Afinal qual é o segredo do sucesso do curso de Engenharia Aeroespacial?

19,05 valores foi a nota do último aluno a entrar em Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico e que voltou a colocar este curso em primeiro lugar da lista de colocações. Para o coordenador do curso e um dos alunos, as razões deste sucesso vão desde a taxa de 100% de empregabilidade às muitas saídas profissionais que este dá e que não se limitam à área aeroespacial.

Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico voltou este ano a ser o curso com a média de entrada mais alta no ensino superior, com o último dos 124 alunos colocados a entrar com uma nota de 19,05 valores. Mas afinal o que faz deste curso tão atrativo para os alunos, que nem as notas altas os demove de concorrer e tentar entrar?

Um dos principais motivos parece ser a taxa de empregabilidade do curso. "De acordo com as informações no Portal InfoCursos, o número de recém-diplomados do curso que estão registados no IEFP é zero, pelo que não há desempregados nesta área", explica ao DN Paulo Oliveira, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e coordenador da licenciatura de Engenharia Aeroespacial. "Os formados encontraram desde sempre um mercado com mais procura do que oferta, resultando em pleno emprego, o que significa que todos os diplomados encontram emprego em menos de dois meses. Há ofertas de emprego antes de terminarem o curso, mas são desaconselhadas: é mais sensato concentrarem-se em completar os dois ciclos de estudo (licenciatura e mestrado), na certeza que não vão faltar empregos após a formatura."

Um dos alunos deste curso é Vítor Narciso, de 22 anos, que está a frequentar o 5.º ano. "Entrei em 2017, com média de 19,02, mas hoje em dia já não me safava", diz logo, entre risos. Vítor aponta, além da empregabilidade, outras razões para o sucesso da Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico, dando o seu exemplo pessoal. "A verdade é que eu nunca tive uma paixão enorme por aviões, nem por aeronaves em geral, mas há algo que a maioria dos candidatos a Engenharia Aeroespacial sabe e que é que o nosso curso dá saída para imensas áreas, quer seja para Engenharia Mecânica, Engenharia Eletrotécnica, programação, consultadoria, e obviamente o setor aeroespacial. E, como eu, na altura, apesar de ter uma média alta, não sabia bem o que queria fazer, embora gostasse de Matemática e Físico-Química, queria, no fundo, prolongar a minha escolha, e essa foi a principal razão que me levou a escolher Aeroespacial", conta o jovem ao DN, referindo que este curso foi a sua primeira opção.

O próprio sucesso do curso e o destaque lhe é dado nos meios de comunicação social ajuda também, na opinião deste aluno, a que o curso tenha ainda mais sucesso entre quem se candidata ao ensino superior. "Todas as vagas são preenchidas, mas comparando, por exemplo, com Medicina, nós não somos assim tantos. No Técnico somos cerca de 130, julgo eu, agora abriram a licenciatura em Engenharia Aeroespacial na Universidade de Aveiro, e aí temos também mais uns 30, mas a nível nacional não somos assim tantos. E acaba por ser um curso com muito fascínio, que as pessoas estão interessadas, e também os media têm dado a conhecer o curso quando ele aparece em primeiro nas classificações do último colocado. É normal que as pessoas tentem saber do que o curso trata e quanto mais pessoas se informam sobre o curso maior a probabilidade de quererem lá entrar."

E para Vítor Narciso existe ainda mais uma razão, esta relacionada com as saídas profissionais. "Existe o facto de haver agora bastante investimento na indústria aeroespacial em Portugal, temos já bastantes empresas. A maioria das pessoas não conhece, mas já temos uma meia dúzia de empresas que trabalham em aeroespacial cá, temos a nossa própria agência espacial, a Portugal Space, que vai começar a criar uma base de operações na ilha de Santa Maria, portanto acho que já existe uma base muito concreta para começar uma indústria aeroespacial em Portugal. E faz sentido que os alunos queiram convergir para esta área, porque já conseguem ter oferta."

Muitas saídas profissionais

O curso de Engenharia Aeroespecial foi criado em 1991, pelo professor Braga Campos, com um numerus clausus de 35 alunos, que foi aumentando até aos atuais 124 no Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. "O número de alunos e as notas mínimas têm sido crescentes. Esta nota foi desde o início das mais altas de todas as engenharias em Portugal e, nos últimos anos, a mais alta de todos os cursos universitários", recorda Paulo Oliveira, acrescentando que "o número de alunos que completaram a licenciatura em Engenharia Aeroespacial deve rondar os 1500".

O curso foi reformulado este ano pelo Instituto Superior Técnico, de acordo com o novo Modelo de Ensino e Práticas Pedagógicas 2021/2022, deixando de ser um mestrado integrado e passando a ter uma licenciatura de três anos e 180 créditos e um mestrado de dois anos e 120 créditos. Da parte dos alunos, algumas destas mudanças são aplaudidas, como explica Vítor Narciso: "Por exemplo, em vez de termos dois semestres por ano, vamos passar a ter quatro quarters, os semestres são divididos em duas partes, e isso penso que vai ser uma mais-valia, porque os estudantes não vão ter que se focar em tantas disciplinas por semestre. Em vez de terem de pensar em seis disciplinas por semestre, só têm de pensar em três de cada vez. Isto, principalmente nos primeiros anos, em que nós temos de contar com várias bastante distintas, como Química, Programação, Modelação 3D em Computador, Cálculo, são tudo áreas muito diferentes umas das outras, e, como são conhecimentos de áreas distintas, acho que pode ser um pouco complicado. Neste sentido, acho que vai melhorar o ensino da Aeroespacial e do Técnico em geral".

Mas será que, quando entrou para o Instituto Superior Técnico, em 2017, o curso de Engenharia Aeroespacial correspondeu às expectativas de Vítor Narciso? "Numas coisas sim, noutras coisas não. Eu já estava à espera que fosse bastante teórico e insistisse muito em Matemática e Físico-Química, pelo menos no início. Mas há coisas que me surpreenderam. Achei que ia gostar mais de Mecânica e depois aconteceu que é uma área da qual não gosto tanto, acabei por gostar mais de Eletrónica e de Programação. Mas isto é algo que só depois de estarmos em contacto com conhecimentos mais aprofundados de cada uma das áreas é que conseguimos tomar essa decisão e entender aquilo de que gostamos mais. E, nesse sentido, fui apanhado um pouco de surpresa, porque não estava à espera de gostar tanto dessa área."

Vítor Narciso já está no mestrado, ainda tem a tese pela frente, "mas, em princípio, um ano e pouco é o que falta" para sair do Instituto Superior Técnico com a formação em Engenharia Aeroespacial completa. A seguir, partirá para a vida profissional ativa. Mas ainda não sabe bem por onde passará o seu futuro, apesar de ter o conforto de saber que o seu curso tem uma taxa de empregabilidade de 100%. "Como eu disse, nós temos muitas saídas em aberto. Eu tenho-me restringido mais às áreas de Eletrónica e Programação porque é aquilo de que eu gosto mais. Tive um estágio neste verão numa empresa que tem sede em Lisboa e gostei muito da área em que estive, que era controlo de satélites espaciais. Em princípio, também vou fazer a tese nessa área, e gostava de trabalhar nessa área. Mas é como lhe disse, nós temos tudo em aberto. Se eu, porventura, vir que não é com isso que me identifico, posso procurar outras ofertas em áreas à volta daquilo de que eu gosto e tentar encontrar algo em que me sinta realmente satisfeito."

De acordo com Paulo Oliveira, o coordenador da licenciatura em Engenharia Aeroespacial do Instituto Superior Técnico, as saídas profissionais dos alunos deste curso são variadas. "Os formados encontram emprego em Portugal e no estrangeiro, dentro e fora do setor aeronáutico e espacial. Em Portugal, mencionam-se as OGMA/EMBRAER, TAP, Força Aérea Portuguesa, NAV, Autoridade Nacional da Aviação Civil e várias empresas novas de tecnologia avançada, como a DEIMOS, a GMV ou a UAVISION, ainda incluindo alguns spin-offs da licenciatura em Engenharia Aeroespacial/IST. No estrangeiro, temos Airbus, British Aerospace, CASA, Rolls-Royce, Safran, CERN, ESA, Eurocontrol. Fora do setor especificamente aeronáutico, as principais consultoras internacionais e empresas de serviços informáticos procuram também os formados em Engenharia Aeroespacial."

ana.meireles@dn.pt

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