Professores que criam exames nem à família podem dizer o que fazem

Com o futuro de milhares de jovens nas mãos, autores das provas parecem agentes secretos. E-mail ou internet estão proibidos

No local de trabalho ninguém sabe o que fazem. Em casa a família também não é informada. Não são agentes secretos, são professores que têm por missão criar os exames nacionais. Por terem um trabalho que decide a vida de milhares de jovens - na entrada para o ensino superior -, quem aceita esta missão está sujeito a regras apertadas.

Primeiro, ninguém sabe os nomes dos autores dos exames nacionais. "De preferência eles não devem dizer à família ou na escola que estão envolvidos neste processo", explica Hélder Sousa, presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) e a única pessoa autorizada a falar sobre o processo. Ainda assim, há quem saiba o que fazem. É o caso do diretor da escola, que tem de dar dispensa no horário de trabalho aos envolvidos. Por estarem a dar aulas (a uma ou duas turmas), e em muitos casos a alunos que também serão submetidos a exame, o trabalho sigiloso torna-se mais importante.

Todos sabem disso e todos estão atentos, garante o responsável do IAVE. "Do ponto de vista ético nunca tivemos problemas de qualquer espécie, porque há um sentido natural de responsabilidade por parte dos professores e eles têm sabido manter duas coisas que são fundamentais: a segurança e o sigilo." É que o instituto responsável por elaborar todos as provas conta com a experiência de sala de aula e a ligação aos alunos dos professores para que estes construam exames que os jovens compreendam.

Além disso, se algum autor caísse na tentação de "orientar os alunos" no sentido de terem excelentes resultados nas provas isso era visível no momento da divulgação dos resultados. "Há um controlo que pode ser feito quando saem os resultados. Qualquer anomalia é obviamente detetada, isso levaria sempre a uma investigação." Para Hélder Sousa nem precisava de haver um julgamento ou processo jurídico. A desconfiança seria "a porta aberta para convidar as pessoas a sair". Algo que nunca aconteceu, em 19 anos de provas.

Assim, são selecionados - através das equipas de corretores de exames, de indicações de outros autores ou de diretores de escolas - "no mínimo duas pessoas" para serem professores autores dos exames, ou seja, "as pessoas que constroem os itens". Mas "há disciplinas mais complexas, como Biologia e Geologia, Física e Química, Matemática ou Português, que podem ter três, quatro, cinco autores. Raramente mais", exemplifica Hélder Sousa. Estes autores assinam um contrato de confidencialidade que os limita a não revelar a sua função.

Entre outras restrições, estão também limitados nas comunicações por e-mail, a partir do momento em que a prova começa estar definida. Ou seja, os autores podem trocar "informação que não tem a marca de uma prova, como um texto, uma imagem ou um gráfico, isso é irrelevante, quer dizer, pode servir para múltiplas coisas". No entanto, acrescenta Hélder Sousa, "a partir do momento em que a prova ganha forma, depois circula e é toda gerida cá dentro".

Impedidos de ter família a exame

Mas não são só os professores que constroem os exames que têm acesso ao seu conteúdo, por isso há um conjunto de pessoas limitado na divulgação da sua função. Todos eles estão também impedidos de ter familiares diretos a fazer as provas.

Assim, os itens depois são analisados por consultores - também eles professores e muitos dos anos de exame -, que "dão acompanhamento à construção da prova, numa primeira fase, a seguir há "um conjunto de auditores científicos, por norma professores do ensino superior, que fazem validação científica", daí passa para a equipa técnica "especializada na avaliação que verifica as regras de construção de itens", e finalmente os enunciados são submetidos a uma validação linguística e gráfica.

A comunicação entre cada fase do processo é altamente controlada. "Não há troca de e-mails, a equipa técnica de seis pessoas que trabalha no IAVE não tem os computadores ligados à internet". Fora do edifício do IAVE, "a informação que circula para consultores, auditores e outros membros da equipa - alguns dos quais não estão em Lisboa, porque tentamos ter uma cobertura alargada do país - é feita em correio seguro. Tudo é impresso e são usados envelopes invioláveis". Também aqui, Hélder Sousa assegura nunca ter havido problemas.

As provas "demoram em média 20 a 24 semanas" a estar concluídas, o que acontece lá para março. Cada disciplina de exame (secundário e 9.º ano) tem quatro versões. "Uma para a primeira fase, outra para a segunda, uma para os atletas de alta competição, em agosto, e uma reserva para um imprevisto." Antes de chegarem às salas de exame, existem no país dez a 12 pessoas que sabem quais as perguntas que vão ser feitas. No entanto, a maioria não sabe qual a versão que vai aparecer em cada uma das fases.

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