Só 17% das escolas têm a maior parte dos alunos sem negativas

Apenas 88 em 546 secundárias conseguem ter 50% ou mais dos alunos sem chumbos ou falhas nas provas

A realidade das escolas portuguesas mostra que ainda será longo o caminho até que o insucesso seja pontual. Em 2016-17, de acordo com dados do Ministério da Educação, apenas cerca de 17% das secundárias (88 em 546) conseguiram que pelo menos metade dos seus alunos tivessem os chamados "percursos diretos de sucesso": sem retenções ao longo do ciclo de escolaridade e com positivas nos exames nacionais.

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Por outras palavras, em cada seis escolas secundárias, há cinco em que mais de metade dos estudantes chumbaram ou tiveram negativa nos exames pelo menos uma vez. Números que, em declarações ao DN (ver página, 8) o secretário de Estado João Costa associa a uma "cultura de retenção". E que explicam como é que, mesmo com uma década de melhorias, Portugal continua a ter uma das maiores taxas de abandono e insucesso do mundo, chegando aos 16% no secundário, e rondando mesmo os 30% no 12.º ano.

Particularmente preocupante, tendo em conta o facto de a rede pública ser quatro vezes superior à privada, é o facto de apenas 37 secundárias públicas figurarem entre as 88 escolas que levam pelo menos 50% dos seus alunos a percursos sem falhas. A melhor estatal a esse nível é a Infanta D. Maria, de Coimbra, com 61,7% de percursos de sucesso, numa tabela liderada pelo Colégio do Rosário, do Porto, onde 87,6% dos estudantes cumprem o secundário sem mácula.

No fundo da lista, há casos de estabelecimentos públicos e privados cujas prestações globais são de tal forma baixas que não podem deixar de fazer disparar sinais de alerta. Em 25 secundárias, menos de 20% dos alunos têm percursos de sucesso. E há um caso extremo, da secundária da Baixa da Banheira, em que esse valor foi de... 2%.

No 3.º ciclo, os resultados foram ligeiramente melhores, com cerca de 25% das escolas, num universo de 1145, a assegurarem que pelo menos metade dos seus alunos acabam o 9.º ano sem terem sido reprovados ao longo do terceiro ciclo e sem negativas nas provas nacionais.

Refira-se que as listagens divulgadas pelo Ministério da Educação não incluem dados das regiões autónomas dos Açores e da Madeira nem consideram estabelecimentos com menos de 20 alunos na amostra.

Superar expectativas

Dentro desta realidade globalmente preocupante escondem-se muitos bons exemplos de superação: as escolas que, quando comparadas com estabelecimentos que têm alunos semelhantes - quer ao nível do contexto socioeconómico e cultural das famílias quer no que respeita aos resultados que traziam no início do ciclo - vão além do que seria expectável, destacando-se face às suas pares.

Este indicador, que o ministério define como os resultados da escola em relação à média nacional, serve de base aos rankings do sucesso do secundário elaborados pelo DN, por ser aquele que melhor permite medir a capacidade da escola para fazer a diferença quando todos os outros parâmetros são semelhantes.

Nesta lista, o primeiro lugar vai para o Colégio de São Miguel de Fátima, do distrito de Santarém. Este estabelecimento privado com contrato de associação - a frequência dos alunos foi financiada pelo Ministério da Educação - teve resultados superiores à média em 19,8%, contabilizando um total de 63,9% de percursos diretos de sucesso.

Um desempenho que não pode deixar de agradar especialmente aos representantes do setor privado, os quais - dada a redução dos apoios estatais para este tipo de turmas, devido à redundância de algumas ofertas com a rede pública - têm argumentado frequentemente que estes colégios são capazes de fazer melhor com os mesmos meios.

Este é, no entanto, um ranking muito mais equilibrado na relação entre ensino público e privado, com seis escolas da rede estatal a marcar lugar nas dez primeiras posições.

Em segundo lugar, comprovando que o desempenho absoluto não diz tudo sobre o trabalho realizado, está a Escola Básica e Secundária de Arga e Lima, Lanheses, de Viana do Castelo. Não chegou, por pouco, ao grupo das escolas que garantem percursos de sucesso a mais de metade dos seus alunos, ficando-se pelos 49,1%. Mas na comparação com os seus pares, este estabelecimento, localizado no interior e frequentado por alunos cujas famílias têm baixos níveis de escolaridade, foi muito além do que seria expectável.

Sem progressos

Também há escolas que desiludem quanto ao seu potencial. A esse nível, a prestação mais negativa é da Básica e Secundária de Fornos de Algodres (Guarda), que apenas conseguiu 25% de percursos de sucesso, ficando -21,5% abaixo do desempenho de escolas comparáveis. Nesta tabela, os cinco piores desempenhos são de escolas públicas. Mas também ali se encontram quatro privados, incluindo um colégio com contrato de associação: o Instituto Vaz Serra, no sétimo lugar, e, em oitavo, o Colégio Militar - 40,9% de percursos de sucesso e -12,3% face ao expectável -, o qual já no ano passado esteve nesta lista.

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