"A visita do Santo Padre correu melhor do que esperava"

Horas depois da partida do Papa para Roma, o vice-reitor do Santuário de Fátima estava ainda comovido com "a grande festa" que foi a canonização dos pastorinhos

Que balanço faz o Santuário de Fátima desta visita do Papa Francisco? Correu tudo como esperava?

Correu melhor! Correspondeu plenamente às nossas expectativas e penso que também às de todos os peregrinos. Os ecos que nos chegam nas últimas horas são de um entusiasmo muito grande. Não esperávamos que ele viesse trazer novidades doutrinais, como é óbvio, nem alguma interpretação diferente de Fátima, mas apenas animar este povo na fé e celebrar com a multidão, que aqui se tornou uma expressão da Igreja universal. Penso que era visível no recinto a grande festa de alegria e de fé ao longo destes dias. A imagem do Santo Padre com o lenço branco e com uma lágrima no olho, perante tantos peregrinos, ficará na nossa memória.

Era desse discurso que estavam à espera, assente sobretudo na mensagem de Fátima, ou esperavam uma mensagem mais universal?

A mensagem de Fátima é universal. Disso estamos convictos. Por isso é que Fátima tem o papel que tem na Igreja universal. A Igreja reconheceu muitas outras aparições marianas, mas muitas delas trazem uma mensagem muitas vezes atual para uma época, para uma cultura própria, e às vezes eloquente num contexto cultural. O que é deslumbrante é que a mensagem de Fátima é transversal a povos, porque a questão da paz é de todos os tempos e de todos os lugares. O desafio a não viver sem Deus, indo ao encontro da mensagem de misericórdia que o Papa Francisco tem acentuado. É por isso que nós vemos aqui homens e mulheres de todas as culturas. O que foi atual há cem anos, numa guerra, tornou-se atual passado alguns anos numa segunda guerra, e continua atual hoje, com ou sem guerras.

Precisamente por causa dessa conjuntura de clima tenso em que vivemos, a nível internacional, chegou a recear que alguma coisa se pudesse passar aqui nestes dias?

Não. Enfim, a possibilidade teórica existe sempre em qualquer parte do mundo. Um louco pode aparecer sempre. Nós estávamos sempre em sintonia com os serviços de segurança e diziam-nos não haver uma situação de perigo iminente; obriga a todos os cuidados que exige uma multidão e uma deslocação do Santo Padre. As multidões que estão nestes eventos são habitualmente pacíficas.

Era uma multidão que se esperava maior. Ou não?

Nós não temos números.

O Vaticano já avançou com 500 mil...

O Vaticano fez um cálculo a partir da janela do seu gabinete... nós não temos números por uma razão simples: sabemos as pessoas que poderão caber nos espaços do recinto, mas sabemos que as ruas da cidade estavam todas cheias, que os parques estavam todos cheios.

Acredita que esteja perto do milhão de pessoas preconizado?

Eu penso que sim. São sempre cálculos muito difíceis de se fazer, até para as forças de segurança. Sabemos que veio muita gente para ver o Papa, um homem que atrai as pessoas pela sua autenticidade.

O papel de Fátima saiu reforçado no mundo com a vinda dele?

Penso que sim. Todo o ciclo deste centenário tem sido um pouco nessa linha; proporcionar leituras abrangentes de Fátima. Nas primeiras décadas estudava-se parcialmente a mensagem de Fátima, mas a última década foi fértil em estudos e reflexões que fazem leituras abrangentes de Fátima. O Papa insere--se nessa linha mas ela não foi inaugurada pelo Papa Francisco. Bento XVI, por exemplo, tem dos melhores comentários à Mensagem de Fátima. Há um caminho aberto já antes por vários teólogos, nomeadamente pelo bispo de Leiria-Fátima, que iniciou o ciclo, com uma reflexão própria.

Como dizia D. António Marto, o Papa trouxe dois novos santos. Em que pode isso ajudar a Igreja a atrair mais jovens?

Numa resposta muito simples e quase de catequese posso dizer que Fátima serve para alguma coisa. Esta canonização mostra que Fátima tem potencial para tornar vidas santas, à medida de cada um.

Pode ser importante para chamar a juventude?

Claramente, mas sem truques especiais. Não é isso que queremos fazer. O apelo é sempre a uma autenticidade da fé. E mostra isso mesmo, que a santidade não é uma coisa que se atinge quando somos já suficientemente beatos ou muito profundos na fé. Não é isso. Aquelas crianças compreendiam à maneira delas os dinamismos da fé e viviam a sua relação com Deus a seu modo. Se há alguma coisa que [a canonização] pode trazer a cada um é isso - habituarmo-nos a ver os santos apenas como pessoas que tocavam o limite, pela reflexão, pela idade ou pelo martírio... aqui é percebermos que são apenas crianças, nessa simplicidade.

Qual foi o momento mais especial para si ao longo dos últimos dias?

Houve vários. Mas talvez aquele em que o Papa abraçou a criança miraculada, em que até ele se emocionou, certamente por perceber que Deus atua também em coisas visíveis. Tocou-me também o facto de, na Procissão do Adeus, ver o Papa assumir o papel de peregrino de uma forma natural, como alguém que espontaneamente também se emociona e assimila os sentimentos dos peregrinos.

Envolveu-se muito nestas comemorações. Vai sentir falta deste frenesim?

Eu envolvi-me muito, mas não fui só eu. Muita gente se envolveu. Comovi-me muitas vezes com a entrega dos colaboradores do Santuário. É natural que agora sinta a falta, sim. Mas o centenário não acabou. Para a semana já temos uma celebração em Roma, e outras atividades se seguirão. Mas foi um privilégio estar nesta barca ao longo dos últimos meses.

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