Marcelo, a metade direita do governo de esquerda

Em Belém recebeu os partidos, pediu pactos, fez pontes, urdiu estratégias políticas com António Costa, mas também puxou algumas vezes as orelhas ao governo. Marcelo Rebelo de Sousa é visto pelos agentes políticos como um bom Presidente, mas que às vezes exagera na dose de intervenção.

Um ano certo de mandato, neste dia 9 de março, dá margem aos atores políticos para olharem para Belém e dizerem de sua justiça. Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente da República quase consensual, da direita à esquerda, mesmo que haja críticas pontuais à sua atuação. "De certa forma, Marcelo relaciona-se com o governo como se ele fosse a metade direita e o governo a metade esquerda de um bloco central muito original: em vez de composto por dois partidos, é um bloco central de dois órgãos de soberania." Quem o diz é o antigo coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo, que até profetiza: "Não vai demorar muito para que também vire caso de estudo, tal como a geringonça."

João Semedo considera que o governo não tem razão de queixa do Presidente, até porque Marcelo tem criado um "ambiente distendido" no país. "Este ambiente distendido é tão mais significativo quanto é público e notório que o presidente Marcelo está, política e ideologicamente, muito mais próximo de um governo tipo bloco central, um grande centro formado pelo PSD e pelo PS, do que do cenário atual de um governo PS com apoio parlamentar do BE e do PCP, o que talvez justifique a sua atuação como amortecedor junto do governo, procurando atenuar e evitar a esquerdização da política da maioria." É assim que João Semedo entende certos vetos, declarações preventivas, imposição de limites.

O deputado social-democrata Carlos Abreu Amorim diz que, na proximidade ao governo de António Costa, Marcelo tem feito um "esforço titânico de manutenção da estabilidade governativa", mas não vê nisso grande diferença em relação ao que o anterior chefe do Estado fez com o primeiro governo de José Sócrates. "As relações eram tão sólidas na altura que na apresentação dos votos de Natal quase pareciam mensagens de amor." Este primeiro ano foi, na opinião do deputado do PSD, "caracterizado pelo esforço de manter a estabilidade governativa".

O antigo líder do CDS José Ribeiro e Castro diz que "felizmente" há Marcelo Rebelo de Sousa em Belém. E não alinha nas críticas de que Marcelo está excessivamente alinhado com o governo. Mesmo quando ouviu o Presidente da República dizer recentemente que "esta solução de governo é de cimento armado" não questionou a "independência" de Marcelo. "Tem a função de zelar e assegurar o funcionamento do sistema político e portanto é normal que esteja numa posição diferente com a oposição, que quer desgastar o governo". Ou quando Marcelo exulta os números do défice público conseguido pelo governo, Ribeiro e Castro argumenta que cabe ao Presidente "a responsabilidade de que o espírito do país esteja em alta".

A deputada socialista Isabel Moreira também frisa a importância de Marcelo na estabilidade governativa, até porque a solução de governo é nova e não tinha antecedentes. É ele quem tem permitido, na sua perspetiva, que o governo cumpra o programa de governo, em circunstâncias externas pouco favoráveis, com as propostas de esquerda que às vezes contrariam esta equação. "O Presidente tem apostado no desaparecimento do clima de crispação, que foi muito presente nos últimos anos do anterior governo", afirma Isabel Moreira, que elogia o facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter respeitado integralmente a Constituição.

Também a antiga deputada do BE Ana Drago considera que Marcelo assumiu o papel de "gerente " da geringonça num ano em que havia muitas dúvidas se esta solução de governo se ia aguentar". Para Ana Drago, "o Presidente tem o máximo de autoridade na sua função na relação que tem com os partidos que o elegeram".

Idêntica posição tem o líder parlamentar do PCP. João Oliveira afirma que o primeiro ano de mandato do Presidente da República ficou marcado "pelo respeito institucional" entre órgãos de soberania. E havendo essa compreensão pelos poderes de cada órgão, como tem havido, estão criadas as condições, refere o deputado comunista, para que a relação seja de cooperação.

O vice-presidente do CDS Adolfo Mesquita Nunes prefere destacar o papel de Marcelo na defesa da imagem de Portugal como um país de sucesso. E garante: "Tem sido igual a ele próprio e fiel ao que prometeu na campanha eleitoral."

Primeiro-ministro-sombra?

O PSD e também o CDS não esconderam pontualmente o desconforto de ver o Presidente colocar-se ao lado do executivo. E o verniz estalou quando Marcelo se manifestou, numa primeira fase, solidário com o ministro das Finanças, quando Mário Centeno estava a ser atacado devido às negociações com o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues. Várias figuras, como Marco António Costa, Paulo Rangel, José Eduardo Martins e Nuno Melo, criticaram a postura de Marcelo.

João Semedo também agora o diz. "Se há crítica a fazer é Marcelo comportar-se demasiadas vezes como primeiro-ministro-sombra, um segundo primeiro-ministro, um alter ego de António Costa, proporcionando alguma confusão de funções e de papéis." O ex--dirigente do BE considera que, "ao longo do prolongado folhetim em torno da CGD, Marcelo levou longe de mais a sua intervenção. Não sendo caso único, foi onde mais evidente foi o excesso. E até a pirueta ensaiada no comunicado divulgado depois da reunião com o ministro das Finanças, destinada a agradar a gregos e a troianos, não foi suficiente para apagar as marcas de uma sucessão desastrosa de iniciativas e comentários".

Para Isabel Moreira, "é sempre um risco" o Presidente dar opiniões políticas sobre o dia-a-dia. "Pode ficar refém do que disse, pois as coisas podem de-senvolver-se como não previu. Mas isso é um risco para ele próprio." Ana Drago vê essa intervenção presidencial de maneira diferente. "Nos momentos em que o governo está fragilizado, o Presidente tem sustentado a ação governativa e com isso ganha autoridade e limita o espaço de manobra de António Costa."

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