Marcelo garante que Portugal "aposta muito forte" nos refugiados

No último dia na Grécia, o presidente da República visitou o campo de refugiados de Tebas, onde há "vidas em suspenso".

Ao chegar ao campo de refugiados nos arredores de Tebas não nos deparamos com o pior dos cenários. Pelo menos à primeira vista. Se as imagens que nos chegam diariamente de vários campos de refugiados nos mostram uma realidade quase desumana, onde, além da fome, cidadãos oriundos de vários países vivem por entre lixo e tendas improvisadas, aqui - neste campo gerido pela Organização Internacional para as Migrações - ao sair da estrada principal, e depois de um pequeno caminho de macadame, encontramos contentores e um edifício semelhante a um grande pavilhão, onde, nas instalações de uma antiga fábrica do setor têxtil, se situam agora os chamados "apartamentos adaptados". No total são 67 e, em conjunto com as estruturas do exterior, servem de abrigo a mais de 600 pessoas.

Aqui, além de estruturas físicas que dão abrigo a quem chega de vários pontos do globo, há apoio médico e psicológico, ou aulas de grego e inglês, mas, se, aparentemente, este não é um típico campo de refugiados - com toda a conotação negativa que isso implica -, também não deixa de ser uma casa provisória, com parcas condições e onde, como refere o presidente da República, centenas de pessoas estão "com a vida suspensa". "A maioria são sírios e iraquianos, mas, na verdade, temos aqui pessoas de uma série de nacionalidades. Entram e saem pessoas todos os dias", explica Claudia Samaras, uma das jovens coordenadoras que serviu de guia e apresentou o campo a Marcelo Rebelo de Sousa.

Entre os refugiados contam-se 137 crianças em idade escolar, algumas delas sem qualquer contacto com a família. E, se Marcelo é conhecido como o "presidente dos afetos", em Tebas, apesar de curta, a passagem do presidente português poderá ter tido um simbolismo importante para pelo menos uma delas, a pequena Cedra, de 13 anos, natural do Curdistão, e que, desde que se cruzou com o chefe de Estado, não mais o largou, numa visita que seguiu por entre conversas, abraços e beijos. "Em Portugal nós beijamos muito", diria, alguns metros mais à frente, o presidente da República, durante uma conversa com Banaz Omer, de 39 anos, natural do Curdistão iraquiano, mas a viver em Tebas há oito meses, juntamente com o marido e os dois filhos. No seu país natal, Banaz era engenheira civil e o marido era especialista em urbanismo. Ambos querem trabalhar, mas, na Grécia, "não há projetos para trabalhar", explica ao Chefe de Estado português, que, ouvindo atentamente a história desta refugiada, lembrou que Portugal pode vir a receber mais pessoas através de programas de reinstalação, algumas delas provenientes do Iraque, isto apesar de ainda não estarem definidos os critérios de seleção. "O Governo português disse que estamos aptos a receber mais mil pessoas num futuro próximo", salientou Marcelo que, perante a urgência da situação, recebeu das mãos de Banez o seu currículo e adiantou que Portugal pode mesmo vir a ser uma opção para o seu futuro e da sua família. "Vou levar isto comigo para Portugal. Não vou prometer nada, porque depende do comité de seleção, mas como nós estamos prontos a receber pessoas vindas de vários países, incluindo o Iraque, pode ser que preencha os critérios", assinalou.

Se, em Tebas, durante a visita, e perante pedidos de alguns refugiados, Marcelo recusou fazer qualquer promessa individual, mais tarde, ao final do dia, e já de partida para Lisboa, o Presidente não deixou de sublinhar, numa declaração em jeito de balanço da visita de Estado à Grécia, que, para Portugal, os refugiados e a crise migratória são uma questão prioritária. "A nossa posição sobre os refugiados é uma posição de princípio, porque entendemos que é a posição correta a nível europeu e, até, a nível global, e é por isso, aliás, que Portugal, sobre a questão dos refugiados e das migrações, tem uma aposta muito forte", disse, referindo-se à candidatura de António Vitorino à Organização Internacional para as Migrações, que foi formalizada pelo Governo português em dezembro passado, em Genebra. Apesar da aposta na candidatura e numa posição firme "e a uma só voz" por parte do Estado português que, segundo Marcelo, partilha das "preocupações" gregas, o presidente da República prefere, no entanto, não avançar com prognósticos sobre qual será, no futuro, a posição da União Europeia, e, admitindo que é preciso que no espaço europeu haja uma resposta "coesa" de integração, afirma apenas que o lado português "está a "lutar por isso" e que "vamos ver até onde é possível ir".

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