Centro Europeu pede a países que pensem no acesso a vacinas antes de proteger crianças

Documento de 1 de junho do ECDC reafirma que vacinação contra covid-19 em crianças e jovens tem benefício reduzido. Espanha quer avançar. Portugal está a avaliar a situação e pediu pareceres à pediatria. A decisão é conhecida em breve.

A mensagem do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) é clara e consta de um documento dirigido à União Europeia e às autoridades de saúde todos os Estados-Membros, no dia 1 de junho: "Dada a reduzida relação risco-benefício individual estimada para a vacinação de crianças e jovens, em comparação com outros grupos de idade mais avançada, a vacinação destes deve ser considerada no contexto mais amplo da estratégia de vacinação contra a covid-19 para toda a população, incluindo objetivos gerais, execução e prioridades".

O ECDC esbate assim quaisquer dúvidas sobre o que deve ser feito relativamente a esta faixa etária, considerando, no entanto, que crianças e jovens de risco são prioritários na vacinação, referindo ainda que este documento tem como objetivo esclarecer "o potencial impacto que a vacinação contra a covid-19 pode ter em geral na saúde pública e nos benefícios individuais e riscos dos jovens".

A posição da autoridade europeia surge depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter lançado já vários apelos aos países mais ricos, que anunciaram que irão vacinar crianças e jovens, para que não o façam e que doem tais vacinas ao seu programa de vacinação solidário, Covax, de forma a vacinar populações de risco nos países mais pobres e muito atrasados no combate ao vírus. Numa nota publicada a 14 de maio, a OMS refere mesmo que a decisão de vacinar crianças e jovens configura uma "catástrofe moral" em relação aos mais pobres.

Nesta sexta-feira, a autoridade de saúde das Nações Unidas voltou a fazer o mesmo, reiterando que a vacinação de crianças e jovens "não é prioritária", fundamentando com estudos existentes sobre relação risco-benefício e com a opinião de muitos especialistas que defendem que "as crianças não deveriam ser o foco dos programas de imunização à covid-19, mesmo com um número crescente de países ricos a autorizar a vacinação contra o coronavírus em adolescentes e crianças".

Mas há vários países que já anunciaram que o vão fazer. Canadá e Estados Unidos da América até já começaram. Aliás, em pouco mais de um mês os EUA vacinaram 2,5 milhões de menores, entre os 12 e os 15 anos. Israel, Reino Unido e China já manifestaram a mesma intenção, tendo a China, país onde o coronavírus foi detetado no final de 2019, anunciado neste sábado que aprovou uma autorização de emergência para que os mais novos sejam vacinados com uma das suas vacinas, a Sinovac.

Em Portugal, 111 373 crianças e jovens, dos zero aos 19 anos já tiveram covid-19. Na faixa etária dos zero aos 9 anos, há 42 064 infetado. Na dos 10 aos 19 há 69 309.ham entre

Na Europa, a Espanha anunciou sexta-feira que também quer avançar com este processo antes do início do próximo ano letivo. Segundo a ministra da Saúde, Carolina Darias, há uma proposta do governo que vai ser apresentada à comissão técnica que valida estas decisões para serem vacinadas crianças entre os 12 e os 17 anos, antes do novo ano escolar.

Em Portugal, a questão está a ser debatida. O DN sabe que a Comissão Técnica de Vacinação está a avaliar vários cenários há algum tempo e que já pediu "vários pareceres a peritos da área pediátrica". A mesma fonte referiu que "a decisão pode ser tomada em breve".

As farmacêuticas têm vindo a procurar candidatos a partir dos seis meses para aumentarem os ensaios nas faixas etárias mais jovens, mas, neste momento, a Pfizer a Moderna e a Janssen garantem que as vacinas produzidas para adultos têm uma eficácia de mais de 80% nas faixas etárias dos jovens. No entanto, no Canadá, nos EUA e na União Europeia só a vacina da Pfizer/BioNtech está aprovada para crianças, após terem sido conhecidos os resultados da fase III de um ensaio que envolveu 2200 jovens, entre os 12 e os 15 anos, em que a eficácia na produção de anticorpos foi de 100%.

É uma questão ética vacinar crianças e jovens?

A grande questão relativamente às crianças é que a covid-19 as afeta muito pouco. E quando afeta não é numa forma grave da doença. Contudo, há especialistas que indicam que estas podem ser um 'reservatório do vírus'. Ou seja, "um veículo de transmissão", embora registem uma carga viral muito baixa. Por tudo isto, é que a questão que se tem vindo a colocar desde o início do processo de vacinação em relação às crianças é: "Será ético vacinar as crianças contra a covid-19, quando o vírus ainda circula abundantemente nos países pobres por não terem acesso às vacinas?".

Contudo, a adoção desta medida nos países ricos também está fundamentada na opinião de especialistas, que defendem: "Embora de uma maneira geral o SARS CoV-2 não afete as crianças, é um risco deixá-las de fora do processo de inoculação, tanto para a sua saúde como para a de todos, precisamente por se poderem tornar 'um reservatório' a partir do qual o vírus poderá voltar a atacar".

Nos países desenvolvidos, crianças e jovens representam cerca de 20% da população. Uma percentagem que sobe para 50% nos mais pobres, nomeadamente em países de África. Mas, nesta parte do globo, a esmagadora maioria da população idosa não está vacinada. Daí que, repetidamente, a OMS refira que enquanto o vírus circular nestes países "a pandemia não acabou".

573. Este foi o número de infeções registadas ontem. Houve ainda três óbitos. Lisboa teve mais de 60% do total de casos. A incidência é de 69,8 a nível nacional e o R(t) 1.08, mas 1.10 no Continente.

O documento do ECDC deixa claro que só "a vacinação de crianças e jovens com alto risco de desenvolverem covid-19 de forma grave é que deve ser considerada uma prioridade", especificando ainda: "Os benefícios gerais da vacinação de crianças e jovens dependerão principalmente da incidência do SARS CoV-2 e da prevalência de condições subjacentes que possam aumentar o risco de covid-19 grave nesta faixa etária".

O ECDC sublinha que a evidência científica apurada revela que "os benefícios diretos individuais na vacinação contra a covid-19 em adolescentes é limitada em comparação com grupos de idade mais avançada", concluindo que "dada a reduzida relação risco-benefício individual resultante da vacinação, a vacina deve ser administrada a grupos de idade mais avançada antes de chegar aos mais novos".

Os peritos europeus consideram importante continuar a monitorizar a disseminação de variantes preocupantes entre os indivíduos jovens bem como a carga viral que estes absorvem e até as sequelas que podem vir a ser registadas".

Mas, no final, a mensagem é a mesma: "As questões de equidade relativas à disponibilidade e acesso da vacina devem ser cuidadosamente consideradas ao decidir-se a expansão da vacinação contra a covid-19 para grupos com menor risco individual de doença grave".

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