Nunca houve tão poucos professores a pedir a reforma

Com o aumento da idade de aposentação para os 66 e a penalização para quem a antecipe, há menos de 500 a pedir a reforma

A poucos dias de completar 66 anos, Ester Rato entregou esta semana o pedido de aposentação. Como ela, mais 474 professores estão na calha para se reformarem até setembro, o número mais baixo de que há memória em Portugal. Apesar de faltarem ainda três listas mensais para terminar 2016, é certo que vamos acabar o ano com menos de mil educadores e docentes a passarem à reforma - há três anos, por exemplo, esse número ficou acima dos 4500. O aumento da idade de aposentação para os 66 anos e a crescente perda de valor nas pensões antecipadas (nalguns casos chega aos 36%) reduziram drasticamente o número de pedidos. Isto num país onde a classe docente está envelhecida e há escolas em que os professores mais novos têm 40 ou 50 anos.

"Os professores não estão a ir menos embora porque estão muito satisfeitos ou entusiasmados com as condições que têm para trabalhar nas escolas. É porque a idade para a aposentação aumentou, e quem optar por ir embora vai ter cortes nas suas pensões tão grandes que não pode ir. Isso está a criar um problema terrível às escolas, que é o envelhecimento do corpo docente", explica ao DN Mário Nogueira, responsável da Federação Nacional dos Professores (Fenprof).

Na Escola 2/3 de Santa Clara, do Agrupamento de Escolas Severim de Faria, em Évora, a professora Ester viveu por dentro essa realidade nacional. O último ano letivo revelou-se já particularmente duro para quem convive com três hérnias cervicais, e passava "horas com os braços no ar, a passar exercícios no quadro, com régua e esquadro, à antiga, porque o 9º ano tem uma grande carga de geometria descritiva". É verdade que as escolas têm quadros interativos, mas "os agrupamentos não têm verba para contratar técnicos de informática, e quando avariam são os professores que têm de tentar resolver". A consciência profissional fê-la aguentar as dores e os efeitos secundários dos anti-inflamatórios para "levar até ao fim aquele grupo de alunos", ao leme da disciplina de Matemática.

Por esta altura ainda não sabe se vai ter de iniciar o ano letivo ou se na volta do correio virá entretanto a resposta ao pedido de aposentação. Começou a dar aulas há 44 anos, sempre adorou a profissão, mas nos últimos anos faltava-lhe já a paciência para "a falta de educação e o desinteresse completo e absoluto de muitos alunos".

Noutro ponto do país, na vila da Guia (Pombal), Isabel Guerreiro tem a mesma idade, mas há 13 anos que está reformada. Era professora do primeiro ciclo, ensinou várias gerações a ler e a escrever durante 34 anos, mas aos 52 estava em casa. "Olhando para o que se passa hoje em dia, acho mesmo que tive sorte. Tenho colegas com 60 anos que ainda estão nas escolas..."

Como Ester, são aos milhares os professores por todo o país. Arlindo Ferreira tem vindo a dar voz a esse cenário no blogue que alimenta desde 2008. "É uma forma de explicar ao público em geral o que se passa com o ensino, em linguagem clara", sustenta ao DN. De resto, foi ele quem fez as contas aos últimos anos, no passado fim de semana: "O último grande grupo de professores aposentou-se em 2013 (4628). Já no ano passado foram apenas 1280, e este ano chegaremos ao final com metade desse número. É que em 2013 passámos de 4,5 de penalização (pela reforma antecipada) para meio por cento ao ano. Se a idade de reforma aumentou, ultrapassando já os 66, é normal que as pessoas tenham de aguentar o máximo nas escolas. Isto é mau para toda a gente. Só não será para o Orçamento do Estado", conclui Arlindo Ferreira, professor de Educação Visual e Tecnológica em Vila do Conde, em horário zero.

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