Cama, comida e roupa lavada. Razões para idosos no Japão cometerem crimes

35% dos furtos em lojas japonesas são realizados por pessoas com mais de 60 anos. Em Portugal há 693 presos nesta faixa etária

Os idosos japoneses estão desesperados por ir parar atrás das grades. O conforto de ter cama, comida e roupa lavada na prisão, para além dos cuidados de saúde garantidos, está a atirar muitos anciãos para o mundo do crime. Segundo artigos publicados na imprensa internacional, as estatísticas da criminalidade no Japão mostram que 35% dos furtos em lojas no país são cometidos por pessoas com mais de 60 anos. Nessa faixa etária, 40% dos reincidentes cometeram o mesmo crime mais de seis vezes.

O fenómeno não tem paralelo em Portugal, apesar de o número de idosos a cumprirem penas de prisão no nosso país ter vindo a subir nos últimos anos. Segundo as estatísticas prisionais de 2014 (as últimas anuais publicadas no site da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais), as cadeias portuguesas acolhem 693 reclusos com 60 e mais anos (654 homens e 39 mulheres). Muitos cometeram um crime "de impulso" e as autoridades acreditam na sua reintegração. Quanto aos crimes que efetuaram, o espectro é variado: dos assaltos à mão armada aos homicídios, dos furtos simples à falsificação de documento.

É um segmento etário que representa apenas 5% da população prisional em Portugal (cifrada atualmente em 14.128 presos).

O "Xerife", 79 anos

Um dos reclusos mais "famosos" do sistema português é António Gonçalves, conhecido por "Xerife", 79 anos, líder do grupo criminoso "Mau Mau", que na década de 1990 fez vários assaltos à mão armada. Considerado um homem perigoso, o "Xerife" passou a maior parte da sua vida a entrar e a sair da cadeia, que acaba por ser o mais parecido com uma "casa" que ele conhece. Como este criminoso, muitos outros de respeitável idade voltaram vezes sem conta à prisão porque reincidiram, não resistiram ao apelo do crime, o que é mais frequente na área dos roubos. Apesar da população envelhecida em Portugal, o contexto ainda não é o mesmo que no Japão.

Atualmente, o condenado "Xerife" cumpre pena no Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz. Foi recapturado em 2011 pela GNR, numa operação Stop em 2011, à saída de Faro, depois de ter andado meses em fuga.

Tinha-se então evadido de Pinheiro da Cruz durante uma saída precária. Ainda lhe faltava cumprir parte de uma pena de 24 anos de prisão a que tinha sido condenado em 2000. Em 2013, num artigo sobre o tema então publicado no DN, o recluso mais idoso do país tinha 85 anos. Mas a direção geral da Reinserção e Serviços Prisionais não adiantou em que cadeia estava ou qual o crime que cometeu.

A crise no Japão explica tudo

Mas no Japão é diferente. O país está a ser atirado para uma crise orçamental séria, devido ao envelhecimento da população e à rutura do Estado social.

O país está a ser atirado para uma crise orçamental séria, devido ao envelhecimento da população e à rutura do Estado social, segundo um artigo publicado recentemente no Daily Mail.

Mesmo com uma dieta frugal e um alojamento barato, um reformado japonês com as poupanças mínimas tem um custo de vida 25% superior à magra pensão estatal (de 6900 euros anuais) que aufere, segundo um estudo económico do crime na terceira idade desenvolvido por Michael Newman, do centro de sondagens Custom Products, sediado em Tóquio, capital do Japão. Para mais, vivem numa sociedade hedonista e das mais consumistas do mundo.

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