Trabalhar pela liberdade

João Botelho costuma citar Nietzsche: "Só creio num deus que saiba dançar." Esse deus somos nós, não há outro - e é em templos como o Lux que o celebramos, nos celebramos.

Há semanas recebi um mail. Dizia que o Lux faz 20 anos. Eu já sabia. Ou melhor, não sabia; ainda não sei, duvido que alguma vez saiba. Como é que passam assim 20 anos? Como é que olhamos para trás e zut, duas décadas?

Mas esse é um problema meu: não interessa para nada, mesmo se o mail que recebi, e que, como Miguel Esteves Cardoso comentou em Os teus 20 anos, crónica de 13 de Janeiro no Público, está muito bem escrito e muito bem em tudo, diz: "Queremos fazer contas." Contas. Deve e haver. OK. Devo antes de mais, porque isto é um jornal, explicar o que é o Lux, de seu nome completo Lux Frágil, nascido em 1998. Porque pode haver quem me leia e não saiba, nunca tenha ouvido falar.

Mas, notem, não é fácil. Podia dizer "é um bar". Ou "é uma discoteca". Ou, como diz o mail, "um clube". Podia dizer "é em Lisboa, ao pé do rio, em Santa Apolónia, num sítio chamado Cais da Pedra." Podia dizer "é um sítio lindo, com janelas e um terraço sobre o Tejo e a cidade, onde vemos nascer o sol quando ficámos até ao fim." Podia dizer "é muito grande, com duas pistas, uma no rés-do-chão e outra no primeiro andar, e ainda um terraço onde também se dança". Podia dizer "é um lugar do qual muita gente que nunca lá entrou já ouviu falar, em Portugal e fora." O mail fala disso - de como este clube português se tornou uma referência na Europa (no mundo?). Das discotecas - gosto deste termo tão caído em desuso --, da música eletrónica, da dança, da noite. E dos dias - também abre de dia de vez em quando e fecha sempre de manhã.

Da alegria.

Mas isso ainda assim não diz grande coisa para quem não sabe do que estou a falar e mesmo para quem saiba. De modo que tenho de me contradizer. A única forma significativa de falar das coisas é pessoal. É aquela em que usamos o que pensamos e sentimos das coisas para chegar aos outros. Tenho de falar da forma como cheguei ao Lux, então, e de como o penso e sinto. E é complicado, porque quando o Lux abriu eu não gostei do Lux. Achei-o belíssimo mas demasiado grande, tão grande quanto o anterior sítio do seu autor - já lá vamos - era pequeno, tão feito para multidões como o antecessor era para escolhidos. Digamos que não gostei de tanta democracia, de poder passar uma noite inteira a perder-me dos meus amigos, uma noite inteira sem ver uma cara conhecida. Digamos que não percebi que não fazia sentido ficar sempre tudo igual, sermos sempre os mesmos. Digamos que fui parva.

Depois, havia outra questão: a música. Há em tudo uma aprendizagem, e a música não é exceção. Temos de apreender a narrativa, deixá-la falar connosco, tomar conta de nós. Eu tinha um preconceito contra a música eletrónica. Decidira não lhe dar uma oportunidade. E havia a dureza, a violência do piso zero, escuro, como um poço de corpos em movimento onde mal vemos para andar, rostos em eclipse no pulsar das luzes, uma espécie de transe coletivo onde ou estás ou não estás, ou fazes parte ou não, ou te abandonas ou foges. Havia tudo isso. De modo que decidi que não, que o Lux não era para mim. Ia lá parar de vez em quando, porque é o lugar que fecha mais tarde e há noites que queremos prolongar até ser possível.

Não me lembro quando foi que o Lux fez de súbito sentido e se tornou um sítio meu como o Frágil o fora, um lugar de descoberta e comunhão e família como têm de ser os nossos lugares, quando deixou de me parecer demasiado grande para ter a dimensão apropriada. Quando percebi que a sequência lógica do Frágil, que, inaugurado em 1982, fora um laboratório de tudo o que de mais precioso e deslumbrante nascia no Portugal pós 25 de Abril, teria de ser assim, para todos, aberto como o Frágil fora fechado; que o que era pequeno e quase secreto tinha de crescer e ser público, abrir os braços. O Manuel Reis tinha percebido, claro.

O Manuel Reis é um génio de Lisboa, diz MEC na crónica citada. Certo, podemos dizer isso; vejo porém outra coisa, mais universal, mais funda, mais fundamental -- o maior elogio que consigo fazer a alguém. E o que vejo é um génio da liberdade. Alguém que trabalha para libertar. Fê-lo no Frágil, continua a fazê-lo no Lux. Corpos, cabeças, ideias, costumes - da maneira mais eficaz e antiga que existe, a de criar lugares de encontro, de cruzamento, de troca, de entrega, de comunhão, de amor: cidades dentro da cidade. Cidades de dança.

Na dança, como diz Catarina Portas num texto escrito para o Lux, "tudo se desfoca em nosso redor para que algo se torne subitamente incrivelmente transparente dentro de nós. (...) São momentos de rara lucidez, flechas de súbita certeza que nos atingem entre a multidão tumultuosa." A dançar olhamos para dentro e para fora ao mesmo tempo, entregamo-nos a um exorcismo primitivo, o de expulsar o peso, o medo, a morte. Sintonizamos; sintonizamo-nos. "Como um pedaço de vento que sopra onde quer, cada um dança como sente e quer, e ninguém se importa", escreveu João Botelho também sobre o Lux.

O João costuma citar Nietzsche: "Só creio num deus que saiba dançar." Esse deus somos nós, não há outro - e é em templos como o Lux que o celebramos, nos celebramos. Obrigada, Manel, por estes 20 anos, por estes 36 anos. Foi mesmo, é mesmo, como no nome de uma das festas desta celebração, aquela para a qual a Catarina e o João escreveram, Life Changing.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).