O soldado da luz

Vida. Rodeia-te de rosas, ama, bebe, dança e cala. O mais é nada. Ricardo Reis, o Pessoa estóico, escreveu a frase que podia ser o mote de Manuel Reis - só faltava esta palavra, dança. Adeus a um revolucionário para quem Lenine, como para Godard, se citava ao contrário: a estética como ética do futuro. De agora.

A última coisa que disse ao Manel (impossível dizer "Manuel") foi: "É difícil fazer-te justiça." E agora aqui estou mais uma vez. A tentar. É mais fácil, claro, agora que ele não vai ler - e que não tenho de imaginar a cara que faria, se alguma coisa lhe pareceria disparate ou erro ou saloiice, excesso de lirismo, hipérbole ou graxa ou se, porque é sempre possível quando escrevemos sobre alguém, o magoaria.

E para fazer justiça ao Manel, mesmo injustiçando muita gente, tenho de dizer que ler repetido, na noite em que se soube que o perdêramos, "O homem que mudou/revolucionou/fez a noite" ou, como escreveu ontem Vítor Belanciano no Público, "inventou uma Lisboa que é nossa", me parece tão pouco. Tudo tão pouco, para continuar a citar Ricardo Reis. Não porque seja falso - claro que o Manel mudou a noite e a cidade, isso nem se discute. Mas porque aquilo que ele foi, é, fez e faz - o que ele é e foi continua na equipa dele e nos espaços que criou - não se resume à noite, a bares, a decorações, a lojas, a restaurantes, à elegância, ao bom gosto, à simpatia. Sequer a uma cidade.

Porque é que a maioria acha que é só isso ou sobretudo isso? Em primeiro lugar porque a ideia da "noite" é a ideia de algo pouco relevante, espaço de diversão e perdição e pouco mais, uma coisa para "jovens", uma atração turística, um negócio talvez até um pouco escuro. E porque, como me disse há um ano a blogger, figurinista e atriz dos Praga Joana Barrios, que fez a porta do Lux de 2010 a 2013, faltou quem falasse mais vezes do resto, ou do essencial. "Acho que se devia fazer uma coisa a sério sobre o Manel. Porque é uma pessoa tão importante nas nossas vidas, tão importante para Portugal. E acho que muita gente não sabe o quão importante ele é, o quanto não seríamos o que somos se ele não existisse." A Joana estava a dizer: faz. Mas o pudor do Manel face a entrevistas - deu muito poucas, pouquíssimas - e à exposição travou-me, mais o meu medo.

Finalmente, há um mês, percebi que tinha mesmo de falar sobre isso. Era mais fácil porque podia disfarçar e apresentar a coisa como sendo a propósito dos 20 anos do Lux, que se celebram este ano (abriu em julho de 1998). Numa conversa com o Pedro Fradique, que chegou à direção de comunicação do Lux depois de ser jornalista e de trabalhar na comunicação da FNAC, no andar de baixo (sim, consegue-se conversar no andar de baixo do Lux, acreditem ou não; consegue-se conversar em qualquer lado), no meio de todos aqueles corpos em movimento, surgiu-me a noção essencial. O Pedro estava a contar o que respondia quando lhe perguntam o que faz: "Trabalho numa parte muito importante da vida das pessoas." Foi ali, quando ele disse aquilo, que pensei no nome desse trabalho: liberdade.

"O que ele mudou foi a vida! A de todos!"

O Manel, que nasceu em Albufeira (coisa que como a idade dele desconhecia até ontem -- nunca me ocorreu perguntar), que foi comissário de bordo na TAP e em 1974 começou a negociar "objetos de arte" (é assim que está no CV; ele descreveu-mo como sendo um negócio de móveis, como seria depois a Loja da Atalaia, na rua do mesmo nome, inaugurada em 1983) num estabelecimento chamado 1900-1930, na Travessa da Queimada (Bairro Alto), que teve também uma loja de roupa na Rua da Atalaia, a Jonatas, e em 1982 abriu, na confluência da mesma rua com a Travessa da Queimada, o bar Frágil, foi, além de um esteta, de um incansável e sofisticado perseguidor e produtor de beleza, de um cenarista (em teatro e ópera e moda), de um patrono de artistas (organizando exposições, dando palco, emprego, conselhos), acima de tudo um libertador.

Porquê? André Teodósio, fundador da companhia de teatro Praga (a mesma da Joana), escreveu-o anteontem no FB, reclamando para o Manel um lugar no Panteão e proclamando-o "herói nacional": "Morreu o homem que fez o resto que a revolução a 25 de Abril não conseguiu trazer. (...) O reconhecimento é público, as histórias míticas e notórias, a justiça claramente por fazer (...). Foram décadas e décadas de um país a libertar-se de preconceitos (éticos, estéticos, sociais) e assim foram também milhões de pessoas que ele ajudou a libertar, não obstante por vezes defenderem o contrário. Digamos que todas as matérias sociais, políticas, artísticas, etc que ainda hoje são debatidas e se tornam realidade passam por conquistas históricas, posicionamentos identitários e disponibilidades afectivas que sem ele não teriam acontecido." E depois, nos comentários, acrescentou: "Como é possível não entenderem como mudou tudo. Galvão de Melo diz "esta revolução não é para putas e paneleiros". O Manuel foi ao cerne da questão e abraçou toda uma política de identidade, de precariedade, de revolução estética fora do formalismo normativo, contra o classismo e jogou com todos os poderes para alterar as nossas vidas. A dança era só a celebração da vida. O que ele mudou foi a vida! A de todos! Até os que acham que não querem! Como não ver isto. (...) Esta é das pessoas mais importantes no país. Não era um empreendedor e homem da noite, não era um decorador. Era um revolucionário."

Carmo Afonso, advogada do Lux e uma das mais próximas amigas de Manel, disse parecido, também no FB: "Defendeste-nos. O nós aqui inclui os vadios, os drogados, os gays, os boémios, os artistas, os desengraçados, os poetas, os betos rebeldes, as fufas, os burocratas, que andariam sempre à deriva na rua à procura de um sítio onde pudessem estar à vontade - encontrámos." Isto, que agora parece tão sem relevância, tão banal - essa coisa de haver um lugar para "estarmos à vontade" - não foi sempre assim. Talvez de recordar que no ano em que o Frágil, um espaço que resultou de uma padaria, uma tasca e uma fábrica de pão, abriu num Bairro Alto onde só havia um outro sítio "novo" (o Rock House, na Rua Diário de Notícias), a homossexualidade ainda era crime no Código Penal português. Talvez de recordar que ainda nem se tinha ouvido falar de sida - vinha aí esse pavor que matou tantos de nós; talvez de recordar que a Constituição que reconhecia às mulheres igualdade de direitos tinha seis anos.

O luxo de iluminar

O Portugal de 1982 era um país atrasado, periférico, tristonho, complexado, onde a maioria das pessoas se vestia de igual e os últimos lançamentos musicais só estavam, a custo, disponíveis em lojas de "discos importados". Para saber o que se ouvia "lá fora" tinha de se ter bons contactos, dinheiro, ou ouvir o programa do António Sérgio na Rádio Comercial e ler o Miguel Esteves Cardoso, que então escrevia num semanário entretanto extinto, o Sete, sobre música. As pessoas que se vestiam de "forma diferente" eram insultadas na rua; aliás exibir o preto total que, mais os cabelos erguidos a laca, sabão e gel, era a marca distintiva da pequena tribo que frequentava o Frágil e o Rock House (e o Trumps, na Rua da Imprensa Nacional, no Príncipe Real), e que o Manel usou até agora, era caso para quase agressão - achava-se um desrespeito ver a cor do luto como moda. Era este o país, era esta a cidade onde o Manel criou o lugar onde para além de celebrar aquilo que na altura se chamava "diferença" e que, repito, só se pode denominar liberdade, promoveu, em concertos e decorações, artistas de todas as artes, incluindo a de ser. Quem hoje, sem as ter vivido, vê as fotos dos 16 anos em que o Manel dirigiu o Frágil reconhece aqui e ali "nomes" - aqueles que invariavelmente vemos nos artigos e que correspondem às pessoas que se qualifica de "notáveis" ou, horror, "famosas" -; e ignora algumas das personagens mais fascinantes daquela época. Essas, cuja grandeza consistia em levar Wilde à letra -- "Deve-se ser uma obra de arte ou vestir uma obra de arte" --, são o símbolo mais certeiro desse momento raro em que gente de origens, idades e consistências intelectuais tão diversas se encontrou, procurou e uniu numa narrativa ferozmente individual. As efígies de uma glória transitória, frágil e eterna como todas as glórias.

Bastaria pois que Manel Reis tivesse feito o Frágil para merecer um lugar na história dos séculos XX e XXI - a história que mais interessa, a dos movimentos culturais e das ideias, a história ética e a história estética. Podia ter ficado por aí, por oferecer um lugar onde fosse possível ensaiar o Portugal que queríamos criar, que queríamos ser. Mas aos 52 anos decidiu mudar tudo: do conceito do pequeno - minúsculo, para os critérios atuais -- bar onde se dançava e fechava às duas para o gigantesco Lux, com os seus dois andares mais terraço, três ambientes musicais distintos, milhares de corpos misturados até amanhecer. O conceito Lux, com a sua despojada e rigorosa beleza, o seu luxo e a sua luz, atravessou as fronteiras. Não por ter como sócio John Malkovich (também envolvido no lançamento do restaurante Bica do Sapato, no mesmo ano), mas por ser um lugar deslumbrante. E onde, mais uma vez, a programação cultural e ideológica é parte fundamental.

Sei que haverá pessoas que leem isto - se lerem - e comentam: "Mas que exagero, dizer tudo isto de um empresário da noite". A culpa disso também é do Manel, porque se calou, porque teve a soberba e altivez, mas também a modéstia e a cautela, de não querer explicar, de deixar as suas obras e feitos dizer por ele a quem soubesse ouvir, ver, perceber. E nossa, minha, de todos os que tendo o dever de divulgar nos encostámos no conforto de o ter, de o fruir, de viver o que nos oferecia, seguir os caminhos que iluminava.

No seu segundo filme, Le petit soldat (O soldado das sombras, 1963) Godard põe o protagonista a dizer uma frase que atribui a Lenine: "A ética será a estética do futuro". Quando vi o filme, nos anos 80, pensei que a frase funcionava também, talvez melhor, ao contrário. Mais tarde descobri que Godard dissera o mesmo: "Pode ser verdade que tenhamos de escolher entre ética e estética, mas não é menos verdade que, qualquer que escolhamos, encontraremos sempre a outra no fim do caminho. A essência de ser humano é encenação." Laurie Anderson pegou nisso e deu-lhe mais uma volta: "Ethics is the aesthetics of the few-ture" (desculpem, não vou traduzir). O futuro como um lugar de escolhidos, de poucos: o Manel quis que chegássemos lá todos, ao bom e ao belo. Porque são o mesmo. Como ele.

(O até já - era assim que ele se despedia -- ao Manuel Reis é hoje, a partir das seis, no Teatro Thalia, em Lisboa).

(Texto alterado às 14.38 de 27 de março, para substituir o nome do heterónimo de Pessoa Álvaro de Campos pelo de Ricardo Reis, obviamente o "Pessoa estóico" e autor do poema citado.)

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