Namorados acham normal proibir, perseguir e abusar

O que fazem os namorados de hoje? Maioria já foi vítima de violência e há cada vez mais quem legitime estes comportamentos. Rapazes aceitam mais a violência do que raparigas

Se um proíbe o uso da saia, o outro entra no Facebook sem autorização do próprio, e há também quem pressione para fazer sexo. Estes são alguns dos comportamentos aceites por grande parte dos jovens portugueses. Namoram ou namoraram e a maioria já foi vítima de violência, segundo o estudo nacional sobre violência no namoro que será apresentado hoje, no Dia dos Namorados. O inquérito é realizado pelo segundo ano e as coisas não melhoraram, antes pioraram.

"Tanto a vitimação como a legitimação aumentaram e isso é preocupante", sublinha Margarida Teixeira, uma das investigadoras do estudo "Violência no Namoro", da União das Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), coordenado por Maria José Magalhães. Conclusões a debater entre as associações e com a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro, que nesta manhã estará na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Porto, onde o trabalho será divulgado. Os jovens foram inquiridos no final de 2017 e início de 2018, sendo os resultados comparados com os de 2017.

"O que está a falhar é a prevenção, existem campanhas e ações de sensibilização em algumas escolas mas não é em todas e não atinge todas as idades. A prevenção tem de ser contínua e começar no jardim-de-infância", defende Margarida Teixeira. Dá como exemplo a disciplina de Formação Cívica, onde estas questões têm sido abordadas, que apenas existe no ensino básico e não é em todos os estabelecimentos. "Privilegiam-se as disciplinas formais em detrimento da formação do indivíduo, quando devia ser uma parte importante do ensino. Além de que estes temas podem ser abordados nas várias disciplinas", critica a investigadora.

Foram entrevistados 4652 jovens entre os 12 e os 18 anos, que tiveram ou estão numa relação de intimidade. A maioria (56%) sofreu atos de vitimação que, segundo a UMAR, configuram violência. E 68,5% "aceitam como natural pelo menos uma das formas de violência na intimidade". E dos inquiridos 76,9% tiveram a experiência de pelo menos uma forma de violência.

Margarida Teixeira não encontrou diferenças no entendimento destes jovens a nível regional ou social - "a violência é transversal a regiões e estratos sociais" -, já os rapazes tendem a legitimar mais as agressões do que as raparigas. Esta diferença é mais significativa a nível da violência sexual, com 34% do sexo masculino a concordar com o pressionar para beijar em frente dos outros (mais frequente) ou para ter sexo, contra 16% do sexo feminino. "Falámos com adolescentes com 12 e 13 anos que tinham sofrido este tipo de violência e surpreendeu-nos como legitimam estes comportamentos, também porque esta questão não é muito falada", reconhece Margarida Teixeira.

A violência psicológica, o insulto e a humilhação é o mais habitual (de rapazes para raparigas); seguindo-se a perseguição (mais por elas); a utilização das redes sociais, a entrada sem autorização da vítima ou partilha online da vida íntima ; e o controlo, sobretudo proibir a fala com os amigos ou o uso de determinada roupa.

A nível da legitimação daqueles comportamentos, os jovens aceitam mais facilmente o controlo, a perseguição, a violência sexual e abusos nas redes sociais. A proibição de vestir determinadas peças de roupa é legitimada por 40% dos/as jovens. "A violência nas redes sociais, enquanto dimensão (relativamente) nova nas relações de intimidade, mostra resultados alarmantes, tanto na legitimação (24%) como na vitimação (12%)", sublinham as autoras do estudo.

Outra questão é a facilidade com que o/a namorado/a aceita ser perseguido pelo outro, embora seja criminalizado. "Estes comportamentos têm vindo a ser romantizados, tanto proibir como controlar são muitas vezes entendidos como atos de amor, é uma questão cultural e que temos de trabalhar", explica Margarida Teixeira.

A violência física é a que menos vitima os inquiridos, e é também a menos legitimada. Mas, comparativamente a 2017, houve um aumento do número daqueles que desvalorizam as agressões físicas.

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