Vai ser possível saber quem trata melhor doenças que mais levam ao hospital

Utentes e serviços vão poder comparar eficiência no tratamento das doenças que mais levam ao hospital

Os hospitais públicos vão passar a comparar entre si a eficiência dos tratamentos dados aos seus utentes, os prazos de internamento em casos de pneumonia ou problemas cardiovasculares ou até o tempo que levam a preparar um doente para uma cirurgia. Com estas novas ferramentas de avaliação do desempenho, que foram apresentadas na semana passada a mais de 80 administradores hospitalares, o Ministério da Saúde espera tirar uma fotografia aos cuidados prestados no Serviço Nacional de Saúde e libertar meios para os casos mais urgentes. No ano passado atingiu-se o recorde de dias de internamento da última década.

Como exemplos do que as unidades e os utentes vão poder agora consultar no site da Administração Central do Sistema de Saúde, onde já estão outros indicadores, temos a comparação entre índices de mortalidade, demoras médias de internamento e pré-operatórias, internamentos evitáveis e até problemas de saúde adquiridos dentro do próprio hospital. Na prática, como explica ao DN a ACSS, vamos poder perceber quem é mais eficiente a tratar problemas como a insuficiência cardíaca, pneumonias ou a doença pulmonar obstrutiva crónica, as situações que mais doentes levam às camas dos hospitais, internamentos que poderiam ser evitados de fossem bem acompanhados nos centros de saúde. Para se ter a noção, segundo estimativas da ACSS, perdem-se todos os anos cerca de 170 milhões de euros em internamentos evitáveis, e aquelas três doenças representam 85% desse universo.

Muito internados, poucas camas

"O objetivo é devolver aos hospitais a informação do que vão realizando", sublinha Ricardo Mestre, vogal do conselho diretivo da ACSS, que avança três grandes áreas que podem ser melhoradas com aquilo que em termos técnicos se designa como novo ecossistema sobre morbilidade hospitalar: Ao nível da produção, "para melhorar a eficiência interna e o desempenho das unidades, para que cada um possa comparar-se com outros da mesma categoria nas boas práticas" e possa perceber em que áreas deve focar a investigação; da transparência, "para levar a uma competição saudável entre hospitais, melhorias pelo exemplo de outras unidades, em que as demoras médias de internamento serão publicadas, tendo por base o tempo expectável"; e ao nível do financiamento, porque apesar de os hospitais já serem pagos em função de objetivos contratualizados, como demoras no internamento, "este sistema ajudará a definir melhor o lugar do hospital no seu grupo".

Ao cruzar os dados do internamento do ano passado com os de camas disponíveis para casos agudos, percebe-se que os serviços têm um problema cada vez maior de falta de meios para responder às situações mais complicadas. Enquanto o número de dias de internamento (6 721 571) e a demora média em que um doente fica no hospital (8,4 dias) atingiram máximos absolutos desta década em 2017, o rácio de camas de agudos por mil habitantes está abaixo do valor de 2010, embora tenha subido 0,4 pontos desde o início da legislatura. "Temos duas situações que se cruzam: maior ambulatorização nos hospitais, mas também mais situações que precisam de internamento, com mais complicações, e é para isso que temos de nos preparar", reconhece Ricardo Mestre.

Um retrato "global" do sistema

A atual equipa que está à frente do Ministério da Saúde até já assumiu como prioridade o aumento do número de camas para doentes agudos - o DN já noticiou recentemente que os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) têm até setembro de criar quase 150 camas para doentes urgentes e voltar a níveis pré-crise -, no entanto não quer reduzir a atual medida a esse objetivo. "Essa é apenas uma das variáveis, sabendo-se que temos uma população mais envelhecida, com mais doenças crónicas, em que é preciso perceber porque temos mais internamentos. Mas este processo é mais global, podemos ter uma comparação mais fina entre serviços", argumenta a secretária de Estado da Saúde, Rosa Valente de Matos, que quer perceber desde logo que resposta é dada nos centros de saúde.

Alguns dos maiores hospitais do país têm-se também queixado da pressão que a lei da liberdade de escolha tem colocado sobre os serviços. Não pode este novo sistema de informação levar os utentes a concentrarem-se ainda mais nas unidades com melhores respostas, criando-lhes mais dificuldades? Responde novamente e de forma rápida a secretária de Estado. "Os hospitais não podem estar fechados, têm de se organizar de forma moderna para receber quem os procura".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.