Exclusivo  "Continuamos à espera de uma intervenção efetiva. Havia essa esperança com a cerca, e não há nada"

O presidente da Junta de Freguesia de São Teotónio gere uma população que está sempre a mudar. Gostava que as juntas fossem ouvidas.

A cerca sanitária teve influência no número atual de imigrantes?
Fizemos o Censos 2021 nessa altura. Houve uma espécie de êxodo da população imigrante que estava em situações menos bem esclarecidas, além de que só contabilizam as pessoas com mais de seis meses de residência. A presidente da Junta de Almograve também sentiu isso.
Como é que chegaram a essa conclusão?
Pelas contas que fazíamos aos atestados de residência que emitimos a partir de 2016/2017. Foram 2788 em 2017, 3767 em 2018, 3138 em 2019, 1849 em 2020 e 1387 em 2021. Chegámos a cerca de nove mil e, destes, um terço são estrangeiros.
O que mudou depois da cerca sanitária?
Não estamos no pico das campanhas, mas mesmo no pico parece ter havido menos pessoas. A cerca sanitária trouxe um maior foco a esta zona, as autoridades estiveram mais presentes no terreno. A ACT tem continuado a trabalhar mais perto das empresas, tem tido uma vigilância assídua.
Melhoraram as condições dos imigrantes?
Não tenho dados concretos. A junta de freguesia, apesar de ser a entidade que melhor conhece a realidade, não foi envolvida neste processo. Não fomos ouvidos. As nossas competências são muito limitadas, mas conhecemos a população há muitos anos e podíamos pôr tudo a descoberto.
Nomeadamente sobre as más condições de habitabilidade?
A situação era conhecida há muitos anos e a pandemia pôs tudo a descoberto. Sempre que tive oportunidade de dar a minha opinião sobre o assunto [é o segundo mandato], disse que São Teotónio precisava de fiscalização e que o governo olhasse para a situação com olhos de ver.
O que deveria ter sido feito?
Defendo a criação de uma entidade com uma composição transversal para verificar as condições de trabalho, de habitabilidade, a regularização dos imigrantes, Segurança Social, etc. E ainda não está criada. Passados seis meses de cerca sanitária, continuamos à espera de uma intervenção efetiva. Tínhamos a esperança de que pudesse acelerar esse processo, e não há nada.
Como está a habitação?
Continua cara e com quartos superlotados. Fecharam casas que não tinham condições, por exemplo uma onde habitavam 70 pessoas. Já abriu, penso que não estarão tantas pessoas, mas não tenho a certeza. Não se resolveu o problema de base da habitação.
Como é ser presidente de uma junta com tanta diversidade?
É um desafio constante, temos de estar sempre disponíveis para alterar a estratégia. O problema é que é difícil projetar um território quando muda todos os dias. Por exemplo, tínhamos duas pessoas a limpar as ruas e agora são quatro todos os dias. Havia um pico de lixo no verão, agora é todo o ano.
Quais são os maiores problemas?
Falta de verbas de apoio do Estado. Só contam a população censitária, não as pessoas que aqui habitam, nomeadamente nos picos da campanha. O segundo problema é a falta de habitação. O que acontece em São Teotónio aconteceu em Lisboa e no Algarve com o alojamento local, não há habitação. Professores, elementos da GNR, médicos, enfermeiros ou quadros de empresas deslocados não conseguem alugar casa, nem sequer um quarto. O que me choca é não haver em Portugal uma lei que regule o número de pessoas por fogo, metem 10 e mais pessoas num T2.

ceuneves@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG