Sem máquina e com baixo financiamento. Estão aí as primeiras presidenciais low-cost

Orçamentos baixos, poucos cartazes e comícios e menos apoios partidários. A pouco mais de um mês das eleições os candidatos contam ao DN como está a correr a campanha

Poucos ou nenhuns cartazes nas ruas, estruturas quase unipessoais ou com um staff muito restrito e dependentes sobretudo de voluntários, iniciativas em pequenas salas ao invés de grandes comícios e arruadas. A menos de mês e meio das eleições presidenciais (24 de janeiro), Portugal vai assistir muito provavelmente à primeira campanha generalizadamente low-cost.

Mesmo os que são dados como favoritos na corrida a Belém evocam independência das máquinas partidárias e recusam grandes gastos. É o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, que ao DN adianta que ainda não tem diretor ou estrutura de campanha. "Há apenas um mandatário financeiro, Manuel Brito" e, mesmo com apoio político de PSD e CDS, anunciado na passada quinta-feira, o candidato diz que "a ideia é não aceitar apoios financeiros de ninguém": "Tudo está a ser feito à custa de um fundo meu muito pequeno, contando apenas com o dinheiro público que só será dado depois da campanha."

Dado como grande favorito, Marcelo sabe que não precisa de uma grande estrutura para ganhar um mediatismo que já tem e que a colagem excessiva à área política mais à direita o prejudica e defende convictamente que prefere ter pouca gente à sua volta: "Sempre defendi isso e seria incompreensível num país que está a sair de uma crise ter uma campanha dispendiosa e com um conjunto de encargos que os portugueses não compreenderiam. Além disso, não quis fundos privados para a independência ficar clara na campanha que quero fazer."

Nóvoa e Belém com estrutura

Ao contrário de Marcelo, para obter informações sobre as candidaturas de Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém é preciso falar com as estruturas de campanha.

Da parte do antigo reitor fonte oficial revela que o orçamento da candidatura "está a ser ultimado e ainda não existem valores finais", mas "o financiamento da campanha resulta, exclusivamente, dos valores da subvenção estatal e dos pequenos donativos de centenas de apoiantes em nome individual".

Sampaio da Nóvoa tem reconhecido, em várias entrevistas, que uma candidatura independente tem mais dificuldades para se financiar, por a lei eleitoral favorecer os candidatos que têm uma estrutura partidária por detrás (e que podem assim recorrer à banca para empréstimos e fazer face às despesas). Já em agosto, o candidato admitia que 80% da campanha seria concretizada por uma conta específica, com as despesas a ser cobertas pela subvenção estatal.

Com esta prerrogativa, a indicação é para fazer uma campanha o mais barata possível: só nas últimas semanas apareceram outdoors nas ruas e Nóvoa faz-se acompanhar na estrada, por norma, de quatro pessoas, mesmo assim, "já esteve em todos os distritos (e regiões autónomas) menos Bragança, onde tem presença agendada para os próximos dias"; e até ao dia das eleições percorrerá novamente todos os distritos do país.

Já a resposta da parte da candidata Maria de Belém vem da parte da empresa de assessoria Cunha Vaz e associados, que a perguntas sobre o financiamento e as ações de campanha da ex-ministra e ex-presidente do PS esclarece de forma vaga que haverá "contactos com as populações, associações representantes dos mais diversos setores, social, empresarial, estudantil, participação em conferências e debates, encontros com apoiantes..."

Sobre despesas e receitas previstas a informação foi: "O orçamento será apresentado junto do Tribunal Constitucional."

Dos partidos aos independentes

O gabinete de imprensa do candidato do PCP, Edgar Silva, também revela apenas que "o financiamento e o orçamento da candidatura serão feitos no quadro das disposições legais, constituindo a realização de iniciativas e a propaganda a parcela principal da despesa".

Enquanto a eurodeputada bloquista Marisa Matias, a única, além do candidato comunista, a beneficiar de um claro suporte de uma estrutura partidária, esclarece a viva voz que a sua campanha "será financiada pelo apoio do Bloco e por donativos" de cidadãos, dando um exemplo de um estudante, que contribuiu com 20 euros e disse não poder contribuir com mais. "Obviamente que tenho noção de que entro nesta campanha, em comparação com outros candidatos, mais tarde. Não estou no terreno há meses, mas nas próximas semanas vou reunir-me com muitas instituições, promover debates sobre o futuro do país e sobretudo dar voz a quem não a tem", revela Marisa Matias.

Empréstimos bancários de fora

Esclarecer o financiamento da sua campanha é um ponto de honra para este docente universitário, que em 2010 fundou a associação cívica Transparência e Integridade. "Gastámos até hoje menos de 20 mil euros. Estabeleci um teto máximo de despesa para a campanha de 200 mil, mas a minha estimativa é que o orçamento rondará os 170 mil euros. Não haverá cartazes, bandeiras, jantaradas ou arruadas. Os custos são os que decorrem de deslocações e alojamento do candidato, do arrendamento de salas e impressão de material gráfico. Tudo será financiado com receitas de pequenos donativos - cada pessoa pode contribuir até um máximo de cem euros, exceto eu, que poderei contribuir até 25 mil euros", explica o candidato, acrescentando: "Nunca quis apoio de partidos ou empresas porque limitaria a minha ação política. Esta candidatura só é possível graças ao trabalho pro bono de 170 voluntários."

O discurso e a prática são semelhantes na campanha de Henrique Neto, que diz não ter necessidade de recorrer a empréstimos bancários.

"Os donativos vêm sobretudo de pequenos e médios empresários e parte das despesas são pagas do bolso do candidato, pelo que não temos dinheiro para cartazes grandes e caros, mas distribuímos nas ações em feiras e mercados folhetos A4 com a minha foto, para me dar a conhecer às pessoas, mas sempre com as propostas no verso", divulga o candidato, frisando que este tipo de gestão apertada o levará a entregar o mais tarde possível o orçamento no Tribunal Constitucional.

Recolha de assinaturas

Até ao momento apenas Paulo Morais, Edgar Silva e Henrique Neto formalizaram as candidaturas no Tribunal Constitucional, entregando o número de assinaturas exigidas por lei, um mínimo de 7500 e um máximo de 15 mil.

"Tivemos mais de 170 voluntários a recolher assinaturas. Além de duas equipas fixas, em Lisboa e no Porto, contámos ainda com uma equipa itinerante, que percorreu o país", explica Paulo Morais.

No caso de Marisa Matias e de Edgar Silva, há um envolvimento grande das estruturas partidárias distritais do BE e do PCP, respetivamente. Os bloquistas, por exemplo, têm nas últimas semanas mobilizado os seus apoiantes, através de e-mail ou de contacto telefónico, para subscreverem a candidatura.

Já Marcelo, Nóvoa e Belém têm mobilizado voluntários e já terão mais do que mínimo de proposituras exigidas. "Estamos já com um número mais do que suficiente de assinaturas. Estão a ser processadas", explicou ao DN Marcelo Rebelo de Sousa.

O trabalho agora já não passa pela recolha, mas sobretudo pelo processo burocrático, que as candidaturas referem como moroso, de fazer a validação das assinaturas nas juntas de freguesia em que cada eleitor proponente está inscrito.

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