Covid-19. Doentes oncológicos devem ser vacinados. O problema é a escassez de vacinas

As vacinas aprovadas para combater a doença não incluíram nos ensaios clínicos doentes oncológicos. Mas, hoje, organizações médicas oncológicas internacionais defendem a vacinação, e, algumas, até a prioridade. Em Portugal, há quem concorde, o problema é a escassez de vacinas.

Os últimos dados oficiais divulgados esta semana revelam que em 2018 Portugal registou 52 500 novos casos de cancro, com o do cólon e do reto à cabeça (7600), seguido do da mama (7400), do pulmão (4600), do do estômago (2900), do da bexiga (2200), do da próstata (6100) e dos do sangue (3700)). Números que colocam o país, em algumas áreas, caso do cancro do estômago, na cauda da Europa e ao nível de alguns países do Leste. Ao DN, o diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas admite que ainda há muito a fazer, sobretudo no que toca à realização de rastreios, através dos quais "se consegue salvar vidas". A verdade é que a pandemia da covid-19 está a agravar esta situação e a colocar novas questões, o processo de vacinação em curso, tendo em conta que um dos problemas é a escassez de vacinas.

Neste momento, a discussão já não se faz em torno da segurança - ou seja, se é seguro ou não vacinar os doentes oncológicos, uma vez que estes não integraram qualquer dos ensaios clínicos realizados para as vacinas já aprovadas e distribuídas no mercado - porque os resultados obtidos já demonstraram às organizações internacionais de oncologia médica que as vacinas são seguras. A questão agora é como é que os países devem gerir o processo de vacinação em relação a estes doentes. Nos últimos dias, o Reino Unido clarificou os critérios de vacinação, incluindo os doentes com cancro em grupos prioritários, depois de aceitar as recomendações do Instituto de Investigação para o Cancro.

A Sociedade Americana Contra o Cancro (ASCO) fez o mesmo. A Sociedade Europeia da Oncologia Médica (ESMO) também, argumentando até que a vacinação destes doentes contra a covid-19 "é uma prioridade de saúde pública". O instituto francês Gustave Roussy, considerado o primeiro na luta contra o cancro na Europa, já recomendou a vacinação destes doentes e com prioridade. Em Portugal, especialistas na área da oncologia e instituições de saúde começam a definir posições.

A Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO) vai recomendar a vacinação dos doentes oncológicos. A presidente, Ana Raimundo, questionada pelo DN, afirma que vai ser publicada na página da SPO um documento sobre este tema. Ana Raimundo tem em conta que lidamos com um cenário de escassez de vacinas, mas defende que se não fosse assim, "se houvesse vacinas para toda a população, os doentes oncológicos também deveriam ser considerados prioritários. Sobretudo, os doentes da área da hematologia e medula e transplantes, porque são os mais suscetíveis entre os doentes de oncologia e é nestes que "se nota maior mortalidade quando infetados com covid-19".

A médica e diretora do Serviço de Hematologia do IPO de Lisboa, Maria Gomes da Silva, defende: "Se houvesse vacinas suficientes para todos, os doente com doença ativa deveriam ser já vacinados. Não havendo, a prioridade deveria ir para quem vai iniciar tratamentos".

Contactados pelo DN sobre já tinham tomado uma posição, os institutos de oncologia, IPO de Lisboa e do Porto, responderam que "os doentes oncológicos deverão fazer a vacina quando forem chamados pelos centros de saúde e de acordo com as normas e procedimentos definidos pela Direção-Geral da Saúde".

O diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, concorda que os doentes devem ser vacinados de acordo com os critérios definidos pela Task Force para a Vacinação contra a Covid-19, que incluiu os inclui na segunda fase de vacinação, prevista arrancar em abril, e só para maiores de 50 anos.

Por sua vez, o diretor do Departamento de Oncologia do Hospital da Luz, José Passos Coelho, argumenta: "Somos uma unidade privada e quem disponibiliza as vacinas é o Estado, portanto o que digo a um doente é que quando o indicarem para a vacinação que aceite".

Dos 18 aos 49 ficam de fora

Os critérios definidos na norma da Direção-Geral da Saúde (DGS) deixam de fora todos os doentes com neoplasias entre os 18, já que a vacina não está aconselhada nas idades anteriores, e os 49 anos. Doentes que estão igualmente na mesma situação de debilidade do sistema imunitário e com maior risco de contrair a infeção. Os especialistas reconhecem a situação, mas até agora parece não haver outra resposta senão a da escassez de vacinas. Aliás, em Portugal a discussão tem sido feita com base neste cenário.

A SPO, no documento que vai lançar, recomenda a vacinação dos doentes, explicando que, apesar de estes doentes "não terem sido incluídos em qualquer dos ensaios clínicos de vacinação para a covid-19, as recomendações internacionais sugerem a realização da vacinação em todos os doentes. Esta recomendação é baseada na perceção existente, que deriva de outros estudos de vacinação nesta população, de que por um lado não existem problemas de segurança associadas à vacinação e por outro o sistema imunitário das pessoas com cancro tem a capacidade de gerar uma resposta protetora".

O texto refere ainda, em relação à eficácia das vacinas, que "não existem dados que nos permitam responder a esta pergunta. Se o doente ainda não tiver iniciado os tratamentos oncológicos, fazer a vacina antes do seu início parece ser a medida mais adequada". Ana Raimundo considera que neste aspeto deve ser seguida a prática já assumida para a vacina da gripe e outras, de forma a proteger-se os doentes.

Em relação, aos doentes em tratamento, a SPO sublinha haver "alguns especialistas que defendem que se deve tentar realizar a vacina o mais longe temporalmente do tratamento imunossupressor", embora "em muitos casos este cenário não seja possível. Uma outra fração dos especialistas sugere que se realize no intervalo do tratamento imunossupressor mas também aqui as opiniões se dividem. Sabemos de dados com células do sistema imunitário (células T) que a recuperação imunitária das pessoas sob quimioterapia não se encontra completa até várias semanas após o término dos tratamentos. Adiar a vacinação, até que esta recuperação ocorra, pode ser desvantajoso. Sugerimos que esta decisão seja feita de forma individualizada após discussão com o seu médico assistente".

Vacinar antes de tratamento

A especialista em hematologia Maria Gomes da Silva é da opinião que todos os doentes com doença ativa devem ser vacinados, sobretudo os que recebem diagnóstico de cancro e que estão prestes a iniciar os tratamentos, mas argumenta, "se houvesse doses para vacinar todos, vacinava-os a todos", explicando: "Os ensaios da fase III das vacinas que já estão aprovadas não incluíram doentes oncológicos ou doentes imuno-comprometidos. Contudo, após o conhecimento dos resultados desses ensaios são muitas as instituições internacionais que fizeram a leitura de que estas vacinas são seguras. Ou seja, no que já li e estudei sobre o assunto, não constitui um risco para um doente oncológico ser vacinado tal como não constitui para a maioria de nós".

No entanto, a diretora de serviço de Hematologia do IPO de Lisboa, ressalva, "ainda não sabemos se as vacinas são ou não eficazes, mas temos o exemplo de outras, como a da gripe, com a qual vacinamos os nossos doentes todos os invernos, pois sabemos que uma boa percentagem de doentes consegue responder a estas produzindo anticorpos. Por isso, a recomendação internacional é de vacinar estes doentes".

A médica hematologista defende até que, em algumas circunstâncias, estes doentes deveriam ser considerados prioritários no processo da vacinação. "Um doente que tem um diagnóstico recente de cancro e vai começar tratamentos deveria ser claramente prioritário, porque depois de começar o tratamento a sua capacidade de resposta à vacina diminuirá".

Em relação aos doentes que já estão em tratamento, com terapêuticas fortes imunossupressoras, é da opinião que "talvez se deva esperar pelo fim do tratamento", embora, argumente, que "se tivéssemos vacinas suficientes no país vacinava-os a todos, porque mesmo que a resposta à vacina seja baixa para um doente nesta fase não é zero e o risco que correm de contrair a infeção por SARS CoV-2 é hoje muito grande".

O cenário de escassez coloca aqui a questão de como é que se deve gerir a situação. "Na minha opinião, os doentes oncológicos têm uma patologia que deve constituir uma prioridade na vacinação, se me pergunta se é mais grave do que ter diabetes ou doença pulmonar, não sou a melhor pessoa para responder, mas considero que é muito importante vacinar estes doentes e até os seus contactos dentro de casa, são as pessoas que cuidam deles, e que são um risco para a transmissão, é por este motivo que os profissionais de saúde estão a ser vacinados".

Impacto está nos diagnósticos

Para o diretor do programa nacional, José Dinis, a realidade ao longo deste ano de pandemia tem demonstrado que os doentes oncológicos estão protegidos. "Se olharmos para os números, o impacto da pandemia nestes doentes não está relacionado com a transmissão ou com o desenvolvimento de formas graves da doença. Há um número residual de mortes pela infeção que tem atingido só doentes já com muitas morbilidades. O impacto da pandemia está na redução dos diagnósticos e na deteção da doença em fase avançada". Por isso, acredita, que numa altura em que as vacinas disponíveis são insuficientes para vacinar os grupos de maior risco, como os idosos com mais de 80 anos, "vacinar os os doentes oncológicos não é uma prioridade", mas "se houvesse vacinas para todos, diria que os vacinassem a todos".

Maria Gomes da Silva defende a vacinação para todos os doentes, mas deixa o alerta também para os de hematologia, que mesmo não tendo doença ativa, há muitos que ficam com patologias crónicas e, por consequência, com um sistema imune debilitado, e estes deveriam também ser protegidos. "Na área em que trabalho temos muitos doentes que ficam com doenças crónicas, doenças do sistema linfático, que não curamos. Só curamos uma fração deles. São doentes que vivem toda a vida com tumores, com a doença latente, podendo reaparecer em qualquer altura. Por isto, diria que estes também deveriam ser vacinados, aproveitando o facto de não terem a doença ativa, se tiverem, esta diminuirá a resposta à vacina".

A Organização Mundial de Saúde (OMS) na Europa ainda não falou sobre vacinação a estes doentes, mas alertou há dias para o impacto que a pandemia da covid-19 está a ter no tratamento do cancro a nível mundial, considerando a situação catastrófica e ser necessário proteger estes doentes.

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