"Despiste precoce de cancro por biopsia líquida vai ser rotina"

Bioquímico e bioinformático, José Pereira Leal cruzou-se com Joana Cardoso, da genómica, no grupo de investigação que lidera no Instituto Gulbenkian de Ciência desde 2006. Há dois anos criaram uma empresa para desenvolver testes genéticos e há alguns meses lançaram a biopsia líquida

Nos últimos dez anos, desvendaram no Instituto Gulbenkian de Ciência alguns dos processos genéticos e moleculares da evolução dos tumores e perceberam que tinham algo para dar aos médicos e aos doentes. Há dois anos, criaram uma empresa para pôr a ideia em prática. Desenvolveram tecnologias e softwares e já criaram alguns testes genéticos para avaliar o risco de cancro. Há poucos meses lançaram um teste chamado biopsia líquida, que dá informação sobre alguns tumores malignos a partir de uma análise sanguínea. Dentro de cinco anos, garante o cientista, ela será decisiva no despiste precoce de cancro.

Qual é a vantagem da biopsia líquida em relação à biopsia tradicional?

A biopsia líquida é algo que já fazemos como rotina. Em vez de precisarmos de tirar um pedaço do tumor, geralmente por um processo invasivo e cirúrgico, o que fazemos é uma análise de sangue. Isto é possível porque os tumores libertam ADN, a sua informação genética, para a circulação sanguínea. Identificamo-los e fazemos a sua leitura. É outra maneira de fazer a biopsia.

Quais são as vantagens?

Uma delas é que podemos fazer esta biopsia muitas vezes, o que num procedimento cirúrgico não é possível. E é mais representativa da doença como um todo. Numa doença metastática [com metástases] todos os focos, as metástases e o tumor, têm a sua natureza molecular, que pode ser distinta, e todos eles libertam ADN para a circulação. Portanto, quando analisamos o ADN na circulação representamos a doença toda, enquanto na biopsia do tecido, de um ovário, ou cancro de mama, por exemplo, só há a informação do bocadinho retirado.

E quais são as desvantagens?

Com a biopsia líquida perdemos alguma sensibilidade. Temos um fator de diluição que é variável de tumor para tumor. Portanto, ela não vem substituir as biopsias tradicionais. Neste momento é um complemento que nos permite fazer a caracterização genómica de tumores, que de outra maneira não seria possível.

Diz que as biopsias líquidas já se fazem por rotina. Como se chegou aqui?

A comunidade científica descobriu há 10 anos que os tumores libertam ADN para a circulação. Houve depois um processo de desenvolvimento de tecnologia para ir buscar este ADN circulante e foi necessário perceber se havia algum tipo de utilização clínica. Há um estudo em cancro de pulmão, para o qual já está protocolada a utilização da biopsia líquida, para avaliação de uma mutação de resistência a um determinado fármaco, e verificou-se que o ideal é fazer os dois tipos de biopsia. A tissular [com uma amostra do tecido] é mais sensível e a líquida é mais abrangente. Com as duas faz-se uma melhor representação do tumor.

Mas a biopsia líquida já se faz na prática clínica?

Fazemos isto na prática clínica quando o médico pede. Os médicos pedem-nos informação sobre se um determinado tumor tem uma mutação específica. Por exemplo, no cancro de pulmão há um gene chamado EGFR que pode ter uma mutação, a T790M, e um doente com esta mutação deixa de responder a um determinado tipo de fármacos e passa a responder a outros. Fazemos isto, não somos os únicos, mas fazemos também a sequenciação do ADN e do ARN circulante. Isolamos todos os fragmentos do tumor para ler a informação e, com isso, fazemos panoramas mutacionais em pessoas que não estão a responder a tratamentos, para perceber as probabilidades de resposta aos fármacos. Fazemos isto numa base regular e não há muitos a fazer por uma razão muito simples: é preciso uma bioinformática muito de-senvolvida, porque são milhões e milhões e milhões de letras. Desenvolvemos de raiz uma plataforma de análise bioinformática que nos dá toda essa informação, que vai depois para o clínico.

E toda a gente tem acesso a isto?

Não há razão para que não tenha. Isto é tecnologia no contexto da doença oncológica. Há outras doenças onde isto pode vir a ser relevante, mas ainda falta validação. Neste momento, uma parte significativa destes testes estão disponíveis no Serviço Nacional de Saúde, ou as seguradoras pagam.

Para que tipo de cancros é que as biopsias líquidas já são uma boa opção?

Depende da fase do tumor. Para todos os tumores sólidos funciona. Há um ou outro tumor que não liberta ADN para o sangue, mas para a urina e para o líquido cefalorraquidiano, como os tumores do sistema nervoso central neste último caso. O da próstata, numa fase inicial liberta essencialmente para a urina. A questão é saber qual é o fluido mais informativo para a doença no seu estado de desenvolvimento e naquele doente. Temos tido muita experiência com cancro do pulmão, do ovário, da mama e cólon, e alguma experiência em cancros mais raros, como sarcomas, sobre os quais há pouca informação disponível, e temos encontrado alguns caminhos para doentes com sarcoma. Para o cancro da próstata estamos a trabalhar, não é claro ainda o que podemos fazer.

O que a vossa equipa faz é desenvolver esses diagnósticos e novas possibilidades de tratamentos mais precisos?

O que fazemos aqui é pegar na ciência, no seu estado mais próximo da aplicação e implementamos e otimizamos os procedimentos de laboratório, o que não é trivial. Conseguimos aqui algo que poucos conseguem fazer no mundo, que é pegar em ARN circulante, a molécula mensageira da informação genética, que é muito instável. Vamos buscá-la à circulação, estabilizamo-la, lemo-la e usamos isso no cancro do pulmão para ir à procura de umas fusões de genes que são informativas para certas terapias. Temos muita otimização laboratorial, e é isso que permite baixar os preços. Se não fizermos esse esforço, tudo isto fica inaceitavelmente caro para o doente.

Pode-se dizer que isto está a começar e que o melhor ainda está para vir?

Acho que sim, que o melhor está para vir. Nos próximos anos vamos ver uma adoção generalizada da biopsia líquida. A biopsia tissular não está obsoleta de todo, continua a ser indispensável, mas passamos a complementá-la com a biopsia líquida. Estamos a começar a implementar isso para avaliar a resposta às terapias e eventuais resistências aos fármacos. Onde espero que haja um grande impacto da biopsia líquida em breve é na deteção precoce do cancro. Não estamos lá ainda em termos de validação científica, mas os ensaios estão a decorrer. Em muito poucos anos vamos ter como rotina o despiste da doença oncológica por análises de sangue em biopsia líquida. Não falta muito. Cinco anos no máximo, é a minha expectativa. Faz parte do nosso trabalho desenvolver testes específicos a preços acessíveis.

Perfil de José Pereira Leal

Depois de fazer todo o percurso académico nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde foi também investigador, José Pereira Leal regressou a Portugal em 2006, para liderar um grupo de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência. Há dois anos criou uma empresa com o grupo Germano de Sousa para desenvolver testes genéticos e de diagnóstico.

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