Comida do futuro. "O inseto é uma ferramenta da economia circular"

As palavras são de Rui Nunes, presidente da Portugal Insect, que acredita na utilização de besouros, grilos ou gafanhotos como base de uma alimentação sustentável. O DN foi espreitar o que reserva a mesa do amanhã.

Há menos de um século, em 1927, existam cerca de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo. Hoje somos mais de 7,7 mil milhões a habitar o planeta Terra. A este ritmo, consideram os especialistas, não será possível alimentar toda a população mundial. A solução, acredita o presidente da Portugal Insect, estará na utilização de insetos como base para a alimentação humana, nomeadamente através da produção de farinhas ricas em proteína. "Temos que deixar de olhar para o inseto como uma coisa estranha e esquisita. Isto é o futuro, porque faz a ligação entre pontas da cadeia de valor que estavam desconexas", explica Rui Nunes em entrevista ao DN. Mais do que uma experiência gourmet, o consumo destes alimentos pode ser a chave para atingir alguns dos 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030.

É, aliás, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) uma das entidades internacionais que defende a introdução de insetos na gastronomia ocidental. As vantagens são claras, diz. "Os insetos são alternativas nutricionais e saudáveis a opções comuns como o frango, porco, vaca e até peixe", escreve a FAO num relatório de 2013 sobre o tema. José Gonçalves é cofundador da The Cricket Farming Co, uma das várias empresas portuguesas que está a postos para entrar neste mercado assim que os obstáculos burocráticos desapareçam. "Do ponto de vista nutricional, os insetos são um recurso excelente, na medida em que os teores de proteína podem ser acima dos 70%", revela o responsável. Em complemento, é um produto com "vantagens brutais no que toca ao consumo de alimento pelo inseto, ao consumo de água, à quantidade de espaço ocupado ou ao volume de emissões de gases com efeitos de estufa", explica.

Mas se os benefícios para a alimentação humana e para o planeta estão aferidos, por que razão não temos ainda bolachas, massas ou patés de inseto nas prateleiras dos supermercados? A resposta está em 2018, altura em que entrou em vigor a alteração legislativa da Comissão Europeia que colocou os insetos na lista de novos alimentos, o que implica a demonstração, através de dossiês técnicos, da sua segurança alimentar para que a comercialização seja permitida em toda a Europa. No entanto, o que países como a Holanda ou a Bélgica, onde estes produtos já eram vendidos, optaram por fazer foi aderir a um período transitório, que permite o seu consumo enquanto os novos requisitos não são cumpridos. "Nos países do Sul, os respetivos organismos fizeram uma interpretação mais restrita e disseram que ou os produtos são considerados seguros ou não são", lamenta Rui Nunes.

Os insetos são alternativas nutricionais e saudáveis a opções comuns como frango, vaca e até peixe.

Desde janeiro que a comercialização e ingestão de produtos à base de besouro (tenebrio molitor) está autorizada pela Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA), mas a empresa que submeteu o pedido de avaliação patenteou o processo que permite a utilização deste inseto de forma segura. Desta forma, será necessário descobrir uma forma alternativa de o processar para que outros empreendedores possam comercializar os seus produtos.

Por um mundo melhor

Todos os anos Portugal desperdiça cerca de uma tonelada de alimentos, enquanto na União Europeia o valor dispara para 89 toneladas. São alimentos que reúnem condições de segurança para serem consumidos mas que acabam no lixo. Além disso, os desperdícios em toda a cadeia de valor acumulam-se desde a agricultura à mesa, algo que o inseto pode ajudar a resolver. "A Europa não produz proteína suficiente para si, estamos a ter escassez de proteína porque estamos totalmente dependentes da América e da Ásia", diz Rui Nunes. "O inseto é uma ferramenta da economia circular", afirma, porque pode alimentar-se do desperdício dos humanos, reter os nutrientes e ser transformado em farinha para produzir "quase todos os alimentos processados" que existem.

A The Cricket Farming Co já desenvolveu uma "bolacha crocante com incorporação de farinha de grilo", um produto "rico em proteína, isento de glúten e com baixo teor de açúcar", adianta José Gonçalves. Falta, contudo, a autorização para iniciar a comercialização. Na Alentejo Bugs, projeto de Ricardo Vítor, a curiosidade pelo tema levou à criação de uma pequena unidade de produção de tenebrio, que seria utilizada mais tarde como fonte de matéria-prima para o desenvolvimento de produtos alimentares. Porém, o seu fundador diz-se "cansado" das "barreiras" burocráticas impostas, que cada vez mais o afastam do investimento neste nicho de mercado. "As empresas que existem vivem momentos de tormenta económica, porque não sabem se vão vender amanhã ou daqui a um ano. Muitas fecham se não venderem em breve", diz o presidente da Portugal Insect. Ainda assim, Rui Nunes mostra-se confiante de que o desbloqueio aconteça nos próximos meses.

dnot@dn.pt

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