"Os gases emitidos em Sines vão afetar outras zonas"

Francisco Ferreira, presidente da "ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável", considera que é necessário olhar com cuidado para a lista da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre os 15 locais em Portugal que ultrapassam o nível máximo de partículas finas inaláveis. Segundo o professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, embora o Porto não entre no ranking, Lisboa e Porto têm as situações mais preocupantes ao nível de poluição atmosférica no País.

O que é que coloca Estarreja no topo da lista das cidades mais poluídas?

Um micrograma de diferença não é muito significativo. O porquê de Estarreja estar na lista terá a ver com o facto de ter alguma influência industrial. Este ranking deve ser lido com cuidado. A esperança de vida e os níveis de poluição dentro de Lisboa são muito piores do que o impacto de ter 15 microgramas [de partículas finas por metro quadrado] em Estarreja. A OMS olha para as partículas finas, mas quando analisamos a poluição devemos olhar para o conjunto dos poluentes, inclusive para as grosseiras.

A situação em Lisboa é, portanto, mais preocupante?

As diferenças entre as cidades são muito pouco significativas. Quase que poria todas as cidades da lista com um pequeno alerta amarelo. Estamos acima dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde, mas a cumprir o valor limite fixado pela União Europeia. Temos de ter uma leitura mais abrangente dos poluentes e da ocorrência de determinados episódios de poluição em alguns locais. Se calhar poria o centro de Lisboa, do Porto e zonas de tráfego em Braga com um semáforo vermelho. É essa leitura mais integrada que traduz uma realidade mais correta. Em Lisboa e Porto, em determinadas zonas de tráfego, a situação é muito mais preocupante do que em cidades que aparecem no topo desta lista. E tudo depende das condições meteorológicas em que ocorrem as medições.

Como é que Sines não aparece na lista?

Esse é um excelente exemplo. A indústria em Sines tem um efeito local, por exemplo, em relação a determinados poluentes, nomeadamente os compostos orgânicos voláteis. Daí o cheiro junto às indústrias de refinação. Mas as partículas finas, o que está aqui em jogo, resultam da transformação de vários gases. E as chaminés em Sines são das mais altas em Portugal. Portanto, o grosso da poluição de Sines é espalhado a partir das chaminés por uma área muito grande. A influência em termos de partículas finas será longe de Sines, para onde o vento arrastar essas partículas, algures para o Alentejo Interior e para o Algarve.

O vento tem uma influência grande nas medições?

Num caso como Sines, com chaminés com mais de 200 metros de altura, os gases emitidos vão afetar outras zonas que não o concelho onde têm origem. Já no tráfego, a dispersão é menor.

Quando Lisboa tem níveis preocupantes, qual a situação a nível global, por exemplo em Pequim?

O que se passa em Pequim, Nova Deli ou São Paulo - as chamadas mega cidades - é que, ao nível do tráfego, temos não uma, mas milhentas avenidas da Liberdade. Portanto, a escala de poluição que está em jogo é avassaladoramente maior. Além disso, temos também muita indústria.

O que significa dizer que uma cidade ultrapassa o nível máximo de partículas finas inaláveis?

Na legislação europeia e à escala mundial, avaliamos as partículas grosseiras - até 10 micrómetros de diâmetro - e as finas - com diâmetro inferior a 2.5 micrómetros. Em relação às finas, as que foram usadas pela OMS, são medidas, em muitos casos, fora das cidades, mas são representativas de áreas bastante vastas, pelo que o relatório até pode ser enganador. O Porto, por exemplo, não está na lista e não é por estar menos poluído do que alguns desses sítios. Muito provavelmente é porque não há dados. Em Lisboa, na Avenida de Liberdade, por exemplo, não se medem as partículas finas.

Os valores definidos pela União Europeia e pela OMS são diferentes?

Há um valor limite anual da UE e existem as recomendações da OMS. Curiosamente, em relação às partículas mais finas - com consequências maiores para a saúde porque vão até aos pulmões - a Europa fixa os 25 microgramas por metro cúbico, um valor que Portugal está a respeitar em todas as estações, o que não acontece em relação às partículas grosseiras, nomeadamente no Porto e em Lisboa. As 10 microgramas por metro cúbico fixadas pela OMS são o objetivo desejável, mas bastante exigente.

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