Desenhar uma torre em Picoas e revolucionar um quarteirão

Uma torre de escritórios de 17 andares está a nascer na Avenida Fontes Pereira de Melo. Com ela nasce um jardim e uma rua pedonal. Os moradores das Avenidas Novas receiam mais dificuldades para estacionar e o aumento de trânsito na zona. A autarquia diz estar a negociar lugares a baixo custo para residentes

O casal de namorados é convidado a mudar de banco de jardim onde escolheu poisar nesta hora de almoço de inverno banhado a raios de sol quente de mais. Dois homens pegam no banco de madeira, duplo, e mudam-no de lugar. Junta-se-lhes um polícia municipal - a operação é legal. Em frente, no meio da Praça Duque de Saldanha, o homem da estátua aponta. A Torre de Picoas vai no 13.º piso, puxada por guindastes, aço, betão, muitos homens e algumas mulheres de afazeres vários. Ali a dois passos vai nascer um novo edifício, uma nova praça e um novo pedaço de rua. Lisboa continua a mudar.

Este é um dos grandes projetos a nascer na capital e que vêm mudar a face da cidade, numa altura em que esta se tornou um polo de atração internacional, quer através do turismo, quer devido à pujança do mercado imobiliário, quer por ser palco de eventos mundiais como a Web Summit.

A torre de 17 andares na Avenida Fontes Pereira de Melo, em frente ao Saldanha Residence e ao Fórum Picoas ganha forma. Fica no número 41 - e é também conhecida por Edifício 41 ou Torre da Cidade. Quem lá passa vê a obra - não só porque a torre já vai alto, mas também porque não tem um andaime que a cubra por inteiro, mas uma estrutura móvel que se movimenta para onde seguem os trabalhos. Já se vê claramente a fachada envidraçada, num tom champanhe, em ziguezague, que reflete os prédios vizinhos e o céu de Lisboa.

Vê-se também a enorme consola suspensa que será o rosto deste novo edifício da cidade. "É o grande gesto do projeto - é o momento..." Patrícia Barbas, a arquiteta, para na periclitante ponte de tábuas grossas que permite, em obra, aceder à entrada principal. "Nós queríamos que o lobby tivesse dignidade. Na oferta de edifícios de escritórios em Lisboa as entradas são coisas secundárias, mas para nós são a cara do edifício. A entrada tinha de ter a dignidade do edifício que nós queríamos desenhar", explica. Aquela consola, sem pilares, sustentada pela estrutura central do edifício, junta em si espaço público e privado: "É espaço privado mas vai ser de usufruto público e para nós cose, relaciona-se com a Fontes Pereira de Melo. É neste momento que ela [a avenida] alarga, o Imaviz afasta-se, a Portugal Telecom afasta--se, o Sheraton... isto tinha de coser isto e servir como pano de fundo, com alguma delicadeza". A arquiteta vai mostrar-nos a Torre de Picoas que terá 67,8 metros de altura (a mesma do vizinho Imaviz), projeto que vai revolucionar todo o quarteirão e que deverá ficar pronto no final do ano. Um investimento de 70 milhões de euros, destinado a escritórios com duas lojas no piso térreo. O edifício relaciona-se também, a norte, com a Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves (Prémio Valmor em 1905, classificado Imóvel de Interesse Público) e, a poente, com a Maternidade Dr. Alfredo da Costa (projeto do arquiteto Ventura Terra de 1932). Um rol de desafios a que a equipa projetista teve de responder - e que fez o ateliê Barbas Lopes ganhar o concurso de ideias para o lugar em 2014.

A torre está implantada numa ponta do lote de 2144 metros quadrados, no gaveto da Fontes Pereira de Melo com a Latino Coelho. Tem dois blocos interligados, um de 13 andares (do lado da Maternidade) e outro de 17, confinando com a avenida. A sua implantação foi pensada para criar uma nova rua pedonal entre a Casa Museu e a torre e abraçar uma nova praça ajardinada que ali vai surgir, eliminando um troço da Avenida 5 de Outubro e outro da Rua Viriato em frente à MAC. No fundo, o que o gabinete de arquitetura Barbas Lopes fez foi desenhar um pedaço de cidade: "Quando foi o concurso [de ideias] feito pelo promotor foram convidadas sete equipas e este já incluía pensar o espaço exterior envolvente."

Patrícia Barbas fala-nos em "coser" espaços, mostra-nos como pode surgir uma cidade nova e de que maneira esta se relaciona com o existente, respeitando a sua linguagem. "Quando nós temos uma preexistência, uma parte do nosso trabalho é ler o que existe e coser, nesse sentido de integrar, e tentar sempre melhorar", aponta. "É muito estimulante o facto de se desenhar no meio da cidade, para a cidade, a quantidade de perguntas que temos de fazer é imensa. Quanto mais complexo é o exercício, mais estimulante é. Acreditamos estar a prestar um bom serviço, a responder à ambição deste lugar", frisa. Inspiraram-se num projeto do alemão Ludwig Mies van der Rohe, o edifício Seagram, em Nova Iorque. A arquiteta fala sempre no plural, aludindo à equipa de oito projetistas do ateliê Barbas Lopes e também ao marido e sócio, o arquiteto Diogo Seixas Lopes, falecido em 2016, que tem a sua marca forte no edifício: "O projeto já estava feito. Estava em fase de pormenorização."

Antes de subirmos as escadas de betão que nos levam ao topo dos treze andares já edificados, espreitamos o futuro nos óculos de realidade virtual do ateliê. Quase deixamos de ouvir o ruído constante da obra e da cidade - e já nem nos preocupa a manobra de descarga do camião TIR, com os enormes panos da fachada champanhe a voar sobre as nossas cabeças, suspensos num guindaste. Ali, nos óculos, é outro mundo. Gabinetes amplos e de design clean de imensas vistas sobre a cidade; o jardim com pessoas semirrobóticas que um dia seremos nós, a consola liberta de tapumes com a escadaria suave que vai fazer as vezes das tábuas de obra por onde, não tardaria, iríamos entrar na antecâmara deste futuro que está a sair do papel.

Esta obra leva uma história longa. Tudo começou em 2014 com um concurso de ideias lançado pelo promotor privado. O vereador do Planeamento, Urbanismo, Património e Obras Municipais da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Salgado, ajuda a enquadrar. "Em 2013, quando começámos a estudar toda esta reorganização do chamado Eixo Central, das avenidas Fontes Pereira de Melo e da República, detetámos que existiam aqui quatro espaços públicos de dimensão considerável que poderiam ser transformados em espaços de grande fruição pública: a Praça de Picoas, o Saldanha, a Praça José Fontana e este espaço em frente à Maternidade [atual Jardim Augusto Monjardino]. E porquê? Esta zona da cidade é a de maior concentração de emprego e é importante criar melhores condições de vivência deste espaço, com zonas verdes, onde as pessoas possam estar à hora de almoço, à tarde, ao fim de semana. Estes quatro espaços têm características para poderem ser essas praças. Há uma que já está feita, que é a ligação de Picoas à Praça José Fontana, onde vai ficar a Loja do Cidadão; o Saldanha que já está construído, foi feito o arranjo e realmente melhorou muito; e esta, que estávamos na expectativa de como fazer. Entretanto surgiu a pretensão do particular, de construir um edifício nesta zona, e impusemos duas condições: fazer um concurso de arquitetura, para que fosse de facto uma peça marcante na cidade de Lisboa, com grande qualidade, e por outro lado que houvesse ganho e melhoria de espaço público. Houve uma grande preocupação neste projeto e todas as propostas apresentadas a concurso focavam exatamente isso, a relação do novo edifício com a Casa Museu e a Maternidade, que são dois edifícios classificados e de grande valor."

O júri, presidido pelo arquiteto Manuel Aires Mateus, Prémio Pessoa 2017, escolheu este projeto. "É uma peça notável do ponto de vista da qualidade arquitetónica. Foi um concurso muito bem-sucedido, lançado para arquitetos na casa dos 40 que já tivessem tido prémios internacionais, foi essa a única orientação. Acho que vai ser um grande sucesso a utilização deste espaço público", considera Salgado.

Várias polémicas marcaram a obra. A demolição dos três edifícios ali existentes foi contestada, mas nenhum estava classificado e encontravam-se devolutos há décadas. Mais tarde, em 2016, os trabalhos estiveram parados porque foram feitas fundações da torre em terrenos camarários. O promotor da obra, Almeida Guerra, da Rockbuilding, assumiria o erro perante os deputados municipais e a solução acabou por ser desafetar do domínio público uma parcela de terreno de 27 metros quadrados. A Assembleia Municipal de Lisboa enviou uma queixa para o Ministério Público, que acabou por ser arquivada.

Novas torres a caminho

Patrícia Barbas sobe, ligeira, as escadas de betão que são uma espécie de coluna vertebral da torre. Está satisfeita por mostrar a obra, por ajudar a perceber o edifício que se agiganta em Lisboa - um dos engenheiros disse-lhe que já se vê da Ponte 25 de Abril. Não foge às questões e tem uma energia inspiradora, que não se esgota à medida que galgamos andares e descobrimos cada vez mais cidade. "Esta coisa da torre e do arranha-céus é um bocadinho exagerado...", diz a arquiteta, ciente da discórdia que a construção em altura gera na cidade. "Dezassete pisos num universo de cidades europeias, nem vou para o outro lado do Atlântico, nem se chama torres, chama-se edifícios. Lembro-me quando desenhámos houve a discussão pública, levantaram-se imensas vozes e falava-se de arranha-céus. Se isto é um arranha--céus, lembro-me sempre do Obélix, que tem medo de que o céu lhe caia em cima. É porque temos um céu muito baixo... e não é essa a forma como eu vejo...", aponta.

Também o vereador do Urbanismo da autarquia concorda que a construção em altura faz sentido, mas não em toda a Lisboa. "As cidades necessitam de ser compactas para serem mais eficientes. Para que os transportes públicos tenham maior procura e tenham mais capacidade de desenvolvimento é preciso haver mais gente. E a tendência geral em todas as cidades é ganhar densidade por um lado e crescer em altura para libertar espaço público. Se não se crescer em altura não há hipótese de densificar e ao mesmo tempo ganhar espaço público. A contrapartida para ganharmos espaço para vivermos todos - e não só os que vivem dentro do edifício - é que os edifícios subam em altura. (...) Eu acho que Lisboa aguenta perfeitamente, em localizações muito bem vistas, edifícios mais altos que marquem determinadas zonas específicas. Mas não é generalizar edifícios altos por todo o lado."

Nos próximos anos, novas torres deverão rasgar o skyline da cidade. Como o projeto do ateliê ARX para o quarteirão da Portugália, na Avenida Almirante Reis, que contempla a construção de um edifício de 15 andares para habitação, e a Infinity Tower, do promotor francês Claude Berda - 26 pisos projetados pelo arquiteto Miguel Saraiva para Sete Rios. "Estas torres em Lisboa são sempre torrinhas porque temos um grande condicionamento que é o aeroporto e o teto aéreo que é definido pelo aeroporto", diz Manuel Salgado. Questionado se o aeroporto é a única barreira à construção em altura na cidade, diz: "A mim não me chocava nada que em determinadas zonas fosse possível construir edifícios mais altos. Quando foram construídas as Amoreiras, nos anos 1980, também houve um grande clamor. Hoje as Amoreiras estão perfeitamente assumidas na cidade, quase como um ícone, é uma marca que as pessoas já interiorizaram. Portanto é evidente, há sempre resistência à mudança, já o poeta o dizia, mas é normal que estas transformações venham a existir e a verificar-se." No entanto, frisa que é importante a cidade não perder a relação com o rio. "Mas isso não significa, por exemplo, que na zona de Carnide, do Lumiar ou de Sete Rios, que já estão para trás da linha das colinas, não seja possível um dia vir a ter edifícios altos. Acho que é perfeitamente possível e era valorizador da paisagem de Lisboa, desde que com esta subida em altura se ganhasse espaço livre ao nível do chão para a fruição das pessoas. Isto é a minha opinião pessoal e como arquiteto."

Esta torre nas Picoas não assusta Paulo Lopes. O vice-presidente da Associação de Moradores das Avenidas Novas também não tem nostalgia do passado e dos edifícios que preenchiam aquele quarteirão: "Há dezenas de anos que estava fechado. Isto na zona central da cidade não é admissível. Nós não podemos querer manter a cidade estática. Há aqui opções de proteção do património que têm de ser tidas em conta, estamos a falar de terrenos privados e as pessoas têm de poder fazer ou ser compensadas por não poder fazer determinados investimentos. O palacete estava abandonado há muitos anos, não estava classificado, aquilo era um prédio pequeno. Essa situação não me choca. Preocupa-nos, sim, a salvaguarda de alguns prédios na Avenida da República", aponta. Todavia, há duas situações que inquietam - e muito - os residentes da zona. O trânsito - "como é que se vai processar o tráfego automóvel depois do fecho deste bocado da 5 de Outubro? O senhor vereador disse que a Rua Pinheiro Chagas vai ter dois sentidos ali naquele bocado, será que vai?"; e o estacionamento - "aqui a pressão para o estacionamento à superfície para os moradores vai ser grande. Poder-me-á dizer que chegam à noite. Bem, nós sabemos que as coisas hoje em dia não acontecem das nove às sete, é normal nos edifícios de escritórios trabalhar-se até bastante mais tarde, os moradores também terem horários mais diversificados, e a verdade é que nós sentimos de forma muito clara, desde há dois anos, uma pressão muito grande sobre o estacionamento", resume Paulo Lopes.

Como vai ser? Manuel Salgado explica os fluxos de tráfego que foram pensados para a zona, assim como a solução que está a ser estudada para o estacionamento nas Avenidas Novas - estamos perto da entrada do estaleiro de obra, onde há um permanente corrupio de gente de capacetes brancos, botas de biqueira de aço e coletes fluorescentes. "A conclusão a que chegámos é que não prejudicamos o trânsito nesta zona da cidade se for feita uma inflexão ali na Rua Pedro Nunes para o tráfego descendente, que depois cruza a Rua Viriato e tem acesso à Fontes Pereira de Melo e mantendo aberta ao trânsito a Rua Pinheiro Chagas, que vai ter dois sentidos. Isto permite-nos, no arranjo do espaço público [jardim] criar um percurso onde podem passar veículos de emergência". Por baixo do jardim, existe um parque de estacionamento público (Emparque) que, depois das obras, terá a entrada e saída (que sai da Rua Viriato e passa para a Pinheiro Chagas) em comum com o estacionamento da torre.

Quanto ao parqueamento, o vereador diz que a zona vai "ganhar estacionamento nas ruas laterais", através do redesenho das mesmas. E revela que paralelamente decorre uma "negociação geral entre a câmara e a concessionária dos parques de estacionamento desta zona, que são muitos, no sentido de assegurar que parte dos lugares subterrâneos são avenças a um baixo custo para os moradores". "Isso é um processo que está a ser desenvolvido no sentido de atenuar o impacto", revela, entendendo que os parques públicos têm ainda capacidade para este encaixe: "Têm uma folga grande, especialmente à noite, altura em que os moradores têm mais necessidade. Mas mesmo durante o dia, os parques públicos nesta zona têm uma folga relativamente grande", garante.

Quando tudo estiver operacional, os residentes serão uns dos que vão pôr em prática as soluções que os gabinetes desenharam. Para já, Paulo Lopes está expectante, não deixando de admitir que o arranjo feito na Praça de Picoas "está bonito" e que o futuro jardim também deverá ficar: "A questão que se põe é se as restantes artérias que compõem esta zona vão suportar a pressão de tráfego a que vão estar sujeitas. Não sabemos." O representante dos residentes alerta: "Já não há lugar para toda a gente. À noite se entrar neste bairro por trás da Maternidade, é vulgar ver nos cruzamentos, na ponta das placas, um, dois carros estacionados, nas passadeiras também. Não vou dizer que às oito da noite isso aconteça, mas às nove, dez horas, toda a gente acha que a polícia já não trabalha, que há poucos polícias, e a malta vai arriscando. Mas há estacionamento claramente abusivo. Aqui de forma muito muito visível." O DN contactou a Junta de Freguesia das Avenidas Novas, mas a presidente não quis prestar declarações por estar há pouco tempo em funções.

Também a liliputiana Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves vai sofrer alterações. O palacete projetado pelo arquiteto Norte Júnior no início do século XX para ser o ateliê do pintor José Malhoa vai ter uma nova entrada, na rua pedonal que dá para o jardim, e vai requalificar as zonas de receção e bilheteiras, de exposições temporárias e de reservas. A coordenadora do museu da rede da Direção-Geral do Património Cultural, Ana Mântua, diz acreditar que a Casa Museu vai beneficiar com esta obra, mas remete mais declarações para o futuro, quando avançar a nova programação.

O maior projeto do ateliê

Naquele dia, ainda janeiro, havia uma fina neblina sobre Lisboa. "Parece quase uma pintura japonesa", diz Patrícia Barbas, no oitavo andar do prédio. A equipa de arquitetos desdobra-se em pormenores - um dos grupos está a testar os acabamentos finais das casas de banho. Há que acautelar todas as questões porque, não tarda, as instalações sanitárias vão ser replicadas nos 17 pisos. O ateliê nunca tinha feito um projeto tão grande. "Não é uma tipologia tão vulgar. Dado que apanhámos na nossa idade madura as grandes crises, não havia a encomenda de projetos desta dimensão", acede a arquiteta. Em 2012, o ateliê Barbas Lopes assinou, com o arquiteto Gonçalo Byrne, a reabilitação do Teatro Thalia, na Estrada das Laranjeiras, em Lisboa. Atualmente tem também em obra o Palacete do Barão de Santos, no Príncipe Real, e está a fazer o projeto do Chalet Faial, em Cascais, projeto de José Luís Monteiro de 1896, classificado Monumento de Interesse Público.

Na torre, "o conceito estrutural foi fazer um núcleo central em betão e fazer esta estrutura periférica em pilares metálicos, com zonas pontuais de reforço em betão." Isso permitiu ter vãos "completamente livres de pilares" para que os futuros inquilinos deem um uso ao espaço a seu gosto. A sustentabilidade do edifício foi uma preocupação: "Apostamos numa classificação energética A e ambiental LEED Gold, muito difícil de obter em edifícios de escritórios em altura." As enormes janelas, fabricadas em consórcio pela Jofebar e a Martifer, têm um sistema basculante automatizado que permite fazer a ventilação natural do edifício e dão-lhe um aspeto camaleónico: "Este champanhe da fachada reage muito à luz, portanto à exposição quando está em sol ou em sombra, e torna o edifício umas vezes mais brilhante e visível, outras menos." A torre deverá estar concluída em junho, seguindo-se depois os acabamentos e o arranjo da envolvente. Sem querer adiantar prazos, Salgado aponta a inauguração da nova praça para o final do ano: "Era muito bonito que no Natal isto fosse uma prenda para os residentes desta zona."

Como imagina esta torre daqui a cem anos? Patrícia Barbas sorri. "O sonho de um arquiteto ao desenhar um edifício é que daqui a dez anos vai estar fantástico, faz parte da cidade e já não é possível imaginá-la sem ele. O Seagram é um exemplo disso, é um edifício sem data. Poderia ter sido feito ontem, amanhã ou nos anos 1950, como foi. Isso é uma coisa que para nós está sempre em cima da mesa, que é desenhar o que é verdadeiramente importante, o que perdura ao fenómeno da moda. Tentamos pôr-nos de fora e imaginar. Trabalhar o tempo."

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