem como locais de dança: mais de 13 meses de vazio nas pistas, mais de 13 meses sem aquilo a que chamamos "a noite". E nada no horizonte deste início de desconfinamento, anunciado na quinta-feira 29 de abril, se prefigura como solução para o setor.

No Reino Unido, onde a noite emprega 1,3 milhões de pessoas (8% do total da população ativa) e vale cerca de 76 mil milhões de euros, tem uma associação nacional - a Night Time Industries Association, autora destas estimativas - e direito a uma espécie de comissão parlamentar específica, o All-Party Parliamentary Group For the Night-Time Economy, a abertura está marcada para 21 de junho. Para já, na sexta 30 e sábado 1 de maio decorreram em Liverpool eventos-teste com seis mil pessoas a dançarem ao estilo rave, sem máscaras nem distanciamento, exatamente como antes da pandemia - para isso, só tinham de testar negativo. "A ideia é mesmo as pessoas agirem como antes da Covid", anunciou o organizador, o DJ Yousef Zaher. Para o primeiro-ministro Boris Johnson, reabrir a indústria do entretenimento e a vida noturna num país no qual a imunização alcança já 51% da população (uma vacina) e 20% (vacina completa) é central no roteiro de reabertura da economia.

Por cá, apesar de se terem iniciado já eventos-experimentais com público, ao ar livre, com teste obrigatório, máscara e distanciamento, a 28 e 29 de abril, em Braga, sob a égide da APEFE (Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos) - como ensaio para aquilo que a APEFE espera poder ser o "salvar do Verão", ou seja, a hipótese de haver concertos com testagem obrigatória -, nunca se falou sequer de uma data para a reabertura dos bares e discotecas. Aliás, as tentativas do DN de pôr o governo a falar sobre o setor saíram goradas até à publicação deste texto.

"É aquela coisa que fica de lado e não se discute"

"Isso não tem sido sequer discutido nos encontros, quer nacionais quer internacionais. Naquelas conversas todas que há com a ministra da Saúde e a nível europeu nunca esteve na agenda", garante o epidemiologista Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto e do Conselho Nacional de Saúde. "É aquela coisa que fica de lado e não se discute. A noite é considerada a quintessência do lazer, um assunto menor. Há a ideia de que é pura diversão, que não faz falta, que as pessoas podem viver sem isso. Mas faz imensa falta, claro que faz."

Henrique Barros vê nessa perspetiva algo de "moralista". "Por exemplo a atividade do trabalho sexual também é ignorada, é como se não existisse. Nunca ouvi dizer "Façam-se testes aos trabalhadores sexuais."" E se é óbvio que o ambiente fechado e proximidade nas discotecas mais a atividade física e a desinibição alcoólica predispõem ao contágio - as autoridades de saúde em todo o mundo colocam bares e discotecas no topo da escala do perigo de infeção - frisa não haver praticamente estudos científicos sobre a infeção por Covid nesses locais. "Os internacionais que há não prestam e em Portugal nunca pudemos fazer porque fechou logo tudo".

O que há então são puras deduções, explica - como a que levou à interdição de venda de álcool nos supermercados a partir das 20 horas (entretanto alterada, a partir de 1 de maio, para as 21 horas): "É para impedir o botellón [o beber na rua em grupo], na mesma lógica de não autorizar que se vá assistir a jogos de futebol: é o controlo do prazer e da desbunda. Porque não há racionalidade nenhuma em não deixar entrar quatro ou cinco mil pessoas com distanciamento e máscaras num estádio que tem lotação para o triplo." Sorri: "Penso que é um bocado a ideia de que as pessoas perdem a cabeça à noite."

A noite como lugar de descontrolo, de perdição, de desconhecido - como nos mapas antigos em que a partir de uma certa linha se dizia "aqui há dragões"? Sim, "as velhas moralidades voltaram todas ao de cima", reitera Cristiana Vale Pires, investigadora "sobre sexo, noite e drogas" na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, que a 11 de outubro escreveu no Público um artigo de opinião sobre esta "visão da noite enquanto espaço privilegiado para o descontrolo, a desviância, a transgressão e a... infeção."

Isso surpreendeu-a, confessa. "Dá a impressão, no discurso político, de que o setor nem existe, de tal modo não é tema. Mas estes espaços são muito importantes na vida de muitas pessoas. Espaços de lazer e de ser que não existem noutros lados. E de cultura, também. E essas dimensões nunca são tidas em conta - aliás, a ideia de descontrolo não é necessariamente negativa."

Perder esses espaços, ou uma parte deles, é, crê, citando o artigo do Público, perder "uma área cultural, social e económica fundamental para a vitalidade, criatividade e inovação das cidades", "perder capital artístico, porque num cenário de desinvestimento generalizado muitos/as artistas se verão obrigados/as a atirar a sua arte à fogueira." E "espaços de socialização, recreação e hedonismo ímpares por nos permitirem desanuviar do peso da formalidade e responsabilidade da nossa vida quotidiana. Ficaremos mais pobres e por isso o tom é de urgência."

E adverte: "Só vamos ter dimensão dos impactos quando se abrir de novo. Acho que não vão reabrir todos."

"É o sítio onde sou mais feliz"

Se não há sequer uma estimativa de impacto económico do setor da noite em Portugal, ia haver sobre o impacto cultural, ou emocional?

Davide Vicente pode falar disso. "Estou um bocado perdido. Sempre fui muito mais noturno que diurno. Desde muito novo que a noite me fascinou: tem essa coisa de conseguires abstrair-te da tua vida. O que mais falta me faz é estar no meio de uma multidão a dançar, sentires aquela vibração. Isso molda a forma como tu danças."

Já lhe chamaram "o melhor bailarino de Lisboa", a este alcobacense de 35 anos licenciado em Estudos Artísticos. E com motivo: vê-lo dançar transporta-nos para Fame, a série americana dos anos 80 sobre o quotidiano de uma escola artística em que todos os alunos parecem ter nascido de uma conjugação dos genes de Nureyev, James Brown, Cyd Charisse e Pina Bausch, o movimento e o ritmo como natureza, expressão e alegria.

"Dançar à noite é um conjunto de coisas - é a luz, as pessoas, a energia, o álcool, a música. Aquilo de que mais tenho saudades é dançar num sítio com luzes e boa música, mesmo que seja com poucas pessoas. É para mim terapêutico. Muita da depressão que senti no confinamento foi por falta disso. Eu, que não sou nada místico, sinto muita falta dessa energia. Ao sair à noite gastamos energia e vamos buscar energia."

Há dançar em casa, claro, "mas não é a mesma coisa." Falta a comunhão, a vertigem das luzes, o calor e o olhar dos outros. E para essa imersão o lugar fetiche de Davide é o Lux, o clube criado por Manuel Reis e inaugurado em 1998 na Lisboa beira rio, junto a Santa Apolónia. "É o sítio onde sou mais feliz. Já cheguei àquela porta não muito bem e subo aquelas escadas e mudo por completo. Há ali qualquer coisa que me faz bem. Quando ainda vivia em Alcobaça havia noites em que íamos de propósito ao Lux - íamos e vínhamos, um grupo de amigos, de carro. Às vezes as minha folgas no trabalho eram marcadas de acordo com a programação do Lux. E agora que já vivo em Lisboa ia muitas vezes sozinho. É o sítio em que senti mais liberdade. Uma palavra fundamental para sítios como o Lux é liberdade. E poderes ser quem queres ser. Saía de Alcobaça para ir ao Lux porque era lá que era quem queria ser. Espaços como este construíram-me muito."

Além de consumidor da noite, Davide começou a trabalhar nela ainda em Alcobaça, a partir de 2006. Agora faz parte da equipa da Casa Independente, bar/discoteca/restaurante/espaço cultural no Largo do Intendente, onde esteve em layoff e conta regressar ao trabalho a partir de 3 de maio. Ao Lux não regressou desde março de 2020. "Nem quis ir lá quando abriu, no verão, com aquelas limitações todas, porque não quero que perca a magia que tem para mim."

"É uma parte da vida que desapareceu"

Uma das baixas desta comunidade de liberdade e alegria pode ser o Purex, o pequeno bar/disco da Rua das Salgadeiras, no lisboeta Bairro Alto. Parte do percurso LGBT e mais trendy da capital, funcionou pela primeira vez na passagem de ano de 2000. É Joana Reinhardt, a gerente e uma das três sócias (as outras são Susana Faria e Joana Girão), a admiti-lo. "Mesmo estando fechadas e em layoff temos de pagar parte da Segurança Social e dos ordenados - somos cinco a trabalhar ali - mais a renda. Só estamos a acumular dívidas e continuamos a não saber quando vamos poder abrir." Suspira. "São muitos anos, é um projeto que adoro - e custa-me imenso abandoná-lo, pelo que estamos a tentar perceber o que fazer."

Os outros apoios que surgiram e aos quais concorreram - o Programa Apoiar (nacional, de apoio à tesouraria de empresas especialmente afetadas pelo confinamento) e o Lisboa Protege da Câmara Municipal de Lisboa - "são escassos e vieram tarde", lamenta. Para já, estão a fazer obras, mas atendendo às características e dimensão do espaço não há condições para o improvisar em snack bar, como está a suceder com parte dos bares e discotecas.

Caso do vizinho 49 da ZDB, o bar/disco da Galeria Zé dos Bois, na rua da Barroca. "Serão só cinco mesas", informa Sónia Silva, que com Paula Pereira gere mais este espaço do roteiro LGBT/trendy lisboeta. "Não dá para mais. Se fizemos contas para ver se merece a pena? Não. É ver. No ano passado só funcionámos no terraço da galeria, estivemos sempre à espera de poder abrir cá em baixo. Agora decidimos tentar isto. Temos de nos resignar, se calhar tem mesmo de haver uma mudança de paradigma - tem de se passar a sair de casa mais cedo. Ou somos mais britânicos ou fazemos como os espanhóis, que saem do trabalho e vão para os copos. Quanto à pista [de dança], esquece. Nem vale a pena pensar nisso."

Claro que para funcionar assim, a um centésimo da capacidade e num niquinho do horário anterior e portanto dos proventos, é preciso que as pessoas que gerem os espaços não dependam só deles para sobreviver. É o caso das responsáveis pelo Purex e das do 49, para quem estes espaços são mais do que negócios, são trabalhos de amor. "O 49 dava-me uma trabalheira", admite Sónia. "Mas sinto falta de ver pessoas que só víamos à noite; a maior das pessoas com quem eu estava era à noite. É uma parte da vida que desapareceu."

Uma parte da vida em relação à qual Joana sentiu não só existir o tal "preconceito gigantesco, quando faz um trabalho social importantíssimo", como ausência de voz. "De algum modo achámos que seria a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) que nos iria representar. Pago-lhes quota, esperava que o fizessem, mas senti que não. Ainda tentámos organizar-nos no Bairro Alto mas disseram-nos que teríamos de nos unir em associação senão não teríamos força."

Esse revelou-se ser um dos problemas do setor da noite português face à pandemia: a ausência de união, de estrutura, de um discurso coletivo. Ao contrário do que se passa noutros países, onde existem associações fortes, influentes e interlocutoras nas decisões - como a citada associação no Reino Unido, a Night Commission de Berlim ou os famosos Night Mayors (presidentes da noite) noutros locais -, por cá não existia organização digna desse nome. Cristiana Vale Pires sublinha essa falta: "Nunca tivemos uma figura de governança para a noite. Em Berlim por exemplo a Club Comission conseguiu equiparar a cultura clubbing à da ópera. Em Portugal sempre faltou algo que a partir da sociedade civil representasse esta área."

"Pela primeira vez tivemos uma voz comum"

É costume dizer-se que as crises são também oportunidades. E pandemia, ao cair com todo o seu peso sobre o setor da noite - nas palavras de Lúcia Azevedo, a gerente do Lux, "nunca houve uma desgraça como esta" - pode ter sido o impulso que faltava para que os seus atores, ou parte deles, percebessem que têm de se unir.

Foi isso mesmo que, diz Mariana Duarte Silva, do Village Underground (que ocupa há sete anos o espaço do museu da Carris na Avenida da Índia, em Lisboa), aconteceu. "Pela primeira vez sentámo-nos à mesa - Lux, Village, Damas, Musicbox, Casa Independente, Titanic, etc -, falámos, criámos um projeto partilhando custos e tivemos uma voz comum perante a Câmara de Lisboa." O resultado, o Circuito, integrando espaços da capital com prática de espetáculos ao vivo e programação, é um programa da CML com dotação de 600 mil euros que permite às salas receberem 10 eventos de duas horas, com lotação limitada segundo as exigências sanitárias, e pagar a cada participante um cachet de 150 euros. "Isto vai mexer com muita gente e de muitas formas e feitios e permitiu-nos manter as casas abertas", conclui Mariana. "Fazer este circuito mexer foi muito importante. Mas só conseguimos em Lisboa. Ficaram muitas casas de fora e muitas não vão aguentar."

O grande animador deste projeto que integra 12 espaços lisboetas é Gonçalo Riscado, a cara do Musicbox (Cais do Sodré) e da Casa do Capitão (aberta no Beato em plena pandemia, no verão passado). "A noite é muita coisa", reflete Gonçalo. "É um espaço das vanguardas e de expressão da diversidade. É todo um ecossistema. A consciência política disso é porém um percurso em que estamos um pouco atrasados; a noite é muito desvalorizada por falta de conhecimento. E há nela um circuito que tem uma enorme importância para novos artistas, menos comerciais, porque é onde podem mostrar o seu trabalho - o circuito das salas que fazem programação de DJs e bandas. Mas como a nossa atividade principal é vender copos e música, é com essa que nos viabilizamos, ficámos de fora dos projetos de programação cultural. Começámos a explicar isso há um ano, a tentar fazer entender que neste espaço de tempo em que estivemos fechados muitos artistas não lançaram os seus discos, muitos desistiram, muitos jovens ou menos jovens que iam iniciar o seu percurso artístico foram para outro caminho. Mas depois de tudo isso explicado nada aconteceu."

Só em Lisboa, através do acordo com a Câmara, foi possível "estancar o prejuízo", comenta Gonçalo. Desenhado para quatro meses, de dezembro a março mas adiado por causa do segundo confinamento, o Circuito só irá materializar-se agora. De fora ficou o resto do país, Porto incluído - ainda houve negociações com a Câmara do Porto mas borregaram. "Há muitos espaços a fechar", garante o homem do Musicbox. "Mas e quem não fechou e investiu e se endividou para não fechar que lhe vai acontecer? É que há um grande endividamento. E quando terminarem os layoffs e as moratórias... Os espaços da rede do Circuito estão protegidos para já, mas continuamos sem saber quando poderemos voltar a funcionar como funcionávamos. Todas as previsões saem furadas. No início do ano pensava que talvez em setembro ou outubro... Repara, eu não sou negacionista e não defendo de todo que se possa voltar a estar na noite como antes assim de um dia para o outro. Mas os discursos pedagógicos que tem havido não são nada pedagógicos, vão no sentido de estigmatizar os comportamentos normais, humanos. Se o discurso ao menos fosse 'eu sei que faz falta estarem juntos e estamos trabalhar para voltar a ser possível'..."

"Clientes mandam propostas para ajudar"

"Nem sei o que pensam de nós". A voz de Lúcia Azevedo, gerente do Lux, exprime desalento. "Isto deveria um assunto que deveria ser falado como qualquer outro. Porque tem importância na vida económica, psicológica, cultural. E enquanto formos vistos como descartáveis seremos sempre marginalizados."

O Lux tinha 74 empregados, agora tem 46 - "Houve contratos que caducaram, mas ainda temos muita gente. Não conheço outro espaço noturno com uma equipa tão grande. E o impacto não se limita a nós: quando fecham estes espaços há outras atividades que sofrem. Desde logo os fornecedores de bebidas, mas também o de pão, de copos, as empresas de limpeza, de manutenção de ar condicionado, de material de vídeo e som. Há vários fornecedores que viram os seus negócios empatados também por causa disto. E são empresas com grande número de trabalhadores."

Quando reabriu no verão passado, em modo snack-bar - o único permitido - e como sala de espetáculos não foi para fazer dinheiro. "Antes pelo contrário", garante. "Mas foi muito importante termos trabalhado no verão, para pôr a equipa a trabalhar. Tens ali pessoas para quem trabalhar no Lux é muito importante em termos de identidade, de construção de personalidade. Foi uma coisa bonita, vê-las emocionadas por voltarem ao trabalho." E aos clientes, claro. "Estavam felizes de voltarem ao espaço, mas com tantas limitações foi uma experiência agridoce. Vê-los a quererem dançar e não poderem, sabermos depois pelas redes sociais que foram à casa de banho para dançar às escondidas à frente do espelho. Porque o Lux é um espaço de liberdade e isto é muito castrador."

Mariana, que reabriu o Village logo a 5 de abril com refeições - "Tínhamos já um restaurante, portanto não mudámos muito o negócio" - e a partir da última semana de abril também com DJ ao jantar, conta a rir que as pessoas dançam como doidas nas cadeiras. "Sente-se muito a falta da dança. E claro que não tem a mesma rentabilidade fazer refeições e fechar às 22.30 e ter club nights à sexta e sábado. Tenho alguma esperança de que dos eventos-teste saia um regulamento para a reabertura. Mas é muito diferente ir a um concerto, um espetáculo, que é naquele dia, àquela hora, e sair à noite. Porque sair à noite é cirandar por aí e nesse aspeto não estou a ver quando vai voltar como era antes."

Gonçalo concorda: "Isso do teste como condição de entrada é viável em termos de festivais ou grandes concertos, porque há um custo associado. É aquela lógica de "vou a um festival e o teste está incluído no preço". Mas nas salas a funcionar todos os dias e em horários muito alargados, para a economia da noite, não me parece uma solução para o fim das restrições."

Tentar aquilo que já se aventou internacionalmente, no âmbito do Vibe-lab, think tank internacional da cultura clubbing - espaços de dança, preferivelmente ao ar livre, com lugares definidos e distanciamento, numa espécie de "parque de estacionamento" de dançarinos? A gestora do Village hesita. "Seria talvez positivo. Mas o espaço de liberdade que é a noite todo regulamentado fica estranho."

É muito difícil, reconhece Lúcia, "entusiasmar as pessoas a irem a um sítio em que eram livres e agora têm tantas limitações. Daqui a uns tempos perceberemos o mal que isto está a fazer - a falta do afeto, da liberdade, de escape. A noite não é só sexo, drogas e rock'n'roll. É o afeto. E neste momento vais ao teatro ou ao cinema e nem podes estar de mão dada com a pessoa com quem foste."

As provas dessa carência chegam diariamente: "Há muitos amigos a contactar-nos para nos darem conta disso. E também emails de clientes anónimos com propostas para tentar ajudar - algumas engraçadas e de certa maneira comoventes. Percebes que as pessoas estão a pensar nisso, na falta que o Lux lhes faz." Sorri: "Houve até quem durante este período em que estivemos fechados nos contactasse porque se vai casar e queria casar no Lux, porque foi aqui que conheceu a pessoa."

"E se isto durar dois anos até à normalidade?"

"Este período tem tanto de trágico como de maravilhoso. Estou a ver isto como uma mudança de paradigma." É Daniel Pires, do portuense Maus Hábitos, espaço na Rua Passos Manuel que é simultaneamente bar, galeria, sala de espetáculos e restaurante, com 20 anos celebrados a 1 de abril, quem fala. "Temos de assumir responsabilidades e perceber que este negócio tem muito mais responsabilidades que aquelas que achávamos que tínhamos."

Há coisas que já se sabiam sobre essa responsabilidade, as tais que tem sido tão difícil traduzir "para fora" - "Somos nós que programamos, que damos a coolness, o mood [humor, disposição] às cidades. Somos agentes culturais como qualquer diretor de museu. Alimentamos o ecossistema da noite, damos segurança" - e outras que é, crê Daniel, necessário perceber para dentro. "Isto do Circuito deveria ter sido feito há 10 anos. Os espanhóis têm imensas associações representativas, mas cá há guerra nos negócios da noite, nomeadamente aqui no Porto, onde nem sequer conseguimos um programa como o Circuito. E devíamos estar a discutir não só quando abrimos mas como vamos abrir, aproveitar esta oportunidade para acabar com o sexismo - essa coisa horrível das ladies night, por exemplo - e a discriminação, ter boa comida em vez da tosta mista ranhosa. E entendermos que temos uma responsabilidade muito grande, por vendermos álcool: a noite é onde se revelam os demónios."

É preciso também, crê Daniel, mudar, ter capacidade de adaptação. "E se isto durar dois anos até à normalidade? E se as pessoas ficarem emburradas tipo "quero que me paguem porque não quero mudar"? É que há muita gente assim. No Maus Hábitos somos privilegiados porque há muito tempo pensámos nessa mudança. Sou fotógrafo e quando só funcionávamos de noite sentia falta da luz, achava uma pena não aproveitar o dia. E avançámos com uma pizzaria de grande sucesso." O facto de já terem isso permitiu que neste contexto todo o espaço - 600 metros quadrados - fosse transformado em restaurante e obter ainda assim um resultado razoável: "Faturámos 1,4 milhões em 2019 e 520 mil ou à volta disso em 2020. Quase um terço, portanto. Mas faturámos. E o nosso DNA não foi quebrado porque mantivemos a programação, com comédia à mesa, cinema à mesa, música à mesa."

O público mudou, porém: "É mais velho - é outro espaço-tempo. Começamos às 20 e às 22.30 está tudo na rua." Não é, evidentemente, a noite-noite; é uma coisa outra. "Se queremos voltar ao que era antes... Acho que não vai acontecer outra vez da mesma forma. A minha intuição diz-me que se calhar a cadência não vai voltar a ser aquela, a noite de quinta a sábado... Se calhar vamos escolher melhor onde queremos estar. E no meio disto vão cair coisas, muito provavelmente a noite vai ficar mais cara, porque implicará sistemas de filtragem de ar, testes, se calhar os clubes vão ter de investir em coisas de que não estávamos à espera." Poderá regressar-se a uma noite segmentada, aventa. "Vai provavelmente haver clubes, aquele género em que só vais àquele sítio onde sabes que as pessoas são mais assim ou assado."

Um movimento inverso ao da democratização e mistura que se assistiu nas últimas décadas? O Lux, que com a sua lotação de 1200 pessoas e filosofia identitária, inclusiva, é porta-estandarte dessa batalha, não se rende assim tão depressa. "Baixámos os preços", informa Lúcia. "Nunca tinha tido bilhetes de cinco euros para um concerto. Há uma consciência coletiva de que não há dinheiro; o público do Lux terá maior dificuldade em ir ver um concerto por 15 euros." Mesmo se de uma lotação de 1200 passaram para 294 - vale o facto de, por se manter a proibição da dança, poderem continuar em layoff, o desastre financeiro um pouco mitigado enquanto se faz o que é possível. "Temos o Circuito para já. E Lux foi um espaço pensado também como sala de espetáculos, estamos a receber propostas nesse sentido - peças de teatro, por exemplo. E faremos, claro. Mas isso não é o Lux. O Lux não é só sso, um espetáculo de pessoas sentadas de máscara sem poderem dançar nem abraçar a pessoa que está à frente."

Não. Lux é a noite - e a noite é delírio, transe e corpo a corpo, escuro e luz, catarse e libertação. A sede desta espera só se estancará na torrente, antevê Cristiana. "Há quem ache que quando - se - isto acabar vão ser os novos loucos anos 20, como sucedeu no século XX entre as duas guerras e após a pandemia da gripe espanhola. Será?"

fernandacanciodngmail.com

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG