Crescimento de casos entre crianças e jovens já está a diminuir

O maior número de casos tem sido registado nas faixas dos 0 aos 19 anos, mas o ritmo de crescimento começa a descer. E o pico desta onda deve ser atingido dentro de dias entre os 70 e os 80 mil casos.

Portugal registou ontem o maior número de casos que alguma vez teve desde o início da pandemia: 65 578. Mas este número, e segundo explica ao DN o professor Carlos Antunes, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que integra a equipa que faz a modelação da doença, "está dentro das projeções que temos vindo a fazer com base no número de casos diários notificados". Aliás, destaca, "estes números estão um pouco abaixo do que tínhamos estimado há uma semana, que agora já estaríamos a atingir os 70 mil, mas isso ainda não aconteceu".

De acordo com o professor, e tendo em conta os números registados durante esta semana, os 70 mil casos poderão ser atingidos já nos próximos dias, podendo ir-se até a um máximo de 80 mil na próxima semana. Por agora, há já um bom indicador: "O ritmo de crescimento de casos entre as faixas etárias mais jovens, as que vão dos 0 aos 19 anos, onde se registou o maior número nestas duas últimas semanas, começou a diminuir", afirma o especialista, acrescentando que esta "desaceleração pode ter como causa o número de elevado de pessoas em isolamento", não só estudantes como profissionais de educação e pais.

"Nas duas últimas semanas, tivemos taxas de infeção nos mais jovens que triplicaram em relação às semanas anteriores. Agora, não. Os números revelam que o crescimento de casos entre os 0 e os 9 anos e entre os 10 e os 19 é da ordem dos 35%, o que significa que, neste momento, a média diária de casos é de 9 mil" E acrescenta: "Sem dúvida que continuam a ser as idades que mais casos registam, mas não tanto como nas últimas semanas". Olhando ainda para as faixas etárias, Carlos Antunes explica que, ao contrário da dinâmica dos mais novos, o ritmo de crescimento de casos nas faixas etárias dos adultos entre os 30 e os 49 anos começa agora a crescer. "Está a haver um aumento considerável, mas nada que se compare ao boom de casos registados nas crianças". Por outro lado, nas faixas etárias acima dos 50 anos o aumento de casos "é muito ligeiro".

65 578. Este é o número de casos de ontem. Portugal soma assim 2 377 818 de infetados, bem como 19 703 óbitos (ontem foram 42).


O professor destaca que está "a haver uma alteração da dinâmica que se registou com o impacto da abertura das escolas (10 de janeiro)". "Houve um grande impulso de casos nas faixas da crianças que voltaram aos infantários, creches e escolas, mas agora já se está a registar uma retração no crescimento das infeções, até pela redução da mobilidade e dos contactos devido ao facto de termos mais de um milhão de pessoas isoladas", diz. Segundo o boletim diário de ontem da Direção-geral da Saúde (DGS), o número de pessoas isoladas é precisamente de 1 062 319, tendo em conta que 515 962 são casos ativos e que 546 357 são casos em vigilância.

Métodos diferentes, números diferentes

Para o especialista, que faz a modelação da evolução da doença desde o início da pandemia, "a infeção está a encontrar a sua saturação, começando a ter dificuldade em continuar a aumentar o número de casos ao ritmo elevado que vinha se vinha a registar". Por outro lado, isto também começa a indiciar que "o pico pode estar para breve, provavelmente para a primeira ou segunda semana de fevereiro", estimando que o pico da onda epidémica provocada pela Ómicron, que se sobrepôs à onda gerada pela Delta, que começou em dezembro, seja atingido com um máximo de 80 mil casos e não com os 150 mil estimados pela equipa de colegas do Instituto Superior Técnico. E explica porquê: "As nossas projeções são feitas com base nos casos reais, aqueles que são diagnosticados diariamente e divulgados pela autoridade de saúde. Os colegas do IST têm vindo a fazer estimativas com base no número possível de infeções". Ou seja, sustenta, "com base no número de infeções que possam existir na comunidade, mesmo que não estejam diagnosticadas e que podem ser da ordem de mais 50% a 80% do que o número de casos diários".

Segundo Carlos Antunes é o método de análise que leva à diferença e a um intervalo elevado no número de casos de covid-19 estimados para o futuro, por uma equipa e por outra. "Para se atingir no espaço de uma a duas semanas os 150 mil casos referidos pelos colegas do IST teríamos de estar agora com um número de casos real da ordem dos 90 mil. E isso não está acontecer". acrescenta.

Mas numa coisa as duas equipas coincidem - é que o pico desta onda deverá ser atingido nas duas primeiras semanas de fevereiro. "Isto é o que temos de mais consistente a partir do número de casos atingidos até agora", especificou. "Estamos com uma média de 56 mil casos diários, mas a caminho dos 60 mil e com espaço para se atingir os 80 mil", mas "tudo irá depender da perceção de risco de infeção do cidadão e da sua atitude". Por agora, o índice de transmissibilidade R(t) continua a subir (o boletim dava conta de estar em 1.20), mas Carlos Antunes diz que este tem um atraso de cinco dias e que a sua trajetória de subida vai começar a descer.

Quanto às estimativas de óbitos, e equipa da Faculdade de Ciências estima que a média diária destes não ultrapasse os 50. O boletim diário da DGS dava conta ontem de 42. A média diária de ontem estava em 41 óbitos, mas a média diária estimada para as próximas semanas é de 49, no máximo. Um patamar que só chegará uma semana depois do pico de casos.

Para o dia 30 de janeiro, próximo domingo, dia de eleições, as estimativas de Carlos Antunes também são mais otimistas do que há uma semana. O professor explica que o número alcançado na semana passada pelos modelos matemáticos apontavam para um máximo de 1,3 milhões de pessoas em isolamento, mas com os números que se têm vindo a registar "verificamos uma correção por baixo, em termos médios, não devemos ultrapassar 1 milhão e 250 mil casos em isolamento".

No final, o professor sublinha de novo a dificuldade de se projetar a mais de uma semana, devido a à nova variante Ómicron. Tanto mais que em Portugal, à semelhança de outros países, como a Dinamarca, há já uma segunda linhagem da Ómicron, a BA.2, que se está a revelar mais contagiosa do que BA.1.

Maioria dos doentes internados não é por causa da covid

Não há dados concretos, porque a Direção-Geral da Saúde (DGS) não os dá. Mas há muitos hospitais que vieram explica que a esmagadora maioria dos doentes internados em enfermarias covid, não estão ali devido à infeção ou pelos efeitos que esta está a ter neles, mas por terem outras doenças. Ou seja, e como explicaram fontes médicas ao DN, "os doentes chegaram ao hospital com queixas de outras doenças, mas tiveram que fazer o teste à covid e deram positivo.

Portanto, estes doentes estão nas alas covid, para se impedir a transmissão da doença nos hospitais, mas estão a ser tratados a outras doenças". Nas alas covid. estão inclusive acidentados, que foram levados às urgências e que testaram positivo. No dia de ontem estavam internadas 2330 pessoas, menos 7 do que nas últimas 24 horas, das quais 152 em Unidades de Cuidados Intensivos.


anamafalfainacio@dn.pt

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