"Contactos nos séculos XVI e XVII com portugueses deram aos coreanos dez palavras e o picante na comida"

Brunch com Byung goo Kang, professor de coreano no King Sejong Institute.

No fim de quase quatro décadas a viver em Portugal, Byung Goo Kang já não se imagina a regressar de vez à Coreia do Sul. "Lá faz-se tudo mais depressa. Está-se sempre a ouvir ppali, ppali que quer dizer "rapidamente, rapidamente". Não basta uma vez, têm de repetir", explica, entre risos, o professor no King Sejong Institute - Lisbon, nome oficial da delegação lisboeta do instituto que homenageia um rei intelectual do século XV e promove o ensino da língua coreana mundo fora. Ora, as quase três horas de demorou este nosso almoço/entrevista é uma bela evidência dessa diferença cultural na relação com o tempo, que nem o facto de estarmos no K-Bob, o mais popular restaurante coreano em Portugal, atenuou. "Mas o ppali, ppali ajuda a explicar o sucesso económico", acrescenta Kang, como que saindo em defesa do país natal. Não precisa de o fazer: a Coreia do Sul, que nos anos a seguir à guerra de 1950-1953 era mais pobre do que a Coreia do Norte, é hoje a décima economia mundial, e com apenas 52 milhões de habitantes tem um PIB superior aos do Brasil ou da Rússia.

O sucesso coreano no século XXI não é só económico, mesmo que empresas como Samsung, LG ou Hyundai sejam colossos. É também cultural. "Esta onda de cultura popular coreana, a Hallyu, muitas vezes representada pelo K-Pop, através da música e da dança, é um fenómeno que já se vinha a construir em Portugal há vários anos. Começou o interesse pela Coreia ainda antes da inauguração do instituto, que foi em 2013, e desde aí foi sempre a crescer. Começámos com 23 alunos e agora temos 285 alunos para cinco professores, contando comigo", diz Kang, que refere também o impacto do oscarizado filme Parasitas e de séries na Netflix como Squid Game, além dos dramas coreanos disponíveis na internet.

Pedimos como entrada yachae-jeon, que são umas pequenas panquecas com vegetais, e gunmandu de legumes, um tipo de gyosas. E bebemos cerveja Cass, coreana (para mim) e Sagres. O K-Bob, fundado por um casal coreano, tem sido um êxito e já vai em cinco restaurantes. Este é perto da praça de Espanha e, portanto, a dez minutos a pé da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, onde funciona o King Sejong Institute e desde o primeiro momento ponto de referência para Kang em Portugal, onde chegou em 1984, com 26 anos, bolseiro da Gulbenkian.

"Estudar português foi por acaso. Não consegui entrar no curso que queria quando acabei o 12.º ano e para não ser chamado para o serviço militar obrigatório, decidi entrar em qualquer curso de qualquer universidade para estar registado como estudante. Fui ter com o professor responsável do 12.º ano para ele me recomendar um curso, e foi o curso de português, que passei a fazer a par de Direito, numa lógica de major e minor. Entretanto, houve o assassínio do presidente coreano em 1979 e as aulas nas universidades foram suspensas. Decidi então ir fazer o serviço militar. Durante algum tempo não estudei muito o português, estava mais dedicado ao Direito, mas depois de ter regressado de três anos de serviço obrigatório, decidi que me ia dedicar a sério ao português, uma vez que só faltavam dois anos. Comecei depois a pensar ser professor na mesma licenciatura e na mesma universidade", conta, explicando que o curso em Portugal era para reforçar os conhecimentos da língua, só isso, e pensava regressar à Coreia do Sul para ensinar. Mas a portuguesa Adília mudou tudo.

"O meu objetivo era regressar à Coreia e dei a mim próprio um máximo de sete anos para acabar todos os meus estudos em Portugal. Entretanto, conheci Adília, hoje a minha mulher, e cá estou há 38 anos. Ela foi a principal razão de continuar a estudar em Portugal e de não regressar à Coreia, onde estavam os meus pais e cinco irmãos", acrescenta. Conta Kang que Adília, que conheço pessoalmente, sentiu um certo choque cultural na primeira das cinco vezes que já visitou a Coreia, pois de início a casa da família era tradicional e não tinha nem cama nem mesa de estilo ocidental. Mas "na segunda vez, a minha mãe, que já esteve em Lisboa, tinha comprado tudo para a nora europeia se sentir o mais confortável possível na sua casa", relembra, entre risos.

A chegada dos pratos principais - Dakgalbi picante de frango para mim e kimchi-jiggae, um guisado de porco com a tradicional couve fermentada, para Kang - dá o mote ao meu convidado para elogiar os dotes culinários de Adília, que com os anos se tornou perita na gastronomia do país do marido: "De vez em quando, até digo aos meus alunos que ela é a melhor cozinheira de comida coreana em Portugal, incluindo de entre toda a comunidade coreana. Pode ser um pouco exagerado, mas os meus alunos já provaram a comida dela nos nossos piqueniques anuais, e de facto dizem que é uma grande cozinheira". Em casa, a regra, é, pois, comida coreana, considerada muito saudável, sobretudo o kimchi, mas Kang garante-me que gosta também da gastronomia portuguesa, desde a feijoada e a dobrada, ao cabrito e ao peixe grelhado. Sabendo que sou setubalense, diz-me que ainda há dias foi à minha cidade comer choco frito. Já o bacalhau considera muito salgado, só come a variante à brás.

Conheço Kang há vários anos, creio que de início por ser assessor cultural e político da embaixada da República da Coreia e eu estar a preparar uma reportagem. Depois cheguei a participar na Nova numa aula sua de formação em Hangeul, o alfabeto criado pelo rei Sejong, o Grande. E li já vários dos seus ensaios sobre as relações luso-coreanas, tendo-o citado num recém artigo sobre uma escultura de Vhils em Lisboa, junto ao Tejo, a relembrar que em 1604 o comerciante português João Mendes tornou-se o primeiro ocidental a pôr pé na Península Coreana. É que, além do curso de Estudos Portugueses, Kang fez também na Nova o mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa e tornou-se o primeiro investigador das relações luso-coreanas.

"Escrevi sobre os primeiros contactos entre portugueses e coreanos no século XVI e XVII, época em que a Coreia estava fechada e por isso nunca houve contactos oficiais e diretos entre portugueses e coreanos. No entanto, de forma indireta, sempre houve vários contactos entre as duas culturas através do Japão e da China, e também nas costas coreanas. Há muitos contactos que não são conhecidos ainda hoje, até porque há poucos relatos nos documentos coreanos. Mas nos documentos portugueses há muito por descobrir", afirma Kang, que também já escreveu e deu palestras sobre os primeiros cristãos coreanos, prisioneiros de guerra no Japão por volta do ano 1600 que entraram em contacto com os jesuítas portugueses. Essa comunidade não sobreviveu, porém, pois poucos regressaram à Coreia e mesmo esses foram perseguidos. Apesar de um enviado diplomático coreano ter regressado de uma visita a Pequim, ainda no tempo da dinastia Ming, com livros cristãos em chinês traduzidos pelo célebre jesuíta italiano Matteo Ricci e um mapa do mundo, foi só a partir de meados do século XVIII que a chamada "filosofia ocidental" começou a atrair coreanos, ao ponto de hoje num país de maioria budista um quarto da população ser cristã, tanto católicos como protestantes. Da época de contacto indireto entre coreanos e portugueses ficaram também "umas dez palavras portuguesas na nossa língua, como pão, copo ou sabão", destaca Kang.

Estando nós num restaurante coreano em Lisboa - e acaba de ser inaugurado outro, o Soju Pocha, no Bairro Alto - não posso deixar de perguntar ao professor Kang sobre o papel transformador dos portugueses na gastronomia do país asiático, sobretudo a introdução do picante: "Sim, isso foi na altura da invasão do Japão à Coreia, no ano de 1592, e entraram também esses hábitos trazidos pelos japoneses, uma vez que a ocupação durou seis anos. Durante essa altura, entravam produtos como tabaco e malagueta, que os portugueses tinham introduzido no Japão. A comida coreana é conhecida como sendo picante porque utiliza muito a malagueta e a utilização de malagueta na comida foi um hábito transmitido dos portugueses para os japoneses e dos japoneses para os coreanos. De certa forma, acabaram por ser os portugueses a levar a que os coreanos comessem comida picante".

Chega o momento da sobremesa, e a escolha de ambos recai sobre os gelados. Para mim o de chá verde, para Kang o de feijão vermelho. Falamos um pouco sobre a comunidade coreana em Portugal, pouco mais de duas centenas de pessoas, incluindo os filhos de técnicos que, chegados em 1978, em 1982 começaram a trabalhar numa fábrica de televisores a cores, "a primeira da Samsung fora da Coreia". Mas o primeiro coreano a fixar-se em Portugal foi Won Chong-song, em 1972, para trabalhar como sexador de pintos num aviário do Caramulo (o filme Minari explica bem a função) e por isso este ano a comunidade coreana (ou luso-coreana, pois há vários casamentos mistos) celebra meio século, tendo Kang, que já foi presidente da comunidade, coordenado um livro comemorativo. "O sr. Won é um grande amigo que foi muito importante para a minha integração em Portugal. Foi também o meu padrinho de casamento", diz Kang, referindo-se ao patriarca da comunidade, hoje produtor das compotas Won, que casou com a portuguesa Hortense e, além do filho e das duas filhas, já tem netos luso-coreanos.

Won - recordo-me bem de uma reportagem biográfica que fiz na casa que tem ainda no Caramulo - nasceu em 1949 e era bebé quando a Guerra da Coreia começou, uma tentativa da Coreia do Norte comunista, então liderada por Kim Il-sung (avô de Kim Jong-un), fazer a reunificação pela força. Apesar do apoio da China e da União Soviética, a Coreia do Norte falhou, pois os Estados Unidos vieram em socorro da Coreia do Sul. Desde então, a fronteira entre as duas Coreias é uma faixa de quatro quilómetros de largura de costa a costa toda minada. E as relações intercoreanas atravessam agora uma péssima fase.

Sobre a Coreia do Norte, Kang conta-me um episódio que hoje o faz rir, mas na época o assustou: o dia em que estava na Ajuda para uma pesquisa num arquivo e deu de caras com o edifício da embaixada da Coreia do Norte em Lisboa, entretanto desativada. "Tive medo de ser raptado e cheguei a dizer a amigos que se aparecesse um dia na televisão norte-coreana avisassem o meu governo de que era contra vontade", relembra este coreano já muito português, que numa visita oficial de Aníbal Cavaco Silva em 2014 a Seul viajou com o presidente como tradutor e em 2002 também trabalhou como intérprete e guia para a SIC durante o Mundial de Futebol coorganizado pela Coreia e pelo Japão.

Todos os anos, tirando no recente período da pandemia, Kang tem ido a Seul (é de uma cidade junto à capital, onde chegaram a viver missionários da Consolata portugueses). A mãe ainda está viva e para os coreanos a família é muito importante. E por isso é-lhe fácil ir vendo as mudanças. "O país é muito mais desenvolvido agora do que quando lá nasci em 1958. No ano de 1960, quando a Coreia começou a desenvolver-se economicamente, e havia regime militar, o seu rendimento per capita era apenas de 93 dólares. Agora tem mais de 40 mil dólares por ano. Nessa altura, a Coreia do Sul era muito mais pobre do que a Coreia do Norte. Aliás, era um dos países mais pobres do mundo. O grande promotor do desenvolvimento económico da Coreia foram os planos quinquenais económico do general Park Chung-hee. Depois da morte do presidente Park, assassinado em 1979, quando eu andava na Universidade, o presidente seguinte continuou a política de desenvolvimento económico. Durante 30 anos a Coreia desenvolveu-se rapidamente, daí o chamado "Milagre do Rio Han", o rio que atravessa Seul. A democracia chegou depois, sobretudo com a eleição do primeiro civil, Kim Young-Sam. Foi uma democracia conquistada pelo povo".

Povo apegado à educação, parte da explicação do sucesso económico juntamente com o frenético culto do ppali, ppali, os coreanos sofrem porém com a divisão do país. E é um país, como nota Kang, muito antigo, "oficialmente fundado em 2333 a.C., por isso é que 3 de outubro é o Dia Nacional da Coreia".

Com o estatuto nuclear da Coreia do Norte, e disparos constantes de mísseis para intimidar a Coreia do Sul, a reunificação dos 25 milhões do Norte com os 52 milhões do Sul parece um cenário distante, mas Kang, que é membro do Conselho Consultivo Nacional de Unificação da Coreia, mostra-se otimista: "Na minha opinião, diria que se não vier um quarto Kim, se calhar a reunificação poderá ser mais rápida do que esperamos".

leonidio.ferreira@dn.pt

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