Pedro Galego: "Atendemos os casos oncológicos, mas a patologia benigna fica para trás"

Pedro Galego, urologista, lamenta a falta de profissionais na região do Alentejo e diz que esta se deve não só a incapacidades administrativas e financeiras de recrutamento, mas também com a parca oferta de condições atrativas para fixar os médicos. Acompanhamento de doentes com problemas na próstata acaba por ser penalizado.

Carlos Raleiras
Pedro Galego diz que um novo hospital em Évora fará toda a diferença na região e um ótimo incentivo para fixar jovens e especialistas.© DR

"Mesmo nos casos urgentes, a urologia em Évora não consegue responder em menos de um mês", afirma o urologista Pedro Galego questionado sobre o tempo médio para uma consulta de especialidade naquela região. No âmbito do projeto "Próstata de Lés a Lés", desenvolvido pelo DN, JN e TSF, o médico aponta os parcos recursos humanos em Évora, e no Alentejo em geral, como o principal fator de queixa sobre as condições de trabalho e acompanhamento de doentes com problemas na próstata. A situação, explica, tem vindo a agravar-se e são as doenças benignas que são deixadas para trás. "Os casos oncológicos são cada vez mais frequentes e dedicamo-nos tanto a eles que não conseguimos dar resposta aos outros doentes". O resultado é o recurso à medicina privada para obter tratamentos e um receio generalizado na população que se sente desprotegida pela falta de acompanhamento, admite.

A falta de profissionais na região está relacionada não só com incapacidades administrativas e financeiras de recrutamento, mas também com a parca oferta de condições atrativas para fixar os médicos. A expectativa é que o, tão apregoado e muito adiado, novo hospital de Évora possa resolver parte dos problemas quando estiver a funcionar. Pedro Galego, em tom de brincadeira, diz esperar que as notícias do arranque das obras não sejam mais "um mito tal como o tema da próstata que envolve sempre muitos mitos e desinformação. Talvez o mito se torne agora realidade".

As feições do rosto retomam a seriedade quando afirma que o Alentejo está à espera há mais de 20 anos. "Um novo hospital em Évora fará toda a diferença na cidade e em toda esta grande região. A infraestrutura e as novas condições técnicas seriam um ótimo incentivo para chamar e fixar aqui jovens especialistas que se queiram deslocar do litoral para o interior. A falta da nova unidade, por tudo o que representa, é a grande lacuna que temos"

"Chegam à consulta completamente às escuras"

"É um mito na população, e não só aqui no Alentejo, afirmar que os doentes submetidos a intervenções cirúrgicas à próstata vão ter incontinência urinária e disfunção erétil", garante o urologista, que já trabalhou no Hospital do Espírito Santo de Évora e atualmente exerce no Hospital da Misericórdia de Évora, explicando de imediato que a tecnologia tem hoje capacidades que resultam em grandes taxas de sucesso. "O avanço no sentido prático da operação tem sido enorme e os resultados mostram isso. Pouco a pouco conseguimos demonstrar essa realidade e a ajuda do passar a palavra, boca a boca, melhora o conhecimento da população". Ainda assim, o especialista defende a necessidade de alertar a população para as questões de prevenção. "É um assunto que ficou esquecido no domínio público e raramente vem para a comunicação social".

Sobre a caracterização da população de Évora em termos de literacia para a saúde e concretamente para o cancro da próstata, generaliza-a e compara-a à restante população alentejana. "Está envelhecida e pouco informada. Quando os homens chegam a uma consulta de urologia vêm completamente às escuras. Habitualmente são encaminhados pelo médico de família, mas quando chegam nem sabem bem porque é que lá estão".

Valorizar o Exame PSA

Se a sociedade precisa de estar mais atenta e receber informação de qualidade sobre questões de saúde, também a medicina geral e familiar necessita de apoio, pelo menos assim pensam os urologistas. Neste caso, Pedro Galego deixa um apelo relacionado com o novo paradigma da prevenção do cancro prostático, que não estando convencionado aposta, cada vez mais, no rastreio que deve começar nos cuidados primários de saúde. "Custa-me perceber que são gastos rios de dinheiro a pedir valores de glicemia, valores de colesterol, de triglicéridos e uma análise tão simples ao PSA, que pode fazer toda a diferença para detetar casos, fique de fora quando o médico de família pede análises ao sangue".

Com o novo conceito à luz dos mais recentes desenvolvimentos científicos, o objetivo da urologia passou a destacar o que considera o real valor do exame PSA, o antigénio prostático específico, usado na generalidade para rastrear homens assintomáticos a partir dos 45-50 anos. Quanto mais precoce for o exame e a deteção dos casos mais possibilidades terapêuticas existem para tratar esses doentes. A nova corrente em defesa da valorização do PSA é recente e deita por terra ideais que há mais de uma década vinham a fazer caminho. Os especialistas estão agora a pedir aos pares da medicina geral e familiar uma nova atitude. Pedro Galego até exorta a Associação Portuguesa de Urologia a fazer eventos direcionados e encetar sessões clínicas, com objetivos de alterar os conceitos e as práticas ainda em voga, para otimizar o padrão de prevenção na saúde prostática.

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