"A minha família é cristã, pelo que cresci a ouvir falar dos portugueses terem sido os primeiros europeus no Japão"

Brunch com a historiadora japonesa Mihoko Oka.

Descobri há cinco anos que tinha uma vizinha japonesa em Setúbal. Estava eu então em reportagem no Japão e tinha antes de partir pedido ajuda à embaixada em Lisboa para me indicar uma historiadora da presença portuguesa no arquipélago. Mihoko Oka recebeu-me na época na universidade em Tóquio onde é professora e em português contou-me ser casada com um historiador nascido em Beja e que o casal comprara uma casa em Setúbal onde passava parte do verão com as filhas. Surpreendido, perguntei em que zona de Setúbal. E mais surpreendido ainda fiquei quando me respondeu que era perto da estação de comboios. Só por pouco não temos janelas frente a frente, e em dois ou três minutos vai-se de uma casa a outra. Foi o que aconteceu agora, quando a minha vizinha japonesa me recebeu para este brunch, na realidade um belo chá a meio de uma tarde chuvosa.

"Vim a Portugal para receber um prémio da Fundação Oriente. Já não vinha há uns anos e com a pandemia deixei mesmo de viajar", conta a professora Oka. O silêncio na casa fez-me intuir que nem Lúcio de Sousa, o marido que também é historiador, nem as duas filhas, Sofia de 11 anos e Cecília de 8, tinham vindo. "Desta vez vim só eu. Fui a Nagasáqui e a Hirado, dois portos na ilha de Kyushu, dar conferências e depois viajei diretamente para Lisboa, para a cerimónia do prémio", explica Mihoko, sempre falando em português, apenas com uma ou outra hesitação, uns segundos de pausa em busca da palavra certa.

Fiquei a saber desta vinda a Portugal através de dois diplomatas japoneses e logo entrei em contacto por mail com a historiadora para uma conversa. De início, pensei numa entrevista sobre as relações Portugal-Japão nos séculos XVI e XVII, mas o resultado iria provavelmente ser semelhante ao da entrevista que lhe fiz em 2017 para o DN e cujo título foi "A ciência moderna chegou com os portugueses ao Japão". Assim, lembrei-me de lhe sugerir o brunch, que é mais uma espécie de perfil, sentindo ter acesso a alguém com uma história de vida excecional e ainda por cima, pessoal e profissionalmente, tão ligada a Portugal.

Os livros da académica japonesa têm sido publicados, em regra, em inglês, como é o caso de The Namban Trade - Merchants and Missionaries in 16th and 17th Century Japan, saído no ano passado, e vencedor do Prémio Fundação Oriente - Embaixador João de Deus Ramos, que distingue trabalhos sobre a presença portuguesa na Ásia e homenageia também um diplomata já falecido que foi quem reabriu a nossa embaixada em Pequim em 1979, depois do estabelecimento de relações diplomáticas com a República Popular da China. No início da carreira, João de Deus Ramos foi secretário na embaixada em Tóquio e mais tarde esteve nas negociações para a transição de Macau, uma vida em grande parte ligada ao Oriente.

Faltei à entrega do prémio por estar em reportagem fora de Portugal, mas ficou clara a importância deste quando, via Facebook, vejo fotos da cerimónia na Academia da Marinha (que patrocina o galardão) em que Mihoko surge ao lado do embaixador Shigeru Ushio mostrando o diploma. Aliás, a cerimónia chegou a estar prevista para fevereiro e na impossibilidade de a premiada comparecer o embaixador seria o seu representante oficial, segundo me foi explicado pela própria.

Voltemos ao nosso chá das cinco em Setúbal, num dia muito cinzento, muito diferente daqueles ensolarados a convidar à praia que fascina as pequenas Sofia e Cecília nas férias portuguesas. Pergunto a Mihoko como começou a ligação a Portugal. "Vim pela primeira vez em 1994, devia ter pouco mais de 18 ou 19 anos. Para frequentar um curso intensivo de língua portuguesa numa escola privada. Já tinha decidido que iria fazer a minha especialização em português. Mais tarde, na universidade em Osaka, passei para o curso de História e tudo fez ainda mais sentido", explica. Importante nesta atração pela língua portuguesa e pela história foi o próprio contexto familiar, como sublinha a própria: "Somos de Kobe. Uma das cidades, junto com Yokohama, que fez parte dos primeiros portos a receber estrangeiros depois da reabertura do Japão ao mundo em meados do século XIX. Uma cidade muito cosmopolita, internacional. E a minha família é cristã, pelo que cresci a ouvir falar dos portugueses terem sido os primeiros europeus a visitar o Japão, há quase 500 anos, dos missionários, de São Francisco Xavier..."

Reunificado o Japão no século XVII pelos xóguns da família Tokugawa, os cristãos locais foram perseguidos e os portugueses, tanto missionários como comerciantes, foram expulsos. O contacto do Japão com o mundo passou a ser feito através dos holandeses, confinados a Dejima, uma ilha artificial que hoje está praticamente colada a Nagasáqui. Só dois séculos depois, por pressão dos Estados Unidos, o arquipélago se reabriu, com os Tokugawa a serem afastados e o imperador Meiji a assumir o poder e a liderar uma acelerada modernização do Japão, que mesmo com a derrota na Segunda Guerra Mundial e a destruição causada pelas bombas atómicas americanas em Hiroxima e Nagasáqui é hoje a terceira maior economia mundial.

O namoro com Lúcio acontece em 2005, já Mihoko se tornara visitante habitual do país. Veio fazer o curso de português na Universidade de Lisboa quando se estava a preparar a Expo 98, voltou depois de doutorada e já professora e investigadora na universidade para estudar a escrita jesuítica em Portugal, Espanha e Itália. "Comecei por Portugal por já conhecer a língua e um amigo comum apresentou-me o Lúcio. Disse-me que estudava o mesmo que eu. E era verdade. Ele fez tese de mestrado sobre Singapura e depois começou a dedicar-se ao Japão. O Lúcio é de Beja, e os pais vivem hoje em Cuba, mas ele morava na Costa da Caparica perto de uns tios. E eu tinha um apartamento arrendado também lá. Um dia, quando já namorávamos, um vizinho meio louco bateu-me à porta a meio da noite a dizer que estava a fazer barulho, mas eu estava a dormir. Fiquei muito assustada pois este tipo de problemas já tinha acontecido antes. Liguei ao Lúcio e disse-lhe que ia morar com ele", conta, entre risos.

O namoro com uma estrangeira foi bem visto pelos pais do Lúcio, conta Mihoko. E também os pais de Mihoko aceitaram bem uma paixão por um português que veio a dar em casamento. Pergunto se ser católica facilitou. "Sim, mas quando disse aos meus pais do namoro com o Lúcio eles ficaram sobretudo aliviados", diz a rir-se. E explica: "eu sempre tive caráter forte, como japonesa não sou muito convencional e os rapazes japoneses não se sentem à vontade com mulheres fortes como eu. Por isso casar com um português foi natural". O casal luso-nipónico de historiadores acabou por se fixar no Japão, onde Lúcio de Sousa tem feito uma notável carreira de académico, ganhando um prémio da Gulbenkian com o seu livro sobre os escravos japoneses vendidos aos portugueses e depois muitas vezes levados mundo fora, como o caso do miúdo que foi parar ao México. "Na época das guerras, os soldados capturavam aldeãos e vendiam-nos. Os portugueses souberam desses mercados e começaram a comprar também. Em regra, batizavam esses escravos japoneses", explica Mihoko. O livro de Lúcio, editado em inglês e parcialmente traduzido para japonês, tem como título The Portuguese Slave Trade in Early Modern Japan: Merchants, Jesuits and Japanese, Chinese, and Korean Slave.

Tal como há cinco anos, converso um pouco com Mihoko sobre o impacto português no Japão, sobretudo científico, como um dia sublinhou o imperador emérito Akihito. "Todos ouvimos falar da chegada dos portugueses. Ensina-se logo na escola primária", nota a historiadora. Mas Portugal é hoje popular entre os japoneses sobretudo por causa de Cristiano Ronaldo, pelos êxitos desportivos, e igualmente "pelo anúncio na televisão a mostrar como fazer crescer os músculos", comenta, divertida, a minha anfitriã.

Despeço-me de Mihoko com curiosidade sobre se pensa vir com a família no próximo verão a Setúbal. Fico a saber que os seus planos são de um dia se fixar em Portugal, mas receia as dificuldades de adaptação para as filhas, que adoram o país e falam português (língua lá em casa) mas não sabem escrever pois a escolarização tem sido em japonês. Mas logo se verá e entretanto Sofia e Cecília também vão estudar inglês e isso vai facilitar maior contacto com o alfabeto ocidental.

Recebo da minha vizinha japonesa um dos seus livros, A Maritime History of East Asia, co-coordenado com Masashi Haneda, um grande historiador japonês. Pergunto se há hipótese de ser traduzido em português. "Se alguma editora se interessar, claro". E isto vale para os anteriores, como War and Trade in Maritime East Asia ou o agora premiado The Namban Trade - Merchants and Missionaries in 16th and 17th Century Japan. E também para o livro de Lúcio. Então editores portugueses, estão à espera do quê?

leonidio.ferreira@dn.pt

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