Alice no país dos lápis cor de pele

Um poema sobre uma criança que na escola descobre que o "lápis cor de pele" não é da cor da sua pele correu redes sociais de aquém e além-mar, moveu e comoveu e fez dela, Alice Neto de Sousa, estrela instantânea, inundada de pedidos de entrevista, de palestras em escolas, até reconhecida na rua. "Agora vou desaparecer por uns tempos", promete. Aproveitemos então.

Foi de um dia para o outro. "Vinha do trabalho tarde - de noite - e um rapaz sentou-se ao meu lado no metro e disse "olá". Eu: "Conheces-me?". Ele: "Sim, és a poeta.""

Ri (rirá muito, em gargalhadas súbitas, sonoras, alegres, às vezes irónicas, ao longo da conversa).

A poeta, porque é assim que se diz e quer que a digam (não gosta da palavra poetisa), Alice Neto de Sousa, 28 anos. De repente reconhecida na rua, milhares de seguidores mais no Instagram, jornalistas em fila nas mensagens, tanta gente a partilhar-lhe as palavras em deslumbramento e comoção, a perguntar: "Como é que não a conhecíamos? Que andamos nós a fazer mal?"

Não conhecíamos quem, pode-se começar por perguntar. Não a conhecíamos os que não veem a RTP África, onde ela há um ano fala de poesia, no programa Bem-vindos. Não a conhecíamos os que não assistem aos espetáculos de poesia em que ela sobe ao palco; não a conhecíamos os que não assistiram à gala da Bantumen, revista digital "dedicada à cultura negra da lusofonia", que teve lugar a 13 de dezembro no Teatro São Luiz, e na qual ela disse pela primeira vez o poema que a fez - usemos esta palavra parva - famosa.

"Escrevi-o para aquele dia da gala e lembro-me de pensar: "Este poema não é para ser dito em qualquer lugar". Mas como teve um bom efeito pensei que podia dizê-lo na RTP: "Vou começar em janeiro com este grito.""

E começou.

"Eu era pequena. Escola primária, inocente, mas curiosa nas palavras. Peguei nos lápis - aqueles com todas as paletas de cores: amarelo torrado, azul marinho. Cores.

Com o lápis na mão, sem nem esconder a minha confusão, olhei para o lápis e para mim.

Que eu ainda era da altura de a língua afiar, tocar os sinos presos na garganta, dizer o que sinto - e me espanta.

Professora?

Sim?

O que raio é um lápis cor de pele?

Levei uma reprimenda. Uma criança de tão tenra idade a questionar a autoridade?

E olhava para o lápis, olhava para minha pele - olhava fixamente para aquele lápis cor de pele.

Poeta.

Naquele dia desisti de falar de unicórnios e fazer citações porque ser-se poeta é falar de emoções. (...) Porque naquele dia fizeram de mim uma poeta cor de pele, de lápis cinza, aguçado, acastanhado no nevoeiro dos mares dantes e sempre navegados. (...)"

"Encontrei a rapariga"

O início é doce, lento, espantado. Nesta voz de rosto liso e sílabas desenhadas, que depois acelera na cadência e na urgência, na fúria e na dor, na dança das mãos, da raiva. Como um rap. Sorri: "Sim, Já me disseram que não escrevi um poema, escrevi uma música, que ficava bem um beat por baixo daquilo." E há. "Gosto de escrever ao som de música, e oiço muitas vezes a mesma em loop, ajuda-me a entrar num certo espaço interior. Enquanto estava a escrever este poema ouvia o Esquinas do Dino d"Santiago."

Foi este poema Poeta -- é assim que se chama - que, no vídeo de má qualidade que alguém fez filmando na televisão aquele programa de 19 de janeiro, deu a volta, senão ao mundo, pelo menos à África lusófona e à sua diáspora, um cometa com uma cauda de posts, comentários, reflexões, whatsapps, voltando ainda incandescente a Portugal. E a Alice.

"No sábado 22 tinha aula de língua gestual portuguesa [é licenciada e mestre em reabilitação psicomotora, e interessa-se muito pela surdez] e o professor mostrou-me o vídeo. O giro é que ele é surdo, não sabia o que eu estava a dizer, e perguntou: "Não és tu?" Perguntei de onde vinha e ele disse que tinha amigos em África que lho enviaram. Foi aí que comecei a perceber que aquilo andava a circular. E que as pessoas andavam à minha procura, não sabiam quem eu era. Houve alguém que me identificou no Instagram com "encontrei a rapariga". Havia reflexões nos comentários. Era como se o poema tivesse aberto uma janela."

Um rasgão.

"(...) Ignorar o vazio do mundo, fazer dos ouvidos mudos. Porque preferem um poema com o sol no canto do papel, as nuvens pintadas a azul, sem a dor no fundo. Falar do que incomoda? Andar a afiar a língua? Que é que isso importa? (...)"

Importou. "Às tantas vou fazer compras no supermercado e perguntam-me "como é que estás a lidar"? E eu: a lidar com o quê? Contaram-me que estava a ser muito partilhado no Twitter. Mentiria se dissesse que não esperava impacto, só que não tão grande." Mas é um poema de, como antes se dizia da música contra a ditadura, intervenção. "Para gerar reflexão, sim, para ser dito de uma certa maneira. É algo mais de um cariz social. A minha ideia vai ser esta, pensar em questões sociais - descobri que é um caminho interessante. O que quero mesmo fazer é quebrar as bolhas. Levar a refletir."

"Houve uma identificação com aquela mágoa"

Agora, por exemplo, está "a escrever às prostitutas do Martim Moniz". Às e não sobre as, sublinhado. Pensa aliás tentar falar com algumas destas pessoas; houve quem lhe dissesse "estás a pensar uma coisa, a criar uma imagem, e podes estar completamente enganada." Ela concorda: "Não as conheço. Só sei do meu olhar sobre elas."

A ideia surgiu por acaso: estava a pensar num poema sobre o tempo - tão curto - que as borboletas vivem, viu uma dessas mulheres, e quis olhá-la. O que encontrou foi um olhar vazio. "Um olhar sem trago", diz no poema que resultou desse encontro, e ao qual deu o nome Capital. Um poema que recusa enviar ao jornal, mesmo se já o disse publicamente, em palco, num espetáculo/concurso de poesia (do movimento Poetry Slam, ou, à letra, Batida de Poesia, que, com origem nos EUA, em Chicago, nos anos 1980, e muito influenciado pelo hip hop, tem em Portugal organizado vários eventos).

Também não reage bem quando lhe é dito que Poeta, do qual não se encontra uma versão escrita na net, que nunca foi publicado, foi passado a texto, com os eventuais erros e imprecisões de uma transcrição "selvagem", para este artigo, para que quem o está a ler possa, a partir de excertos, saber do que se fala, o que criou o bruaá. "Sei que o poema está aí, que qualquer pessoa pode copiá-lo, mas faz-me impressão."

Mesmo se a encantou o vídeo que uma mãe, depois de a ouvir com a filha dizê-lo em palco e de terem ido as duas falar com ela, lhe enviou, no dia seguinte, da menina a fazer o ditado do poema: "Foi muito importante para mim."

E o primeiro, como foi, quando, sobre o quê? Não se lembra. "Só da reação: foste tu que escreveste?" Também não recorda ter sido especialmente encorajada a escrever, por professores ou alguém mais. Reflete: "Ah, por acaso no secundário escrevi uma coisa que teve sucesso, um conto. Escrevi-o para a minha turma e os personagens eram os meus colegas. E morriam todos." Ri. "Chamava-se Acredite-se ou não. Fiz a parte um e pediram a parte dois, gostaram muito. Mas como já tinham morrido todos na primeira não foi tão gira a segunda."

Do que se lembra é da revelação da poesia, com Florbela Espanca e o Livro das Mágoas, que aprendeu de cor. "Partilhava quarto com a minha irmã mais velha [são quatro raparigas] e ela tinha trazido o livro da biblioteca ou uma amiga emprestara. E peguei nele e senti uma identificação. Com aquela mágoa, a tristeza, a dor."

A poesia veio assim. "Para tirar de dentro do peito a emoção, de dentro de mim. E ficar ali, como forma de contenção - se quiser volto, se não quiser não volto." Mas também "para inspirar. É a parte da partilha - porque podia escrever só para mim, não é? Pode haver a possibilidade de inspirar alguém, da identificação, de a minha inquietação ser a de outra pessoa. A poesia é quase um propósito."

"(...) A minha língua é o lápis onde escrevo a cor dos meus sentimentos. (...)"

E prosa? "Tenho contos escritos mas é nos poemas que me sinto mais confortável. É preciso rigor mas sinto-me mais livre. Se calhar é só porque insisti mais."

"Quem me dera ser tão brava como acham que sou"

É uma conversa por tu. É assim que responde à primeira abordagem, nas mensagens do Instagram. Uma das muitas centenas que recebeu e às quais deu troco, garante, sem exceção.

Mas apesar da sua evidente vontade de comunicar, de se fazer conhecer, da sua tão alegre disponibilidade, há nela uma reticência, um ponto de fuga, uma reserva altiva.

"De repente tenho uma imagem pública, estão a criar retalhos de uma possível Alice." Tens de construir uma narrativa sobre ti. "Pois, mas não penso assim tanto sobre mim, e estamos sempre a mudar e em construção. Dizem tanto tempo que não podemos ter voz que temos de começar a aprender sobre como valorizar."

Não quer falar muito da família, por exemplo; limita-se a referir que tem "origens humildes", que ninguém lhe explicou que era importante ter boas notas para poder entrar no curso desejado, que a dada altura houve quem a incentivasse a fazer teatro mas, disse em entrevista à Mensagem, "não tinha recursos para ir até lá, onde era a audição, não podia ir comprar uma roupa nova nem maquilhagem."

E faz por evitar que a conversa se detenha no tema racismo, mesmo se é esse o motivo do tão forte impacto do poema e do seu súbito estrelato. Não quer que isso a defina: "Dei-lhes o meu grito, tenho muitos gritos."

Há motivo. É, ou pode ser, uma armadilha, uma prisão. Mesmo que seja impossível evitá-la, mesmo se não há como não reparar na forma como a origem da sua família - Angola, país onde nunca esteve - e o tom chocolate da sua pele de lisboeta nascida na antiga freguesia da Maternidade Alfredo da Costa (São Sebastião da Pedreira) determinam tanto nesta história, na sua história.

"(...) Falas tão bem português - fecho os olhos a engolir todos esses clichés. (...)"

Senão vejamos: quando em 2021 um poema seu, Terra, foi incluído numa coletânea brasileira de "versos pretos" e lhe emprestou, com a sua última linha, o título - Do que ainda nos sobra da guerra -, escreveu para jornais, rádios, televisões portugueses, para o fazer saber. Pensou: "Acho que fiz uma notícia, sou notícia. Como é uma coisa "lá de fora" talvez valorizem". A única resposta, porém, veio do programa Bem-vindos, da RTP África. A jovem poeta negra só encontrou interesse por si num canal direcionado para negros: foi lá como convidada em janeiro de 2021, e acabaram por lhe propor uma rubrica regular sobre poesia. Aquela na qual a 19 de janeiro disse Poeta - com de repente todos os lugares a cujas portas fechadas bateu a quererem saber dela.

E querem saber, queremos saber, porque, precisamente, o poema é sobre não se querer saber. Sobre a surdez e a cegueira que produzem os "lápis cor de pele" que excluem tantas peles, a surdez e a cegueira que criaram como tendência de moda o bege rosado e lhe chamaram "nude" (nu), e com ele vestiram modelos negras, sem sequer notar algo mais que a estética do contraste.

"(...) E eu sei: podia ser menos uma poeta a falar sobre racismo. Mas preferiam o quê? Que em vez do lápis a carvão pegasse uma arma na mão? (...)"

Coincidência, Alice, que na sua vida profissional se interessou por trabalhar com delinquentes juvenis, dedica-se agora também, justamente, a surdos-cegos. A mesma Alice que em criança, no início da escola, via tudo turvo devido a astigmatismo e miopia não diagnosticados e acha que a poesia também lhe veio por aí, desse esforço de ver, de reconhecer, quer "fazer por olhar". E por que olhemos.

"Mexer-nos por dentro", virar-nos do avesso, talvez. Como ela se vira, se virou, ao escrever, aos 28 anos, Poeta. "Tinha medo de levantar dentro de mim algo que dói. Nem sempre é fácil sermos bravos." Respira. "Quem me dera ser tão brava como as pessoas acham que sou."

Alice das maravilhas, neste país, deste país: "(...) Mãos ao alto, levanta a poesia. Esta poeta cor de pele já pintou a carta de alforria."

(Excertos em itálico pertencem ao poema Poeta.)

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