Ameaça da variante indiana reforça a importância da segunda dose

Primeiras doses das vacinas da Pfizer e da AstraZeneca conferem apenas 33% de eficácia contra essa variante. Imunologista sublinha importância de acelerar a vacinação.

Um relatório da agência de saúde pública do Reino Unido (PHE - Public Health England) veio confirmar a eficácia das vacinas da AstraZeneca e da Pfizer também contra a variante indiana do vírus SARS-CoV-2, mas deixou um alerta importante: só a segunda dose de vacinação confere de facto uma imunização eficaz contra a linhagem B.1.617.2 dessa variante, pois nas pessoas com apenas uma toma a eficácia cai para a ordem dos 33%, tanto numa como noutra vacina, o que constitui uma ameaça ao sucesso dos programas de vacinação em curso.

Em Inglaterra, os dados são mais relevantes (e preocupantes) porque essa variante já conseguiu mesmo tornar-se a predominante no país, onde superou inclusive a própria variante inglesa (cientificamente designada por B.1.1.7). Em Portugal, a presença da variante indiana é ainda residual, segundo o último relatório de monitorização das linhas vermelhas para a covid-19, publicado pelo Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA) e pela Direção-Geral da Saúde (DGS) a 21 de maio: só dez casos foram detetados até agora e não parece haver transmissão comunitária ativa.

No entanto, este estudo da agência de saúde pública do Reino Unido veio "reforçar a importância de assegurar a vacinação com as duas doses, no caso da Pfizer e da AstraZeneca, o mais rapidamente possível, para garantir uma proteção contra esta variante indiana", sublinha o imunologista Nuno Alves, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia. "Uma dose não é suficiente."

No Reino Unido, que tem um dos programas de vacinação mais avançados, ainda só cerca de 33% da população tem a vacinação completa e o número de novas infeções voltou a aumentar na última semana, depois de algumas semanas a baixar, o que os especialistas atribuem a uma combinação entre o avanço do plano de desconfinamento e a disseminação da variante indiana. Além da capacidade acrescida para escapar à ação da primeira dose das vacinas, esta variante B.1.617.2 revela, segundo o estudo publicado pela agência PHE, uma transmissibilidade superior na ordem dos 50% face à variante inglesa (já de si mais transmissível do que a original). O que, com quase 70% da população ainda vulnerável (com uma ou nenhuma dose da vacina tomada), é uma ameaça com potencial para vir a gerar uma nova vaga da pandemia no país, temem vários especialistas britânicos citados.

Em Portugal, onde o programa de vacinação contra a covid-19 está mais atrasado, a população está naturalmente mais suscetível a essa ameaça - só 16% dos portugueses tomaram as duas doses das vacinas. E se essa ameaça não parece muito séria nesta altura, em que apenas foram detetados dez casos da variante indiana no país, "é importante estar mais preparado" para a enfrentar, reforça Nuno Alves, numa altura em que até, ao contrário do que acontece com outros países, foram retomados os corredores turísticos com o Reino Unido e outros países onde esta variante indiana já circula.

Nuno Alves salienta que este estudo "é inovador" porque, por um lado, "é o primeiro a assegurar a eficácia das vacinas face à variante indiana, com a toma completa", e, por outro lado, vem acrescentar este fator que "altera, de alguma forma, os elementos disponíveis para o debate sobre o plano de vacinação", diz. O investigador do Instituto de Inovação em Saúde i3S, do Porto, lembra que ainda há poucas semanas "a discussão se fazia sobre a possibilidade de alargar o intervalo entre doses das vacinas, de forma a inocular com a primeira dose o maior número possível de pessoas, conferindo-lhes uma boa taxa de imunização face às variantes existentes na altura".

Agora, os dados publicados pela agência de saúde pública inglesa mostram que "face a esta variante indiana - e até face à inglesa, que é predominante em Portugal -, é importante respeitar os prazos recomendados entre doses, de forma a conferir eficácia à imunização e não permitir que essa variante se possa disseminar". O estudo da PHE indica que a primeira dose da Pfizer/BioNTech apresentou 33,2% de eficácia face à variante indiana (B.1.617.2) e 49,2% face à variante de Kent, ou inglesa (B. 1.1.7), enquanto a primeira dose da AstraZeneca apresentou 32,9% e 51,4%, respetivamente. Nas segundas doses, a eficácia aumenta consideravelmente: 87,9% para a variante indiana e 93,9% para a inglesa, no caso da Pfizer; e 59,8% para a indiana e 66,1% para a inglesa, no caso da AstraZeneca.

O vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia frisa que "os intervalos entre doses devem ser respeitados", tal como está atualmente em vigor em Portugal - 28 dias nos casos da Pfizer e da Moderna; 12 semanas na AstraZeneca -, e defende que a "vacinação cruzada deve ser encarada como mais um recurso disponível, quando não for possível completar a toma das duas doses com a mesma vacina", questão que se coloca a muitas das pessoas que levaram a primeira dose da AstraZeneca, por exemplo.

De resto, reforça a importância de "continuar a monitorizar a presença da variante indiana" no nosso país, com a implementação da testagem massiva nos locais suscetíveis a maior disseminação, sejam as zonas turísticas ou de maior circulação e concentração de populações ativas, como foi na terça-feira divulgado para a região de Lisboa e vale do Tejo.

Mas Nuno Alves também considera que não é provável que o país possa enfrentar uma nova vaga como a que ocorreu em janeiro. "Devemos ver estes dados de forma cautelosa. O cenário de vacinação nesta altura é diferente, já temos os grupos de risco com as duas doses em taxas avançadas, por isso uma nova vaga não teria nesta altura efeitos tão catastróficos. Além disso, temos as ferramentas de vigilância e monitorização necessárias para ir controlando o evoluir da situação, com a testagem e o avanço do plano de vacinação. O mais importante é isso: vacinar o mais rapidamente possível com as duas doses o máximo número de pessoas, para evitar a disseminação destas novas variantes e a ameaça de novas mutações que possam ser ainda mais perigosas."

rui.frias@dn.pt

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