Carvalho da Silva. Teletrabalho em emergência não é modelo para futuro

O sociólogo Manuel Carvalho da Silva e ex-dirigente da CGTP considera que o teletrabalho é uma situação de exceção e emergência e como tal não deve servir de base para o futuro trabalho remoto, porque penaliza os trabalhadores.

"Estamos, neste ano que se completa, a viver um tempo de exceção e emergência, onde se enquadra o teletrabalho, e o retorno à normalidade não existe, pois não há regresso ao passado", disse Carvalho da Silva à agência Lusa.

O ex-sindicalista reconheceu que o teletrabalho "está com uma certa dimensão, neste quadro de exceção e emergência", mas lembrou que este regime é regulado pela legislação que já existia, "o que é insuficiente".

"Não tomemos esta situação de exceção como base para o futuro, pois não podemos ter um futuro dominado por um clima de exceção"

"Não tomemos esta situação de exceção como base para o futuro, pois não podemos ter um futuro dominado por um clima de exceção", afirmou.

Para Carvalho da Silva, a utilização do teletrabalho desde o início da pandemia da covid-19, em março de 2020, "tem tido uma regulação unilateral, com a entidade patronal a mandar, tanto no setor privado como no público, e os trabalhadores sujeitam-se a isto devido à situação de exceção e emergência e à ameaça de desemprego".

Admitindo que o teletrabalho vai ter continuidade após a pandemia, o sociólogo defendeu, por isso, que se deve discutir o que se está a passar atualmente e "arrumar as ideias para que os trabalhadores não sejam prejudicados no futuro".

"Vamos viver tempos de reorganização do trabalho e da forma da sua prestação", disse.

O antigo líder da CGTP lembrou que o teletrabalho está a ser aplicado como uma parte apenas do trabalho remoto e que está inserido num contexto marcado por questões económicas e sociais, que vai resultar em mais desemprego e mais fragilidade para os trabalhadores.

Num contexto de desemprego, a tendência poderá ser de reduzir a remuneração do teletrabalho, o que é inaceitável"

"A economia sofreu abalos e as remunerações e os direitos dos trabalhadores também. Num contexto de desemprego, a tendência poderá ser de reduzir a remuneração do teletrabalho, o que é inaceitável", considerou.

Carvalho da Silva citou a propósito um estudo da OIT, que refere que o conjunto dos trabalhadores em plataformas digitais recebe em média 3,2 dólares por hora.

Diferenciar tempo com a família

O investigador social alertou ainda para o facto de muito do teletrabalho estar a ser feito sob pressão e referiu que já existem casos de grandes grupos empresariais e de serviços públicos que eliminaram os espaços físicos onde funcionavam os trabalhadores que agora trabalham em casa.

"é essencial diferenciar o tempo de trabalho do tempo das famílias e compensar os custos acrescidos para o trabalhador que cumpre as suas funções em casa"

Para Carvalho da Silva não é possível discutir o teletrabalho sem pensar nas pessoas que o fazem, porque "é essencial diferenciar o tempo de trabalho do tempo das famílias e compensar os custos acrescidos para o trabalhador que cumpre as suas funções em casa".

Carvalho da Silva, que atualmente coordena o Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social (CoLABOR), disse à Lusa que esta entidade está a preparar um estudo sobre teletrabalho para divulgar em breve.

Tendo em conta essa análise, o sociólogo referiu que apenas 34% dos trabalhadores portugueses têm condições para desempenhar as suas funções em teletrabalho.

Os restantes 66% não têm possibilidade efetiva de o fazer no curto prazo.

Segundo o ex-sindicalista são os trabalhadores mais qualificados que estão em teletrabalho, mas se o regime não for devidamente regulamentado e não forem salvaguardados os seus direitos eles podem perder condições de vida e de trabalho.

"Por tudo isto, tem aumentado a preocupação com os trabalhadores em teletrabalho, até porque tem vindo a aumentar o número de trabalhadores que não podem continuar em teletrabalho, tal como está, porque não têm condições para socialização e têm dificuldade crescente em organizar o trabalho com a sua vida familiar, para ter um ambiente minimamente estável", disse.

O investigador considerou ainda que o teletrabalho que está em vigor há cerca de um ano "estilhaçou a cultura organizacional de muitas empresas e serviços pois leva a um aumento de reuniões considerável e a ocupar mais tempo nessas reuniões, o que é muito desgastante".

"O tempo é das pessoas, o seu controlo é saúde, não podem perder isto"

"O tempo é das pessoas, o seu controlo é saúde, não podem perder isto. É fulcral esta discussão e defendo que os estudos que estão a ser feitos sobre as vantagens e inconvenientes do teletrabalho, para trabalhadores e empresas, devem deixar pistas para melhorar as condições de prestação do trabalho remoto, porque no futuro tem de ser diferente", afirmou Carvalho da Silva.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG